Menu
Exile on Wall Street
Bruno Merola
2020-04-24T10:44:41-03:00
Exile on Wall Street

Assimetrias ocultas no cotidiano de fundos

Se nossa dor de cabeça vem das surpresas negativas, das oscilações para baixo, devemos adotar uma medida que ataque apenas esse problema.

24 de abril de 2020
10:44
Tela mostra cotações de bolsa de valores e gráficos de mercado
Imagem: Shutterstock

Temos o hábito esquisito de chamar de “mercado” essa entidade mitológica representada pelas decisões racionais e impulsos emocionais de investidores comuns — alguns brilhantes, mas ainda assim de carne e osso.

E, em algum momento do passado, o mercado escreveu na pedra que a volatilidade de um ativo era equivalente ao seu risco.

Porém, o mundo simétrico, aquele da distribuição normal de retornos, da curva em formato de sino e de onde vem a volatilidade dos investimentos, é feito de pura ilusão matemática.

Imagine que seu fundo de investimento tenha uma distribuição simétrica de retornos mensais, isto é, que tenha a mesma proporção de retornos acima e abaixo da média.

Se a média dos retornos for zero, por exemplo, a probabilidade de esse gestor ganhar 10% em um mês seria a mesma de ele perder 10%.

À primeira vista, você pode concluir que esse é um investimento neutro, sem ganhador nem perdedor.

No papel, a prática é outra. Suponha que você tenha R$ 100 no fundo A e perca 10% em um mês, ficando com R$ 90. No mês seguinte, se o seu investimento tiver uma alta de 10%, seu patrimônio final será de R$ 99. Repare que o resultado não é um jogo de soma zero, mas, sim, negativa: após dois meses de retornos iguais, mas em direções opostas, você perdeu 1% ou R$ 1 do seu dinheiro investido.

Mantenha esse investimento por um ano inteiro e terá 6% a menos. Troque os 10% por 50% na figura abaixo e você poderá ter uma perda de mais de 80% no mesmo período:

A primeira conclusão é que nenhum bom fundo de investimento deveria ter essa natureza simétrica entre os tamanhos de ganhos e de perdas com a mesma frequência, pois uma perda percentual penaliza mais o investidor do que um ganho de igual magnitude.

Vamos assumir então que o gestor consiga alcançar ganhos maiores do que perdas para ser lucrativo no longo prazo. É natural, portanto, que a cota do fundo tenha variações desiguais para cima e para baixo, oscilando muito mais do que o faria em torno de uma média.

Com tanta oscilação, a segunda conclusão é a de que a volatilidade do fundo dispara. Mas convido os leitores deste espaço a me acompanharem no raciocínio: qual é o verdadeiro problema de ter alta volatilidade quando o investimento oscila mais para cima do que para baixo?

Nenhum. Afinal, não deveríamos nos preocupar com “ganhos-surpresa”. Se o técnico da seleção prometeu para a torcida que ganharia de 2 a 0, mas faz 4 a 0, sem problema. Agora, se a vitória é conquista com um placar de 6 a 4, ele precisará dar uma atenção especial à área defensiva.

É por isso que a volatilidade não é a medida de risco mais adequada para um fundo: ela dá o mesmo peso para oscilações para cima e para baixo, o que acaba não sendo totalmente correto matemática e filosoficamente.

Sob a mesma ótica, o Índice de Sharpe, medida largamente utilizada para aferir a eficiência de um fundo através da relação entre o retorno adicional obtido e sua volatilidade, também não é adequada.

Se nossa dor de cabeça vem das surpresas negativas, das oscilações para baixo, devemos adotar uma medida que ataque apenas esse problema.

Entre as métricas que utilizamos para avaliar fundos na série Os Melhores Fundos de Investimento, priorizamos aquela conhecida como “downside risk” no lugar da volatilidade. Em poucas palavras, é o risco associado aos retornos de um fundo APENAS quando estes ficarem abaixo de um determinado índice de referência — CDI, para renda fixa e multimercados, e Ibovespa, para fundos de ações.

Daí, surge o Índice de Sortino, irmão caçula e mais assimétrico do Índice de Sharpe. Ambos fazem a mesma coisa: indicam se um fundo de investimento gerou retornos adicionais que compensem suficientemente o risco incorrido. Porém, se diferenciam na definição de risco: volatilidade para William Sharpe e “downside risk” para Frank Sortino.

Pela didática, mãe de todos os conceitos, repare nesta outra figura:

Ambos os fundos A e B chegam ao mesmo lugar após 12 meses e compartilham da mesma volatilidade — medida de oscilação — de 20% ao ano. Portanto, pela métrica tradicional do Índice de Sharpe, os dois seriam considerados igualmente eficientes.

Mas existe uma diferença clara em suas trajetórias: o fundo A teve um mês muito positivo no meio do caminho, enquanto o B teve um mês muito negativo. Um investidor que, eventualmente, resgatasse do fundo B no momento errado (mês 8) poderia ter entregado todos os ganhos acumulados no ano.

E então, qual dos dois tem o risco menor? E qual deles você escolheria?

Para conhecer mais sobre o Índice de Sortino e outras métricas que utilizamos para avaliar o desempenho e o risco de todos os fundos de investimento da indústria, venha comigo por aqui.

Comentários
Leia também
OS MELHORES INVESTIMENTOS NA PRATELEIRA

Garimpei a Pi toda e encontrei ouro

Escolhi dois produtos de renda fixa para aplicar em curto prazo e dois para investimentos mais duradouros. Você vai ver na prática – e com a translucidez da matemática – como seu dinheiro pode render mais do que nas aplicações similares dos bancos tradicionais.

Ivan Sant'Anna

O novo superciclo das commodities já é uma realidade. Como você pode ganhar dinheiro com ele

Nas últimas décadas, tivemos três grandes bull markets de commodities. Agora, os astros estão se alinhando para um novo superciclo

Contas brasileiras em jogo

STF retoma julgamento sobre ICMS e PIS/Cofins; decisão pode ter impacto de R$ 258,3 bilhões para União

Os ministros já haviam declarado inconstitucional a cobrança de ICMS na base de cálculo do PIS/Cofins, mas o governo pede que a decisão não tenha efeito retroativo

São Jorge e o dragão inflacionário

A grande e ameaçadora besta da inflação começa a sair do seu sono profundo. Aos poucos, movimenta as asas e mexe sua cauda incendiária. Um vagaroso e temerário despertar. Nem de longe está cuspindo fogo — e quem viveu no Brasil nos anos 80 e 90 lembra bem do seu poder destrutivo. Mas mesmo o […]

FECHAMENTO

Dragão americano da inflação assombra ativos globais e resultado é bolsa, dólar e juros sob pressão; Ibovespa recua 2% e volta aos 119 mil pontos

A pressão inflacionária superou até mesmo o cenário político interno caótico nos holofotes do mercado e levou o principal índice brasileiro a amargar uma queda brusca

Primeiro encontro

Presidentes de Petrobras e BR se reúnem para tratar da saída da estatal da distribuidora

Os executivos, que assumiram os cargos há cerca de uma vez, discutirão a venda da participação de 37,5% que a Petrobras ainda detém na empresa

Carregar mais notícias
Carregar mais notícias
Fechar
Menu

Usamos cookies para guardar estatísticas de visitas, personalizar anúncios e melhorar sua experiência de navegação. Ao continuar, você concorda com nossas políticas de cookies