Menu
Felipe Miranda
Exile on Wall Street
Felipe Miranda
É sócio-fundador e CIO da Empiricus
2020-04-13T18:26:51-03:00
Exile on Wall Street

Tempos modernos: investir é preciso, por mares nunca dantes navegados

13 de abril de 2020
10:42 - atualizado às 18:26
Navegação
Imagem: Shutterstock

"As armas e os barões assinalados,
Que da ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram”
Os Lusíadas

Vamos ter um papo de gente fina, elegante e sincera. Os tempos modernos — da História, não do Lulu — tradicionalmente têm seu início marcado em 29 de maio de 1453, com a tomada de Constantinopla pelos turcos otomanos. Pode haver alguma discordância de limite cronológico, se esse é mesmo o marco do fim da Idade Média. De modo geral, porém, concorda-se com o encerramento do feudalismo no século 15 para o início de um novo paradigma, que incluiria o renascimento, o mercantilismo e a era dos descobrimentos. Navegar era preciso, ainda que por mares nunca dantes navegados.

Na quinta-feira, no exato mesmo momento em que foram publicados mais 6,6 milhões de novos pedidos de auxílio-desemprego nos EUA, levando a um acúmulo de 16,5 milhões em apenas três semanas (projeções de desemprego já na casa de 14%, segundo Mohamed El-Erian, num patamar superior ao ápice da crise de 2008), o Federal Reserve anunciou uma injeção de liquidez de US$ 2,3 trilhões — o que inclusive rendeu anedotas divertidas:

Foi o momento em que, definitivamente, o Fed foi para o “all-in” ou teve, na prática, muito além do discurso, seu “whatever it takes” (tudo o que for necessário). De forma ainda mais ampla, talvez o banco central americano tenha adotado um novo paradigma, absorvendo até então hipótese teórica que permeia a chamada “Teoria Monetária Moderna” (Modern Monetary Theory ou MMT).

Simplificando um tanto as coisas — e talvez tornando a explicação excessivamente grosseira —, a MMT argumenta que governos com capacidade de se endividar na própria moeda não precisam se preocupar com déficits, mesmo os muito grandes, contanto que atuem para o preenchimento de folga da oferta agregada. Sempre que houver alguma fraqueza de demanda, o governo pode emitir sua própria moeda, endividar-se e isso não é um problema. Afinal, segundo a argumentação, ele poderia emitir mais moeda para pagar a própria dívida. Resumo: um governo pode se endividar indefinidamente, pagando de volta com impressão de moeda.

A expansão do balanço do Fed não encontra paralelos na história, fazendo as intervenções de 2008-09 parecerem coisa de criança — há quem argumente, como a BlackRock por exemplo, que o balanço do Fed pode rapidamente superar os US$ 10 trilhões; o que se somaria aos US$ 2 trilhões do pacote fiscal recém-aprovado nos EUA.

Qual o problema dessa experiência? Quais consequências devem ser sentidas de sua adoção?

Nós não sabemos. É exatamente esse o problema. Por enquanto, a hipótese defendida pela MMT é apenas… uma hipótese. A economia não é uma ciência que nos permite testes em ambiente de laboratório. Estamos trocando o pneu com o carro andando — e sabe lá Deus o que vai vir daí. Nunca tivemos na História uma expansão monetária dessa natureza.

Randall Wray, talvez o maior expoente da MMT, pode estar certo, e o caminho para a indefinida expansão dos déficits não seja um problema para países que possam se endividar em moeda local. Ou talvez Ray Dalio esteja certo e estejamos diante de uma brutal mudança de paradigma, rompendo o grande ciclo de dívida iniciado em 1945 e vivendo agora a iminência de um período semelhante àquele de 1930-32, à espera de uma Grande Depressão. Sua expressão “cash is trash” (o caixa é um lixo), tão duramente criticada depois dos retornos ruins da Bridgewater no auge da crise, volta a ser potencialmente pertinente, sobretudo mediante a vigorosa valorização do ouro na semana passada e a chance da corrosão de valor das moedas de reserva.

A verdade é que não sabemos ainda. Estamos em mares nunca dantes navegados, à deriva.

Há algo ao menos curioso sobre a Moderna Teoria Monetária. Ora, se não há limite para a expansão monetária em determinadas circunstâncias, desafiamos aqui a própria essência e a definição da Economia, que é a ciência da escassez. Caímos num paradoxo de que uma hipótese sobre o funcionamento da economia se choca com a própria natureza do que é a Ciência Econômica.

Outra dúvida: se a resposta à crise passa necessariamente pelo aumento indiscriminado do endividamento público, como ficam os países sobre os quais pairam questionamentos sobre sua capacidade de pagamento, entre eles, claro, o Brasil, que pode sair dessa brincadeira com uma dívida/PIB perto de 100%?

Em mares nunca dantes navegados, investir é preciso. Estamos presenciando a adoção de um procedimento sem a menor ideia de suas reais consequências. Descobriremos na prática, talvez da forma mais dolorosa. Da minha parte, prefiro não ser a cobaia.

Comentários
Leia também
ENCRUZILHADA FINANCEIRA

Confissões de um investidor angustiado

Não vou mais me contentar com os ganhos ridículos que estou conseguindo hoje nas minhas aplicações. Bem que eu queria ter alguém extremamente qualificado – e sem conflito de interesses – para me ajudar a investir. Só que eu não tenho o patrimônio do Jorge Paulo Lemann. E agora?

O MELHOR DO SEU DINHEIRO

Os três mosqueteiros do varejo e outros destaques da noite

Na bolsa e no setor de varejo, a máxima do “um por todos e todos por um” não se aplica. Empresas competem umas com as outras e investidores buscam as melhores aplicações — o “cada um por si” tem bem mais adeptos. Mas, quem diria, três mosqueteiros juntaram suas espadas para comemorar os bons resultados […]

FECHAMENTO DO DIA

Ibovespa sobe puxado pelo minério de ferro e encosta nos 123 mil; NY fecha o dia no vermelho

Com a economia chinesa aquecida, a demanda por commodities segue em alta e sustenta bons níveis para o Ibovespa.

Seleção Empiricus

🔴 AO VIVO: Quais são os investimentos para o segundo semestre? | Seleção Empiricus

Caminhando para o fim do primeiro semestre, nosso time do Seleção Empiricus de hoje discute o que podemos esperar da Bolsa para os próximos meses. A escalação do jogo de hoje conta com Max Bohm, Matheus Spiess, Cris Fensterseifer e Marcos Queiroz.

Segure seus bitcoins

Golpistas se passam por Elon Musk e roubam dinheiro de investidores de criptomoedas

Os criminosos usaram perfis falsos do CEO da Tesla para levar ao menos US$ 2 milhões de entusiastas do bitcoin e outras moedas digitais

Orçamento apertado

Segmentos mais impactados de comércio e serviços tiveram perdas de R$ 225,7 bi em 2020

Montante é maior que o total produzido por países como Sérvia e Tunísia. Varejo de roupas perdeu 10% do seu tamanho no ano passado

Carregar mais notícias
Carregar mais notícias
Fechar
Menu

Usamos cookies para guardar estatísticas de visitas, personalizar anúncios e melhorar sua experiência de navegação. Ao continuar, você concorda com nossas políticas de cookies