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O grande investidor que nunca investiu

Diante da falta de visibilidade, fica difícil para os gestores terem grande convicção em suas posições — enquanto o pessoal das redes sociais, que não entra em campo nem faz gol, está cheio de certezas

bola de futebol no gramado com gráficos de mercado ao fundo em montagem | Palmeiras Copa do Mundo
Imagem: Shutterstock

Dos interesses aleatórios que surgem quando se está em quarentena, decidi dedicar algumas horas para conhecer melhor a história de um caricato jogador de futebol dos anos 1980. O documentário me instigou porque eu nunca ouvira falar do tal jogador carioca, apesar de o trailer comprovar o quão popular ele era entre os colegas (Bebeto, Romário, Renato Gaúcho) e dirigentes da época, seja por suas histórias em campo ou pela vida boêmia.

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Antes que coloque em xeque meu conhecimento sobre futebol, arrisco apostar que você também não o conhece. Mesmo tendo defendido os maiores times do Rio de Janeiro e passado por clubes da França, Estados Unidos e Argentina, entre outros.

Estou falando de Carlos “Kaiser” (nada a ver com Franz Beckenbauer), jogador que, apesar do extenso currículo e popularidade ­­— acredite se quiser —, nunca fez sequer um gol. Pior: mal entrou em campo durante seus mais de 20 anos de carreira. Como isso foi possível?

Eu explico. Quando era convocado para mostrar suas habilidades, Carlos Kaiser rapidamente simulava uma contusão, o que lhe garantia meses a salvo no departamento médico, numa época em que mal existiam exames de ressonância. Na luta por atestados médicos, apelava até para um amigo dentista. Caso fosse realmente inevitável entrar em campo, a tática era arrumar briga com adversários — ou até com a própria torcida — em troca de um bem-vindo cartão vermelho.

O que faltava de habilidade futebolística ao nosso herói sem nenhum caráter sobrava em influência e lábia para fechar bons contratos e encantar cartolas. A história é tão boa que virou o documentário “Kaiser: o maior jogador de futebol que nunca jogou futebol”.

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E me levou à inevitável comparação com alguns influenciadores de finanças que tenho visto. Muito além do discurso, gostaria de saber se eles realmente investem (e onde). Será que são ganhadores de dinheiro? Como seus portfólios estão se comportando nesta crise?

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Enquanto os torcedores da Fintwit, comunidade financeira do Twitter, repetem que é hora de comprar ações e interpretam qualquer melhora no humor como a volta do bull market, os gestores dos mais renomados multimercados brasileiros estão pessimistas (ou realistas?). Diante da deterioração estrutural do cenário econômico, a preocupação deles não é com preços, mas com o valor intrínseco dos ativos.

“Olhar nominalmente para a queda das Bolsas sem olhar para o cenário é um erro”, observou o sócio-gestor da Kapitalo Carlos Woelz, em uma live recente promovida pela Vitreo. Ele usou como exemplo as Bolsas de Nova York, que considera mais caras hoje, apesar de estarem em uma pontuação bem inferior à do início do ano. Isso porque ele põe na conta os efeitos da desorganização histórica do setor produtivo a que o mundo assiste.

Diante da falta de visibilidade, fica difícil para os gestores terem grande convicção em suas posições — enquanto o pessoal das redes sociais, que não entra em campo nem faz gol, está cheio de certezas.

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Nesta semana, a Dynamo divulgou sua carta semestral (duas, na verdade), em que dedicou oito páginas para analisar em profundidade as informações mais recentes sobre o novo coronavírus e a evolução da pandemia. Tudo para concluir: vivemos hoje sob um nível extremo de incertezas. Por ora, o que dá para dizer é que caminhamos para um ambiente com mais dívida, menos globalizado e mais digital.

Sobre o Brasil, a gestora mostrou preocupação com a guinada na orientação das políticas do governo Bolsonaro, cada vez mais refém dos partidos do Centrão. Além do impacto direto de deterioração do fiscal, há receio sobre uma recaída do Congresso, onde volta-se a ouvir propostas populistas.

Neste contexto, Rogério Xavier, da SPX, descarta a chance de uma recuperação em V da economia brasileira — nem mesmo o “V do símbolo da Nike”, aquele que cai rápido e sobe devagar, como aventou outro dia o ministro da Economia, Paulo Guedes. Para o gestor, hoje há uma relação risco-retorno bem pior para se estar comprado em Bolsa.

Antes que fique chateado, longe de mim querer estragar sua sexta-feira trazendo essas análises aqui. Até porque, se é um dos três leitores do Felipe Miranda, percebeu que muitos dos temas que estão hoje na cabeça dos gestores já foram tratados neste espaço.

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Minha intenção é que você reflita sobre quem tem influenciado suas decisões de investimento. Se prefere estar próximo (ou próxima) dos ganhadores de dinheiro da vida real, que, diferentemente dos influenciadores de internet, têm de mostrar o resultado de suas estratégias, o caminho é este.

Encerro com uma frase do grande gestor Rogério Xavier, que deu uma verdadeira aula em uma conversa nesta semana com o Felipe Miranda:  “Você tem que separar o que importa do que não importa, senão você vai se perder”.

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