Eventos raros que acontecem a cada semana: o que fazer? (e o que não fazer?)
Tudo que você tem a fazer neste momento é seguir em frente, persistir. Never surrender (nunca se renda), como diria Maria Sharapova

Nas últimas semanas, fomos lembrados de que as coisas consideradas raras, no sentido de eventos e variações distantes da média, acontecem com frequência superior ao normalmente considerado por nossas mentes lineares, ávidas por controle e desejosas de trajetórias bem-comportadas.
Até a quinta-feira passada, o cisne negro de 2020 era o coronavírus. Agora, virou a guerra em torno dos preços do petróleo. Se a revoada de black swans já era notável, hoje temos mais um elemento para o bando: voltamos a ter uma variação atípica para os futuros de Wall Street, perto de 5% de alta, sob expectativa de um expressivo pacote fiscal de Donald Trump e de esperança de eventual colaboração da Rússia nas próximas reuniões da Opep. Se estamos superestimando os impactos materiais das medidas de política econômica, como sugere Mohamed El-Erian, e/ou se podemos confiar nos russos, com os quais muitas vezes falta combinar, só o tempo dirá.
Ontem, traçamos aqui um plano prático em termos de alocação de recursos para atravessar os mares revoltos. Como muito bem sintetizou Ray Dalio, “períodos de turbulência fornecem grandes riscos e grandes oportunidades. Então, depois de se certificar que você e as pessoas de seu entorno (desculpe pela tradução ruim; o termo original é “your people”) estão a salvos do risco de ruína, olhe para as oportunidades.
É justamente porque nesses momentos a maioria das pessoas está prestando mais atenção nos riscos do que nas oportunidades que as oportunidades são as maiores possíveis”. O que fizemos ontem foi apenas e justamente nos certificar de que não colocaríamos, sob nenhuma hipótese, os investimentos dos assinantes em risco de ruína (jamais subestime o quanto as coisas podem ficar piores), sem, em nenhum momento, abandonar a confiança na manutenção do bull market secular a médio e longo prazo.
Feita a preparação financeira, hoje quero falar de outra coisa: a preparação psicológica. Parafraseando Howard Marks, por vezes, os ciclos psicológicos são mais interessantes até do que os econômicos e dos lucros corporativos, pois deles costumam resultar oportunidades inclusive maiores do que as flutuações estritas dos fundamentos macro e microeconômicos — os exageros psíquicos sobrepujam os demais, pois por eles passam os mais variados cenários possíveis, no limite das distribuições de probabilidade, enquanto, por construção, a História só vai materializar um dos infinitos cenários possíveis dessa distribuição; e a probabilidade de que se materialize exatamente o pior tende a ser baixa, por mera aplicação de estatística básica.
O investimento é uma maratona. Não é uma corrida de 100 metros rasos. Isso não termina hoje ou amanhã. Phil Knight, fundador da Nike e esportista amador, tem uma síntese boa para momentos como esse: “Quando a dor chegar e você pensar em desistir, apenas não pare. Continue correndo”.
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Certa vez, ouvi de um dos grandes gestores de ações brasileiro que seu maior defeito era “querer ganhar todo dinheiro de uma vez”. A prática requer disciplina e paciência. Bolsa tem todo dia. Precisa persistir, mostrar “gritty” (perseverança, resistência, endurance) e saber que o segundo gol só vai sair depois do primeiro.
O diabo sabe não porque é sábio, mas porque é velho. Depois de passar por várias crises — eu comecei a comprar ações de 1998 para 1999, mas já acompanhava as operações alavancadas de meu pai desde 1995, quando, com o perdão da expressão, “os filhos da puta do Pactual estavam vendendo, porque não entendiam nada do Plano Real” (na verdade, a turma do Pactual apenas estava antevendo, com precisão cirúrgica, a crise do México; talvez por isso, inconscientemente, eu nutra até hoje uma admiração quase edípica pelos vizinhos), uma coisa me vem à cabeça em situações como a de ontem que talvez valha a pena compartilhar: passa.
Momentos de crise no mercado teriam como analogia o luto. E é preciso viver o luto, para que possamos reconstruir a nós mesmos, amparados numa espécie de confiança de transformação à frente. Há algo próximo a um salto de fé de Soren Kierkegaard. E que isso não se confunda com uma fé cega e desprovida de racionalidade, ainda que essa associação possa soar-lhe contraintuitiva.
Por que compramos ações e estamos otimistas para o longo prazo?
