A Quarta-Feira de Cinzas inesquecível: um ano da pior ressaca de carnaval da vida dos investidores
Faltam alguns dias para a crise do coronavírus de fato completar um ano. Mas, pelo menos aqui no Brasil, foi em uma Quarta-Feira de Cinzas que tudo começou... Relembre os piores momentos da crise que mudou o mundo

Ah, a Quarta-Feira de Cinzas…. O tradicional dia que, para os religiosos, inicia o período da Quaresma, e, para os foliões, costuma ser o dia oficial da ressaca de Carnaval, após quatro dias de folia.
Neste ano, a Quarta-Feira de Cinzas terá um gosto amargo, afinal, a pandemia do coronavírus que segue assolando o mundo de maneira avassaladora cancelou as festividades em solo nacional - mas não a interrupção da bolsa brasileira, já que a B3 manteve a tradição e não funcionou nos últimos dias.
Ainda assim, o gosto não será tão amargo quanto o da Quarta-Feira de Cinzas do Carnaval passado. Lembro-me dessa época do ano em 2020 com grande nostalgia, já que foi o último momento em que pude estar com os meus amigos, que, em sua maioria, não vejo desde então.
Mas, para os investidores, a aquele dia foi só o “primeiro gostinho” do que viria ser uma das piores crises da história do mercado. Enquanto as bolsas estiveram fechadas pelo Carnaval, as coisas (que já davam sinais de não estarem muito boas) só ficaram piores no exterior. Com as negociações paralisadas por aqui, restou à bolsa brasileira corrigir tudo na volta aos negócios, que só aconteceu na parte da tarde do dia 26 de fevereiro de 2020.
Logo nos primeiros minutos do pregão, o principal índice da bolsa brasileira teve uma queda de 4%. No fim do dia, o recuo foi de 7% - naquele momento, a maior queda desde o fatídico Joesley Day, em maio de 2017. No mês de março, a queda foi de 30%.
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Do começo do ano até o pior momento da crise, que aconteceu no dia 23 de março, a bolsa brasileira perdeu quase 50% do seu valor, batendo nos 63.570 pontos e só foi possível recuperar o patamar pré-Carnaval em dezembro. Nesse período, tivemos oito meses bem intensos. E bota intensos nisso.
Os nervos ficaram à flor da pele tanto nos investidores como nos repórteres de mercados aqui na redação do Seu Dinheiro (e de outros veículos de Economia mundo afora), já que tivemos um caminhão de interrupções das negociações, com direito ao “botão do pânico” sendo acionado mais de uma vez em um único dia.
É, caro leitor, lá se foi um ano. A vacinação já começou, mas o coronavírus segue aí fora, sobrecarregando o sistema de saúde, fragilizando a economia e nos "roubando" uma vida normal.
Nos mercados, a atuação rápida e quase ilimitada dos governos e Bancos Centrais garantiu um certo retorno à normalidade. Então, com a chegada da Quarta-Feira de Cinzas de 2021, decidimos relembrar os dias de pânico que com certeza entrarão para os livros de História.

Pré-Carnaval badalado
Antes de fechar a lojinha para celebrar o Carnaval, a B3 já havia visto dias melhores em 2020. Em janeiro, o principal índice da bolsa brasileira havia batido os 120 mil pontos, mas, depois disso, uma série de conflitos diplomáticos e uma cautela maior na Ásia com relação ao coronavírus já vinham segurando o fôlego dos investidores.
O primeiro alerta sobre o novo coronavírus foi feito ainda em 2019 pela Organização Mundial de Saúde (OMS), após o governo chinês anunciar a identificação de casos de uma pneumonia misteriosa em Wuhan e o isolamento dos pacientes.
Foi só em 9 de janeiro que a "pneumonia misteriosa" foi identificada como uma nova variante do já conhecido coronavírus. Foi nesse dia também que a primeira morte ligada à doença foi registrada, em um chinês de 61 anos.
Os primeiros casos fora do país foram divulgados no dia 13 de janeiro, mesmo dia em que a primeira morte "internacional", na Tailândia, foi anunciada.
O primeiro caso em solo americano, por sua vez, foi registrado em 15 de janeiro. Já as primeiras medidas severas de isolamento social, com cidades inteiras fechadas, começaram a ser anunciadas no fim de janeiro, prejudicando importantes centros econômicos na China e antecipando uma grave crise econômica para todo o mundo.
O pânico durante a folia
Foi durante o Carnaval do ano passado que a situação do coronavírus passou a ficar ainda mais caótica. O problema já era considerado um tanto grave quando estava restrito à China, mas o pânico tomou conta do mundo quando cada vez mais países apresentaram um salto no número de casos.
Foi após o feriado do Ano Novo Lunar, que movimentou milhões de pessoas na Ásia, que o vírus ganhou força no continente asiático, com a Coreia do Sul, Japão e Taiwan começando a apresentar casos da doença.
Nos dias que antecederam o pânico nos mercados, a preocupação também bateu à porta do Velho Continente. A Itália - na época com sete mortos e pouco mais de 200 pessoas infectadas - mostrou que a doença ganhava força também na Europa, o que levou diversos países da região a fecharem suas fronteiras e minimizarem o tráfego de pessoas.
Enquanto a bolsa brasileira esteve fechada, os índices globais tiveram dois dias de fortes perdas, alguns ultrapassando a casa dos 5% de queda em um único dia. O EWZ, principal ETF de ações brasileiras negociado em Nova York, já indicava que a B3 deveria passar por uma correção severa, já que também despencou mais de 5% durante a folga.
O índice VIX, utilizado como régua para medir a sensibilidade e o "medo" do mercado, chegou a disparar mais de 46% em um único dia, e a cotação do ouro, tradicionalmente utilizado como uma reserva de valor e proteção, também começou a escalar...
O início do fundo do poço
Na Quarta-Feira de Cinzas, além da ressaca, todos já estavam preparados para o pior. E ele de fato aconteceu. Quando olhamos o gráfico da trajetória da bolsa brasileira, é fácil ver que o dia 26 de fevereiro marcou apenas a primeira grande queda do índice.

