Menu
Rodolfo Amstalden
Exile on Wall Street
Rodolfo Amstalden
Sócio-fundador da Empiricus e autor do Programa de Riqueza Permanente
Dados da Bolsa por TradingView
2020-07-30T10:54:28-03:00
Exile on Wall Street

Diário de um trader à deriva

Sou um trader autônomo. Opero por conta, não tenho chefe. Ou, como o pessoal mais novato gosta de dizer nos fóruns de mercado financeiro, eu sou meu próprio chefe.

30 de julho de 2020
10:54
mar
Imagem: Shutterstock

Você pode passar um dia inteiro com a tela de cotações aberta, na sua cara, e não fazer nada.

É como eu me comporto, estoicamente, quando abro meu home broker, minha "plataforma de negociação".

Engraçado chamar assim, dado que eu quase não negocio.

Durante 90% do tempo, sou obrigado a reconhecer que não faço nada. Não aperto um botão, não compro, não vendo. Mas também não mudo de assunto.

Sempre existe o risco de eu mudar de assunto durante os outros 10% do tempo. Nesse caso, todo o meu trabalho de um mês, às vezes de um ano, poderia se comprometer.

Sou um trader autônomo. Opero por conta, não tenho chefe. Ou, como o pessoal mais novato gosta de dizer nos fóruns de mercado financeiro, eu sou meu próprio chefe.

"Abrace a liberdade profissional e torne-se seu próprio chefe. Clique aqui e descubra como, agora mesmo!"

Liberdade profissional?

Adoraria ter um chefe pra mentir atestado e, pelas costas, mandar se foder.

A cada vez que eu faço nada e acumulo experiência aqui, me vejo mais como um porteiro de condomínio de luxo.

Ao longo de séculos e séculos, aceito ficar inteiramente mergulhado no tédio, em troca de um salário inercial. Observo a paisagem, cumpro tarefas mecânicas, leio o jornalismo ergódico, luto para não dormir, engasgo com o café frio.

No entanto, a qualquer momento imprevisível, algum veículo suspeito pode se aproximar da guarita, pronto para invadir de maneira criminosa. Se eu estiver dormindo, cinco minutos de vacilo, acabou. Todo o meu esforço jogado no lixo. E ainda vão me enquadrar como cúmplice.

Já aconteceu algumas vezes, e eu estaria mais em paz se tivessem, de fato, me prendido por cumplicidade.

No último ataque de estresse, a Bolsa derreteu até os 60 mil pontos em questão de dias. Dos 120 mil para os 60 mil. Para os ruins de matemática, caiu pela metade, entende? Assim, sem avisar, sem tocar campainha porra nenhuma. No mercado, a campainha só toca depois que todos os ladrões já ocuparam sua casa.

Sessenta mil na minha fuça. Eu tremia, eu suava. Quando acontece, não é fácil. Pode ser uma puta oportunidade, pode ser o caminho mais rápido para a falência também.

Sabe o que eu fiz? Nada. Não tive coragem de comprar.

Foi quando eu senti que estava me faltando alguma coisa. Sangue frio, adrenalina, testosterona, sei lá. Alguma força que o trader puxa de dentro para comprar a insegurança barata e vender a certeza cara para os otários lá na frente.

Nesse episódio, porém, o grande otário fui eu. O índice voltou para os 100 mil pontos e não consigo parar de pensar nisso, no quanto de dinheiro que eu deixei na mesa.

Sabe quando vai acontecer de novo? Esse é o problema, ninguém sabe. Pode levar anos. Anos inteiros grudados na tela de cotações sem fazer nada, observando a paisagem, colhendo nome e RG para liberar a entrada.

Todos os percentuais se mexendo a cada milissegundo: verde, vermelho, vermelho, verde. E eu parado.

Comentários
Leia também
ENCRUZILHADA FINANCEIRA

Confissões de um investidor angustiado

Não vou mais me contentar com os ganhos ridículos que estou conseguindo hoje nas minhas aplicações. Bem que eu queria ter alguém extremamente qualificado – e sem conflito de interesses – para me ajudar a investir. Só que eu não tenho o patrimônio do Jorge Paulo Lemann. E agora?

efeito pandemia

Sem peças importadas, indústria busca produção local, mas esbarra em custo

Escassez de produtos como máscaras e respiradores, que marcou o início da pandemia, depois se estendeu a semicondutores, insumos e autopeças e se agravou com o aumento dos preços

é possível, sim

O segredo para ser feliz no trabalho, segundo esta especialista

Beverly Jones, autora do “Find Your Happy at Work”, arriscou algumas respostas em entrevista recente e falou sobre desconforto, networking e tédio; veja abaixo

em família

Sobrinho-neto do bilionário Warren Buffett supera Berkshire Hathaway no ano

Ações da Boston Omaha, holding de capital aberto co-liderada pelo sobrinho-neto do bilionário, Alex Buffett Rozek, estão batendo os papéis da Berkshire Hathaway

novo serviço

Grupo pão de Açúcar vai fazer entrega para lojistas de seu marketplace

No próximo ano, a companhia passará a oferecer a possibilidade de que os lojistas virtuais armazenem produtos nos centros de distribuição do GPA

inovação

Varejo online agora quer conquistar a fronteira da venda de produto fresco

A partir do mês que vem, começa a funcionar no País uma startup mexicana de tecnologia do setor de supermercados que vai explorar exatamente esse filão

Carregar mais notícias
Carregar mais notícias
Fechar
Menu

Usamos cookies para guardar estatísticas de visitas, personalizar anúncios e melhorar sua experiência de navegação. Ao continuar, você concorda com nossas políticas de cookies