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Felipe Miranda
Exile on Wall Street
Felipe Miranda
É sócio-fundador e CIO da Empiricus
2020-08-31T19:45:21-03:00
Exile on Wall Street

Algo escapou a Luis Stuhlberger e Rogério Xavier?

Quem inventou que a pessoa física não deve ser municiada de orientação profissional e precisa seguir seu caminho sozinha? Não confundir com confiança cega num determinado guru qualquer, mas, para jogar a Champions League, você precisa de hábitos semelhantes àqueles dos grandes craques.

31 de agosto de 2020
10:35 - atualizado às 19:45
Banco Central do Brasil
Banco Central do Brasil - Imagem: Shutterstock

Para aguentar este mês de agosto, só tomando uns negocinhos, aqueles birinights para aliviar a tensão da realidade. Como diria Chico Buarque, “o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta. Muita mutreta pra levar a situação. Que a gente vai levando de teimoso e de pirraça. E a gente vai tomando que também sem a cachaça. Ninguém segura esse rojão”. Então, abrimos os trabalhos com a sugestão do Empiricus Puro Malte, nosso podcast disponível no Spotify e na Apple Music.

Essa dose foi caprichada. Só assim para enfrentar o cachorro louco. Olhando para o mês, lembrei daquela brincadeira perspicaz do Rogério Xavier: “Chega de realizações, queremos promessas”. A realidade é muito dura. Eu adoro o Rogério.

Falando nele, recentemente vi sua live com o Luis Stuhlberger no evento da Eleven Financial. Dado o encontro de gigantes, o papo foi muito rico e construtivo. Como sempre, ótima oportunidade de aprendizado, para todos nós. Aliás, depois da capa da Veja, aqui vai um recado potencialmente útil aos investidores neófitos: mesmo os grandes profissionais, ou principalmente eles, leem ou veem tudo o que podem sobre research, lives, artigos acadêmicos ligados a investimentos; quem inventou que a pessoa física não deve ser municiada de orientação profissional e precisa seguir seu caminho sozinha? Não confundir com confiança cega num determinado guru qualquer, mas, para jogar a Champions League, você precisa de hábitos semelhantes àqueles dos grandes craques.

Em determinado momento na live, Rogério apontou que o Banco Central do Brasil tem adotado uma postura tomadora de risco, algo tipicamente em desacordo com a abordagem clássica de uma autoridade monetária. A postura mais sisuda seria particularmente necessária para países emergentes, onde os riscos costumam se transformar no cenário-base com frequência importante. Por isso, o maior risco seria apostar em quedas das taxas de juro de mercado para os próximos anos. Se algo vier a dar errado, o juro ali em torno de 2023 explodiria para cima. Não falaríamos de um ajuste de poucos pontos-base, mas de uma verdadeira e súbita explosão para cima, configurando uma importante assimetria desfavorável. Em linhas gerais, Luis Stuhlberger pareceu concordar com o argumento.

Ao propor a pergunta-título desta coluna, não pretendo refutar o apontamento. Ao contrário, partilho da mesma visão. Também não quero me colocar, nem de perto, em pé de igualdade com os dois gestores. Sei bem meu lugar no mundo. Só tenho a aprender aqui. 

Contudo, talvez possamos jogar alguma luz sobre a afirmação de que o nosso banco central tem sido amante do risco, porque, colocada daquela forma, a assertiva pode esconder um lado um pouco mais profundo dessa história. Classificar o BCB desta maneira categórica e neste contexto pode fazê-lo parecer uma exceção mundial e com uma abordagem ligada à irracionalidade. Não é o caso. 

Primeiro, havemos de notar que o mundo todo vive uma experiência monetária e fiscal sem precedentes. Estamos em mares nunca dantes navegados. Não há qualquer exclusividade brasileira aqui. Os bancos centrais levaram suas taxas de juros para as mínimas históricas de maneira agressiva e injetaram bilhões e bilhões de recursos no sistema — a exceção talvez seja o BC do México, mais conservador em suas medidas. O próprio Fed acaba de novamente mudar seu paradigma de política monetária, sugerindo tolerar uma inflação um pouco mais alta — também aqui não temos nenhuma garantia de que vai dar certo. É uma postura de disposição ao risco também. Em termos fiscais, as expansões encontram paralelos somente nos tempos de grandes guerras, quando o militarismo tinha importantes efeitos multiplicadores na economia, com seus impactos sobre as indústrias de base e muita descoberta científica e tecnológica.