O dia também foi marcado pelo anúncio do primeiro caso de coronavírus no Brasil, em um senhor que havia acabado de voltar do exterior. É… Não tinha como ser muito diferente…
A bolsa brasileira abriu a Quarta-Feira de Cinzas de 2020 com uma queda de 4% já nos primeiros minutos do pregão. Ao fim do dia, o recuo do Ibovespa foi de 7%, aos 105.718,28 pontos, perdendo mais de oito mil pontos em uma única tarde.
Até aquele momento, esse era o pior desempenho para o índice desde o Joesley Day, quando a bolsa havia recuado quase 9%. A volta do Carnaval foi marcada também por estresse no câmbio, com uma alta de 1,11% no dólar à vista, que fechou o dia cotado a R$ 4,4413 — na época, um novo recorde nominal de fechamento e que foi aliviado por uma atuação do Banco Central.
Esse foi um dia em que todos os papéis da carteira do Ibovespa apresentaram queda. Se a sessão foi ruim para todo mundo, ela foi particularmente amarga para as empresas aéreas e exportadoras, que sentiriam primeiro os efeitos da desaceleração da economia mundial e da restrição de circulação de pessoas.
A ressaca se prolongou
Se o ano realmente começa só depois do Carnaval, 2020 começou com o pé esquerdo. A Quarta-Feira de Cinzas foi só a ponta do iceberg do que se viu nos meses subsequentes.
Março de 2020 certamente entrou para a história. Assim como todo mundo aprendeu o que é um circuit breaker, já que a bolsa brasileira acionou o “botão do pânico” nada mais nada menos que seis vezes em um único mês - o mesmo número de vezes que o mecanismo foi acionado durante toda a crise de 2008.
O circuit breaker é uma espécie de mecanismo de defesa existente nas bolsas de valores em todo o mundo. Na B3, funciona assim: quando o Ibovespa recua 10%, as negociações são interrompidas, os investidores respiram fundo, e os negócios só são retomados após 30 minutos.
Quando a queda ultrapassa os 15%, a pausa é de uma hora. Em casos de recuos superiores a 20%, a suspensão é feita por tempo indeterminado.

O primeiro circuit breaker da crise do coronavírus foi no dia 9 de março. Nesse dia, a tensão global teve um empurrãozinho da briga entre Arábia Saudita e Rússia em torno do corte da produção de petróleo em meio a uma queda da demanda global por conta da crise, o que fez a commodity ter meses sangrentos. Ao fim do dia, o Ibovespa havia despencado mais de 12%.
“Fichinha” perto do que ainda viria. O botão voltou a ser acionado dois dias depois, com a OMS oficialmente declarando que o surto de coronavírus era uma pandemia. No dia 12, mais surpresas negativas. O mecanismo foi acionado duas vezes na mesma sessão, marcando um dos piores momentos da crise.
Na mínima do dia, a bolsa brasileira chegou a flertar com uma terceira paralisação, ao cair quase 20%, mas o índice conseguiu se "recuperar" e evitar a catástrofe. No fim do pregão, que também teve circuit breaker nos Estados Unidos, o principal índice da bolsa brasileira marcava uma baixa de 14,78%, aos 72.582,53 pontos.
A queda estava longe de parar por aí. Nos dias 16 e 18 de março as negociações voltaram a ser paralisadas. Em março, a queda foi de 30%, com o pico da crise sendo no dia 23, quando o Ibovespa bateu os 63.570 pontos.

É... Até a recuperação total da bolsa brasileira, oito meses se passaram. Os bancos centrais em todo o mundo começaram a injetar uma quantidade de dinheiro nunca antes vista no sistema, garantindo a liquidez dos mercados e uma retomada da "normalidade" mesmo que os números da doença que abalou o mundo continuassem (e continuam) em níveis alarmantes.
A bolsa brasileira só conseguiu recuperar o patamar pré-carnaval no dia 4 de dezembro. O recorde de fechamento, anotado em janeiro de 2020, só foi batido um ano depois, em janeiro de 2021. Ainda assim, depois de tudo, o Ibovespa conseguiu fechar 2020 no azul, com uma alta de pouco mais de 2%.

Não foi só a bolsa
No câmbio, o patamar dos R$ 5, nunca antes atravessado, se tornou o novo normal. A moeda americana chegou a encostar nos R$ 6 e, se não fossem as inúmeras atuações do Banco Central e uma desvalorização da divisa em escala global, o provável é que tivéssemos, de fato, ultrapassado a marca.
Com a alta volatilidade e a instabilidade dos mercados, não foram só o câmbio e a bolsa de valores (e todas as outras classes de ativos, em maior ou menor grau) que tiveram dias de pânico.
No Brasil, até mesmo o “porto seguro” dos investimentos, o Tesouro Direto, teve dias de paralisação, após grande instabilidade nas taxas de juros. Por sinal, naqueles dias, as taxas de juros futuras dispararam, derrubando os preços dos títulos públicos.
A primeira paralisação ocorreu no dia 11 de março - dia em que tivemos circuit breakers na bolsa brasileira e em Nova York - e se repetiu mais algumas vezes. Segundo explicações do próprio Tesouro, o mecanismo foi acionado de forma a garantir que as operações fossem realizadas a preços e taxas justos no mercado.
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