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Felipe Miranda
Exile on Wall Street
Felipe Miranda
É sócio-fundador e CIO da Empiricus
2020-04-28T10:35:57-03:00
Exile on Wall Street

Quem poderá nos defender? O que comprar no terror sem fim?

Como Paulo Guedes poderia salvar um governo cujo objetivo está agora apenas em salvar a si mesmo?

28 de abril de 2020
10:32 - atualizado às 10:35
Paulo Guedes
Paulo Guedes - Imagem: Jefferson Rudy/Agência Senado

Dentre as várias frases geniais de Warren Buffett, esta é uma de minhas favoritas: “Quando um gestor tido como brilhante toma conta de um negócio ruim, é a reputação do negócio que costuma permanecer intacta”.

Não sei se o jovem investidor de Omaha aprovaria, mas me permito uma adaptação, potencialmente útil para o momento: “Quando um gestor tido como brilhante trabalha num governo ruim, é a reputação do governo que costuma permanecer intacta”.



Lembro-me instantaneamente de Joaquim Levy. E de Alexandre Pombini, claro — desde que salvou o Joesley naquela fatídica compra de bilhões de dólares da JBS, goza de merecidas férias!

Como Paulo Guedes poderia salvar um governo cujo objetivo está agora apenas em salvar a si mesmo? 

Esclarecimento rápido: eu também preferiria não falar de política. Infelizmente, porém, as cotações falam dela nos últimos dias, o que me obriga a enfrentar o tema, sabendo como parte dos torcedores deste Fla-Flu reagirá aos comentários. Paciência. Noblesse oblige. Aliás, não se trata de um contexto conjuntural. Grandes ciclos estruturais de mercado são definidos pela orientação política. A orientação ortodoxa liberal do Lula 1, associada à colheita dos frutos de reformas institucionais feitas ainda sob o governo FHC e ao cenário internacional favorável, trouxe um dos grandes bull markets da história brasileira. Em contrapartida, a desorientação heterodoxa antiliberal de Dilma rendeu-nos um bear market notável, enquanto a ponte para o futuro de Michel Temer, seguida da eleição de Jair Bolsonaro sob uma retórica liberal e fiscalista, trouxe o Ibovespa dos 40 mil para os 118 mil pontos. 

Esclarecimento dentro do esclarecimento: não estou afirmando que a questão política e sua orientação de política econômica seja a única coisa relevante; certamente, o cenário internacional, o ciclo dos lucros corporativos, a disposição ao risco, a tecnologia e tantas outras coisas também têm seu peso, o que não tira a importância da política para determinar a evolução dos ciclos de mercado, sobretudo em países emergentes, onde a fragilidade institucional é maior, os fluxos de capitais interrompem-se de forma súbita (emprestando aqui o termo de Guillermo Calvo) e os mecanismos de checks and balances são menos estabelecidos.

Talvez possamos, portanto, resumir a coisa como uma associação entre cenário internacional e orientação da política econômica local como grandes determinantes da trajetória de mercado.

Pois bem. Comecemos pelo primeiro.

Entendo que o Brasil — e nossa moeda em particular — seja um dos grandes perdedores da experiência (e, de fato, é uma experiência, um teste de laboratório feito na realidade, cujas consequências são desconhecidas, trocando o pneu com o carro andando) hoje empreendida pelos bancos centrais e Tesouros Nacionais em nível mundial. Nos países desenvolvidos, de forma deliberada ou não, assumidamente ou não (pouco importa), estamos levando à prática a hipótese teórica da Moderna Teoria Monetária. Eu já tratei dessa brincadeira aqui, por isso vou passar rápido por ela, sob o risco de excesso de simplificação: trata-se da ideia de que países com perfis de bons pagadores (sem desconfiança sobre sua capacidade de solvência) e que não estejam passando por processos inflacionários podem emitir moeda (e dívida) indefinidamente. Não é à toa que você leu, ipsis litteris, esse termo vindo das comunicações do Fed e, mais recentemente, do Banco do Japão: unlimited resources. Os bancos centrais dos países desenvolvidos foram para a impressão ilimitada de dinheiro, para o infinito e além. 

Por lá, pode até funcionar. É uma hipótese, vai saber? Talvez dê certo, embora, até agora, não passe de uma hipótese. Vamos descobrir com o tempo. Então, sob essa hipótese otimista, os mercados desenvolvidos e suas economias serão salvos pela tal MMT e sua indefinida impressão de moeda. Salvamos a tudo e a todos. Segue o baile, sem consequências negativas ou efeitos colaterais. Mas e aqui? Não há a menor possibilidade de enveredarmos por esse caminho. Já há enorme desconfiança sobre a trajetória de nossa dívida pública, enfrentávamos um problema fiscal enorme mesmo antes do coronavírus e a nossa moeda, com os recordes sucessivos do câmbio autodemonstram, é fraca e exótica.