O segundo ponto é mais importante. Por que nos dispomos a uma política monetária e fiscal não validada cientificamente? Não testamos nada disso em laboratório, certo? Também não temos uma amostra de experiências históricas semelhantes para provar, por similaridade, que vai dar certo agora. Seria essa mudança de comportamento e paradigma uma postura irracional?

A história da racionalidade na teoria econômica começa com a ideia das expectativas rígidas. Você forma sua projeção para o amanhã com base no comportamento de hoje. Maju Coutinho estima a temperatura em São Paulo amanhã com base no clima desta segunda-feira. 

Obviamente, não parece algo muito eficiente. Precisamos considerar as informações novas. Caminhamos então para as expectativas adaptativas, em que você ajusta suas projeções conforme o erro da previsão anterior. Assim vamos corrigindo erros sistemáticos e chegamos no famoso modelo da teia de aranha, em que os equívocos vão diminuindo no tempo. 

Depois avançamos um pouco mais em direção às expectativas racionais. A distribuição subjetiva dos eventos converge para a distribuição objetiva. Os agentes econômicos usam toda a informação disponível sobre um determinado fenômeno para compor suas estimativas e, na média, acertam suas previsões. As expectativas racionais, formuladas originalmente por John Muth, foram disseminadas por Robert Lucas e dominaram a teoria neoclássica a partir de 1970. Inclusive, foi ela que permitiu a formalização, a sistematização e a matematização da Economia, numa tentativa de afastá-la das demais ciências sociais e posicioná-la mais perto das ciências naturais e exatas — daí também surgiu o carinhoso apelido de “Physic envies” para se referir aos economistas, tradicionais invejosos da Física. Bom, mas essa é outra história — a discussão sobre ergodicidade renderia vários outros Day Ones.

Então, veio um sujeito chamado Herbert Simon com a proposta da racionalidade limitada. Basicamente, sua defesa era de que, olhando de maneira objetiva para os agentes econômicos, não se identificavam essas máquinas precisas e de capacidade ilimitada de levantar, armazenar e processar informações. Tínhamos certos limites à nossa racionalidade, e a hipótese de expectativas racionais não se verificava na prática, dada a persistência de certos erros sistemáticos de previsão.

Simon foi a semente para a difusão das Finanças Comportamentais. A partir dos estudos de Daniel Kahneman e Amos Tversky sobretudo, percebemos que não éramos apenas limitados em nossas capacidades, conforme a proposta de racionalidade limitada. Tínhamos vieses cognitivos que nos faziam máquinas programadas para errar.

Segundo essa abordagem, um dos vieses típicos era o da “aversão à perda”. Contrariando os livros-textos canônicos de microeconomia, os indivíduos não seriam tipicamente avessos ao risco. Vários estudos de Finanças Comportamentais mostram como os seres humanos (desconfio que se replicássemos o caso para outros animais encontraríamos resultado semelhante) são avessos ao risco em situações de ganho potencial, e dispostos ao risco em cenários de potencial prejuízo. Essa falta de estabilidade nas preferências caracterizaria irracionalidade, posto que, diante do mesmo problema em essência, adotaríamos posturas diferentes. De acordo com o conceito da racionalidade neoclássica, deveríamos ter a mesma disposição ou aversão ao risco independentemente de situações de ganhos ou perdas.

Essa, no entanto, é uma perspectiva limitada e que ignora as proposições da racionalidade ecológica, que tem em Gerd Gigerenzer seu principal expoente. Em situações de real ameaça, é natural sermos mais dispostos ao risco — e isso tem tudo a ver com racionalidade, que, sob a ótica evolucionária, só pode estar ligada à sobrevivência (e a nenhum outro critério). Se você está saudável e bem disposto, dificilmente vai topar ser cobaia de um novo tratamento para câncer terminal. Contudo, se você está com câncer no pâncreas em estágio avançado, possivelmente vai (e deve) topar a experiência. É absolutamente racional que você assuma posições diferentes mediante situações diferentes. Cenários de grande risco normalmente estão associados mesmo a decisões menos conservadoras e mais dispostas ao risco.

Se a experiência monetária e fiscal planetária vai dar certo, eu sinceramente não sei. Ninguém sabe. Não há observação histórica para nos guiar, tampouco a Economia permite testes de laboratório. Estamos topando um novo tipo de experimento, sendo cobaias das circunstâncias. Isso pode dar muito errado, mas é absolutamente racional que seja assim. A economia mundial vivia a ameaça de um câncer no pâncreas. Gerir carteiras de investimento é uma tarefa bastante complexa e difícil. Tocar um país também não é nada fácil.

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