Haveria uma resposta extensa para essa pergunta. Vou me ater aqui ao essencial. Basicamente, porque entendemos que o bull market secular iniciado em janeiro de 2016 não estava — e não está — esgotado. Isso obviamente não quer dizer que não haja solavancos, grandes sustos, momentos de desespero, situações que sugiram algo como “agora não vai dar” no meio do caminho e outras coisas nessa direção.
Esse bull market secular se assentava sobre alguns pilares domésticos:
i. A migração do pêndulo sócio-político da esquerda intervencionista para a direita liberal, passando por uma plataforma de reformas fiscalistas que diminuiria o tamanho do Estado e abriria espaço para o setor privado, passando por concessões, melhora da governança de estatais e privatizações, além, claro, da confecção de uma trajetória convergente para nossa relação dívida/PIB. Como consequência, teríamos queda brutal da percepção de risco-país, atração do capital internacional, queda das taxas de juro longo, aumento da produtividade da economia.
ii. Espaço para redução estrutural e expressiva das taxas de juro, de curto prazo e também de equilíbrio, por forças deflacionárias que atuam em âmbito global e pelo hiato do produto gigantesco, que trazia possibilidade de expansão da economia sem repasse de preços. Brasil sempre conseguiu crescer sem muita inflação quando havia folga de oferta. Problema se deu historicamente quando o supply side esteve em jogo.
iii. Recuperação cíclica da economia, depois da maior e mais brutal recessão da história republicana brasileira. Lucros corporativos estavam no chão e poderiam encontrar expansão bastante expressiva a partir de mínima alavancagem operacional e financeira, sob ajuda também de uma retomada e do desenvolvimento do mercado de capitais, agora que passamos a conviver, pela primeira vez na História, com juros civilizados e com o fim da farra do financiamento público aos amigos do rei.
iv. Início de um processo de abertura da economia brasileira, mudando a abordagem dos acordos comerciais, sob abandono do viés ideológico para uma perspectiva pragmática.
Em paralelo, contávamos com um cenário internacional de juros muito baixos e que não explodisse as condições domésticas. Diante de forças deflacionárias estruturais e de longo prazo, como a tecnologia e a demografia, teríamos um poder brutal nas mãos dos bancos centrais e dos Tesouros nacionais, possivelmente entrando agora no que se batizou de fase 3 da política econômica global, com grande coordenação do lado monetário com o fiscal.
Ainda que o coronavírus possa representar uma importante ameaça de curto prazo, ele não significa uma ruptura do sistema. Talvez até ao contrário. Terminaremos com mais estímulos monetários e fiscais, intensificando nossa escravidão do sistema, para que, lá na frente, morramos num grande novo Plano Collor, como diz Luis Stuhlberger, ou numa grande convulsão social causada pela grande desigualdade, como teme Ray Dalio. Tampouco entendo que a queda do petróleo seja definitiva ou uma ruptura estrutural — a verdade é que ninguém aguenta esses preços por muito tempo, nem o shale americano, nem a própria Arábia Saudita, cujo déficit público vai para a Lua neste momento.
Ou seja, ainda que o curto prazo possa ser muito desafiador (não acho que o bom comportamento desta terça-feira signifique que a crise acabou; cuidado com esse argumento excessivamente superficial e sem o devido gerenciamento de risco), os pilares em prol da tendência positiva de longo prazo continuam. Como tenho tentado resumir, vejo um bear market dentro de um grande (e continuado) bull market. Para desespero de nossas mentes maniqueístas e pouco afeitas à complexidade do mundo, os animais podem conviver em harmonia. Normalmente, é isso que eles fazem.
Se estiver certo no argumento, a única coisa que você não pode, em hipótese alguma, permitir-se fazer é desistir no meio do caminho, abandonar o jogo na pior hora e perder a provável recuperação a médio e longo prazo. Da mesma forma que a velocidade e a intensidade da queda surpreendeu, assim também pode ser a volta. Não subestime a capacidade dos movimentos. Cada vez mais, o mundo é rápido e exponencial.
Tudo que você tem a fazer neste momento é seguir em frente, persistir. Never surrender (nunca se renda), como diria Maria Sharapova — se você não gosta dela, precisa rever muita coisa na vida.
Talvez você tenha se deparado com a tentação de vender tudo e evitar quedas ainda maiores. Há uma boa frase atribuída a Aristóteles potencialmente útil para essas situações: é um marco de uma mente educada ser capaz de enfrentar um pensamento sem aceitá-lo.
Keep walking. Apenas continue.
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