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A fuga do século?

Carlos Ghosn ou Carlos ‘Ghost’? A fuga cinematográfica do ex-presidente da Renault-Nissan do Japão

Proibido de sair do país asiático e aparentemente sem passaporte, Ghosn conseguiu escapar para o Líbano a bordo de um jato particular. Fuga em caixa de instrumento musical chegou a ser cogitada

1 de janeiro de 2020
18:44 - atualizado às 11:10
Carlos Ghosn
Carlos Ghosn, ex-presidente do grupo Renault-Nissan. - Imagem: Shutterstock

Autoridades japonesas estão investigando, mas ainda não se pronunciaram sobre como Carlos Ghosn, ex-presidente da Renault-Nissan, conseguiu escapar do Japão para o Líbano no dia 30 de dezembro. O executivo havia sido preso no país asiático, mas pagou fiança e estava aguardando julgamento em uma espécie de prisão domiciliar.

Em outras palavras, apesar de gozar de relativa liberdade, ele estava submetido a uma boa dose de vigilância e devia seguir uma série de regras. Entre elas, a proibição de viajar para fora do país.

Além disso, segundo seu advogado Junichiro Hironaka contou à imprensa local, a equipe de defesa do executivo estava com todos os seus passaportes. Carlos Ghosn tem cidadanias francesa, brasileira e libanesa.

Carlos "Ghost" ("Fantasma")

Como Ghosn conseguiu sair despercebido do Japão e aparentemente sem documentos ainda permanece um mistério. O que se sabe até agora é que o executivo de fato chegou ao Líbano em um jato particular vindo da Turquia, e que teria entrado no país do Oriente Médio legalmente após apresentar um passaporte francês. As informações são das próprias autoridades de segurança libanesas.

O governo da França negou qualquer conhecimento do caso. Segundo o jornal francês "Le Monde", o jato teria decolado de um pequeno e discreto aeroporto japonês em direção à Turquia.

Já o americano "The Wall Street Journal" citou uma fonte envolvida no plano de fuga, que teria dito que Ghosn teria escapado de sua residência altamente monitorada para o jato particular.

Segundo a emissora de TV japonesa NHK, não há registro da partida de Carlos Ghosn no banco de dados da Agência de Serviços de Imigração Japonesa.

Fuga "da injustiça e da perseguição política"

Por meio de seu assessor de imprensa baseado em Nova York, Carlos Ghosn emitiu um comunicado ontem (31) confirmando que deixou o Japão e estava no Líbano.

Na declaração, Ghosn crítica a Justiça japonesa, diz que não fugiu, mas que escapou "da injustiça e da perseguição política".

"Eu estou agora no Líbano e não serei mais refém do manipulado sistema de justiça japonês, onde a culpa é presumida, a discriminação é desenfreada e os direitos humanos são negados, em flagrante desrespeito às obrigações legais do Japão sob o direito internacional e os tratados que deve obedecer. Eu não fugi da justiça, eu escapei da injustiça e da perseguição política. Eu posso agora finalmente me comunicar livremente com a imprensa e pretendo começar na semana que vem", diz a nota.

Beirute apoia o ex-presidente da Renault-Nissan. "Não há planos de tomar medidas contra ele ou sujeitá-lo a ações legais", diz um comunicado da Segurança Geral do país, a força encarregada de administrar as fronteiras.

O Líbano não tem tratado de extradição com o Japão, o que significa que não há certeza sobre se Beirute irá cooperar com Tóquio para uma possível extradição de Ghosn.

Fuga numa caixa de instrumento musical

Por enquanto, há apenas especulações acerca de como ao certo Ghosn conseguiu escapar. Uma delas, a mais cinematográfica, é de que teria se escondido em uma caixa de instrumento musical de uma banda que teria se apresentado em sua casa.

Outra especulação é de que um governo estrangeiro ou mesmo o próprio governo japonês possam estar envolvidos na fuga, ou que talvez tenham apenas feito "vista grossa", permitindo que o executivo se livrasse de um julgamento potencialmente complicado.

O julgamento de Carlos Ghosn estava previsto para começar em abril, mas foi suspenso após seu desaparecimento.

O executivo foi demitido da Nissan depois que investigações internas da montadora revelaram conduta indevida por ocultação de seu salário quando ele era presidente executivo da empresa, além de uma transferência de US$ 5 milhões da montadora para uma conta na qual ele tinha participação.

Ele enfrenta quatro acusações, incluindo ocultação de renda e enriquecimento irregular. Ghosn nega as acusações. Segundo seus advogados, os promotores conspiraram com funcionários do governo e executivos da Nissan para tentar prejudicá-lo.

Ghosn foi preso pela primeira vez em novembro de 2018, tendo sido solto quatro meses mais tarde, depois de pagar fiança. Em abril, um mês depois de ser libertado, o ex-executivo foi novamente para a cadeia. Após pagar uma segunda fiança, ele deixou novamente a prisão, ainda em abril, tornando-se sujeito a uma série de condições restritivas, entre elas, a exigência de que ele ficasse no Japão.

*Com informações de Estadão Conteúdo, Agência Brasil e NHK.

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