Se, na melhor das hipóteses, o mundo desenvolvido será salvo pela MMT, o que será do mundo que dela não poderá desfrutar?

Agora, falemos da situação política doméstica. Não acho que existam, neste momento, condições para um impeachment, que envolve, além da questão técnica (crime de responsabilidade), elementos políticos (composição no Congresso) e sociais (pressão popular e níveis baixos de popularidade). Minha opinião, porém, é de que Paulo Guedes, com tudo o que ele representa, e o Centrão são figuras irreconciliáveis — breve digressão: fico me perguntando… se fosse o PG sentado na cadeira do Tombini, ele teria salvado o Joesley naquele dia? A proposta liberal com modernização do Estado e a relação com velhas raposas do Legislativo são imiscíveis. Guedes simboliza o contrário daquilo com que Jair Bolsonaro precisa negociar para salvar a si e aos filhos.

É evidente que ambos vão se elogiar reciprocamente. Papai diria que o saco é o corrimão do sucesso. Faremos o circo que for preciso para transmitir a sensação de que está tudo bem. Paulo Guedes tem responsabilidade com o país e jamais sinalizaria qualquer coisa em direção contrária. Ao mesmo tempo, seria também irresponsável com o país participar de certas negociatas, abraçar um velho Brasil e ceder às pressões perdulárias da fisiologia típica de parte das figuras do Congresso.

Tenho uma espécie de sequência de fatos na cabeça, divido com você, fica entre a gente: a partir de agora, avolumam-se denúncias e escândalos sobre a família Bolsonaro. Sergio Moro apresenta provas contundentes nos tribunais (seu ambiente profissional e institucional) e vaza outras para a imprensa (seu ambiente de guerrilha). Isso chega à população num momento de grande depressão econômica e escalada da crise de saúde — aliás, embora ninguém mais fale disso, a situação no Rio de Janeiro parece trágica, enquanto Blumenau emite sinais alarmantes sobre o risco de uma volta antecipada. A consequência é uma perda gradual e contínua de popularidade do presidente.

O Centrão, com o faro apurado típico das raposas, sente o cheiro de sangue e passa a escalar a chantagem sobre Bolsonaro, cobrando mais cargos e mais verbas — como sempre fez. Paulo Guedes e os técnicos da Economia tentam resistir a ceder a chave do cofre. Inicia-se um processo de fritura pública do superministro, que agora goza de antipatia sem precedentes do funcionalismo público, cujos salários foram congelados até o final de 2021. Esgarça a relação entre Guedes e Bolsonaro e vai havendo uma perda relativa de poder de Guedes para o núcleo chamado ideológico do governo e para o Centrão, cuja capacidade de chantagear o Executivo só aumenta conforme chegam novas denúncias e piora a situação da economia. O governo se colocou no corner, entregando-nos doses homeopáticas de sofrimento. Serão meses (não dias) até a projetada sequência passar de mera elucubração ao materialismo — assim como o Fim do Brasil original fora escrito em julho de 2014, para o impeachment ocorrer apenas dois anos depois. Seja como for, não houve governo nesse ínterim — ou talvez tenha havido um desgoverno. Escolha sua versão favorita.

Não há motivo para niilismo, porém. Há sempre o que fazer. Começo por dólar, porque a possibilidade de o real perder, de fato, qualquer referência me parece bastante alta — olhe para a nossa vizinha Argentina e veja o que aconteceu com o peso (guardadas as devidas proporções, evidentemente). 

Também tenho um bocado de ouro, não hedgeado, porque “cash is trash” (não são os ativos que estão subindo, é o dinheiro que está caindo) no mundo da Moderna Teoria Monetária (por isso, estou flertando cada vez mais com o bitcoin; nesta crise, dada sua performance, ele começou a piscar de volta para mim e isso é um bom sinal).

Em Bolsa, compro Suzano, que é o mais perto que posso chegar de dólar e a celulose é uma commodity bem legal — dentro do que commodity pode ser legal, claro. Gosto de Vale também, com um FCF enorme, preços interessantes para o minério mesmo nessa draga toda, muita liquidez e um valuation convidativo, além de ser dólar também, não nos esqueçamos. Frigoríficos eu queria comprar — esse papo de proteínas e tal, diversificação geográfica, dólar, mas, sinceramente, ainda não tenho estômago para isso (juro que penso e estou tentando). Amo o Agro, mas o que é bom já não é tão barato — então, chego nele por rumos tortos: vamos de RAIL ou RLOG. Compro boas elétricas, utilities em geral: Sanepar, com um belo dividendo, valuation muito barato, avanço regulatório iminente e previsibilidade de resultados, e Eneva (alô, AES, os preferencialistas votam em matéria de fusão, ok? Ficou feio, hein?) são minhas favoritas. Defensivos domésticos como Hypera, Raia Drogasil e coisas nessa linha também me apetecem. 

Encerro da mesma forma com que comecei, citando Buffett: “São necessários 20 anos para construir uma reputação, e cinco minutos para destruí-la”.

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