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O diabo é velho — e sedutor

Todos querem acreditar que podemos saber se é para comprar tudo, porque não haverá uma segunda onda importante de coronavírus no mundo, a vacina está logo aí e as eleições norte-americanas não trarão grandes problemas.

22 de setembro de 2020
10:51
investidor anjo e diabo Ibovespa
Imagem: Shutterstock

Lembra aquela máxima de que o diabo é diabo porque é velho, não porque é sábio? Faz sentido. Se é verdade que você não consegue ensinar truques novos a cães velhos, também é difícil que cães novos aprendam velhos truques. A experiência conta em Bolsa. Evita armadilhas e permite o reconhecimento de padrões, o que poderia inclusive ser uma das definições de intuição. 

Às características diabólicas, porém, gostaria de acrescentar uma outra: a sedução.

Os filmes de Hollywood sempre foram muito fáceis de entender — um de seus méritos. Mas eu nunca consegui compreender uma coisa: por que seus vilões são tão feios e asquerosos? Darth Vader, Sauron, Voldemort, Scar, Pinguim… todos eles sórdidos, nojentos e desagradáveis, inclusive com seus companheiros mais fiéis. Como alguém poderia, de fato, seguir um sujeito como esses na vida real? Não é crível.

O Cristianismo percebeu o problema de maneira sagaz. Os retratos do antagonista denotam alguém atraente e sedutor. O satã sempre foi mostrado como uma deslumbrante, sábia e bela (esteticamente) figura. O diabo é uma tentação sedutora. Não me parece coincidência ambos constarem na mesma frase: “Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal”.

Existem narrativas preocupantes em Bolsa justamente porque elas são atraentes. A mais perigosa de todas, para mim, é aquela de que as pessoas são capazes de antever o futuro. Se você sabe o que vai acontecer, está no controle. Retira a incerteza do processo e pode antecipar os movimentos do mercado.

Todos querem acreditar que podemos saber se é para comprar tudo, porque não haverá uma segunda onda importante de coronavírus no mundo, a vacina está logo aí e as eleições norte-americanas não trarão grandes problemas. Então, podemos vender o combo “stay at home”, notadamente as empresas de tecnologia americanas e o dólar, e comprar tudo que se beneficia da abertura das economias. Vá para ativos de risco clássicos e fique rico rapidamente.

Ou também podemos crer no contrário, em que devemos nos alojar nas big techs americanas e no greenback, pois ao menos uma segunda onda é inevitável no outono e no inverno no hemisfério norte, as economias vão perder força depois do impulso inicial dos estímulos fiscais e monetários e do efeito da demanda reprimida, a vacina ainda demora para chegar, de fato, à população, e as eleições nos EUA impõem um risco importante.

Claro que, depois, com o benefício da retrospectiva, ficará óbvio qual caminho deveria ter sido seguido. A História não conta tudo que poderia ter sido; apenas um cenário entre os vários possíveis acaba se materializando. Esse é um dos paradoxos da necessidade de se tomar decisões ex-ante. Você pensa prospectivamente e pondera os vários cenários possíveis e prováveis à frente. Contudo, só um deles vai se materializar. Ou seja, por mais racional, prudente e científico que você seja, pensando probabilisticamente, você vai errar, porque a vida não conta probabilidades.

O day trade é outra narrativa atraente. Ganhe dinheiro rápido com esse método aprendido durante o final de semana e passe a fumar charutos caros e a beber whisky vestido de camisa com abotoadura e suspensório — veja como a figura de Gordon Gekko é diabólica. Quem não quer? A Pasárgada mental do home broker.

“Ah, as chances de se dar bem com o day trade são mesmo baixas, mas as chances de se dar bem em outra profissão também são. Só uma parcela pequena da população brasileira é bem-sucedida.”

Pode até ser, mas não são coisas equivalentes. Erro tipo 1 e erro tipo 2. Se você entra para trabalhar numa multinacional com 35 anos, não se adapta e é mandado embora, você sai com patrimônio muito parecido, sem grandes ferimentos. Agora, se você passa a operar em Bolsa sem o profundo conhecimento e gerenciamento de riscos, o que só vem com anos de estudo e prática (como em qualquer outra profissão), aquilo pode lhe render prejuízos materiais expressivos. Na vida real, no gerenciamento do patrimônio familiar, perder não é ganhar com um sinal de menos na frente. Os efeitos são bastante diferentes entre ter um prejuízo e deixar de ter um lucro. Se você tem um milhão e perde esse um milhão, o efeito é completamente diferente do que se tem um milhão e deixa de ganhar um segundo milhão. O primeiro é uma tragédia familiar. O segundo significa apenas que a luta continua, companheiro.

A razão é uma grande emoção, é o desejo de controle, resume Nietzsche. Há duas verdades inconvenientes (e preocupantes) sobre o processo de investimento. A primeira é que você jamais terá controle da dinâmica. Estaremos sempre num ambiente de incerteza e sujeitos à aleatoriedade. Para não perder da inflação, você terá de abandonar a poupança e os fundos DI. Ou seja, vai precisar correr risco. E o risco é o escopo da incerteza, da probabilidade, da falta de controle sobre o processo. É preciso entregar-se ao desconhecido e às intempéries da deusa Fortuna para ganhar dinheiro de verdade. Delegar o controle do seu dinheiro a um processo estocástico não é trivial para cérebros que foram feitos para acreditar estarem no comando.

A segunda é que o ato de investir não é atraente ou sedutor. Ao contrário, quando bem feito, é bastante entediante. Não tem nada a ver com jogo, adrenalina, tesão.

Você passa meses estudando uma empresa, conversa com todos os elos da cadeia (RI, gestores, controlador, entidades setoriais, concorrentes, etc.), se debruça sobre os ITRs, monta planilhas, remonta, revisa. Decide então não comprar, porque o preço já subiu muito enquanto você estudava com diligência. Meses de um trabalho aparentemente jogado fora. Então, você refaz o processo para uma nova. Mais seis meses naquilo. Desta vez, você compra, porque está mais barato do que vale. Mas, claro, não é porque você comprou que a ação vai retribuir-lhe o agrado e passar a subir imediatamente. Você passa mais seis meses sendo visto como um idiota, porque, no semestre inicial, ninguém ainda havia percebido aquela assimetria informacional. Para identificar aquele subapreçamento, você esteve em vantagem sob a ótica da informação, teve um “edge” em relação ao consenso de mercado, que só foi descobrir depois de seis meses que você estava certo. Seis meses de estudo, seis meses apanhando do mercado — um ano de um processo nada agradável. Só depois colhemos algum fruto; assumindo, claro, nenhuma surpresa tipo a Covid no meio do caminho. Os black swans podem jogar esse seu ano fora também.

A vida é dura. Não tem nada a ver com Gordon Gekko. Como atrair as pessoas para uma narrativa assim?

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