Reviravolta: dólar cai e Ibovespa fecha em alta com ‘namoro’ entre Maia e Bolsonaro e atuação do BC
Sinais de alívio nas tensões políticas, somados à postura mais firme do BC no câmbio e à menor aversão ao risco lá fora, fizeram o Ibovespa subir mais de 1% e derrubaram o dólar a R$ 5,81

O destino dos mercados brasileiros nesta quinta-feira (14) parecia selado já durante a manhã: as turbulências no cenário político doméstico, somadas ao tom hesitante visto no exterior, fizeram o Ibovespa abrir em queda firme e jogaram o dólar à vista a R$ 5,97 — e nada parecia capaz de reverter esse quadro.
Só que, ao longo da sessão, começaram a surgir algumas notícias mais favoráveis aos investidores: por aqui, o Banco Central atuou no câmbio ainda durante a manhã, trazendo algum alívio ao dólar; lá fora, o humor dos mercados globais melhorou durante a tarde, dando mais suporte aos ativos domésticos.
O impulso final veio do tão tumultuado cenário político: sinais de reaproximação entre o presidente Jair Bolsonaro e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, após um longo período de atrito entre os dois, injetaram mais ânimo na bolsa e no câmbio — e o resultado foi uma reviravolta no panorama negativo visto durante a manhã.
Indo aos números: o dólar à vista bateu os R$ 5,9718 na máxima do dia (+1,20%), cravando um novo recorde nominal em termos intradiários. Ao fim da sessão, contudo, a moeda era negociada a R$ 5,8193, em baixa de 1,38%.
Já o Ibovespa tocou os 75.696,95 pontos pouco depois da abertura (-2,67%), indo às mínimas desde 27 de abril. Mas, dada a melhoria no cenário doméstico e global, o índice se fortaleceu e fechou nas máximas do pregão: 79.010,81 pontos, em alta de 1,59%.
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Essa recuperação vista no câmbio e no dólar foi fruto de uma acumulação de fatores ao longo do dia. Assim, é mais fácil dividir a sessão em etapas — e a primeira delas ocorreu ainda durante a manhã.
Qual o limite para o dólar?
Desde a semana passada, muito tem se falado do dólar à vista chegando aos R$ 6,00. Afinal, o Copom sinalizou que a Selic poderá cair a 2,25% na próxima reunião, enquanto o Fed diz que não vai mais reduzir os juros — um cenário que estreita ainda mais o diferencial nas taxas entre os países.
E, de fato, o BC parecia não estar se importando tanto com a escalada da moeda americana: nos últimos dias, a autoridade monetária fez apenas intervenções pontuais no mercado de câmbio. A percepção de que a inflação está bastante controlada também contribuía para a percepção de que o dólar alto não era problema para o banco.
Só que, nesta quinta-feira, o BC resolveu usar seu arsenal de maneira mais efetiva assim que o dólar à vista tocou os R$ 5,97: convocou imediatamente um leilão extraordinário de swap cambial de até US$ 1 bilhão. A postura surtiu efeito e afastou o dólar das máximas, embora não tenha feito a divisa virar ao campo negativo.
Enquanto isso, a bolsa continuava no campo negativo e caminhava para a quarta sessão de perdas, andando lado a lado com as bolsas globais: lá fora, os mercados acionários da Europa e dos Estados Unidos operavam em baixa, refletindo a postura mais cautelosa dos investidores.
Esse cenário, contudo, começaria a mudar durante a tarde.
[captacao]
Espaço para o otimismo
Logo depois do almoço, as bolsas americanas começaram a reduzir as perdas e, ainda no meio da tarde, viraram ao campo positivo — o Ibovespa acompanhou em parte esse movimento, zerando as perdas e passando a flutuar perto do zero a zero.
Mas não houve um grande catalisador para essa mudança de rumo lá fora. Trata-se mais de um movimento de ajuste e correção, considerando as perdas recentes nas bolsas — e as notícias de que há esforços mais intensos para a reabertura das economias da Europa e dos EUA surge como pretexto para os compradores atuarem.
Isso não quer dizer, no entanto, que o clima esteja melhorando de maneira concreta no exterior. As declarações dadas ontem pelo presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Jerome Powell, afirmando que uma recessão mais forte ainda está porvir no país e descartando a adoção de juros negativos, elevaram a aversão ao risco entre os investidores.
E mesmo a reabertura econômica é fonte de estresse, considerando que a China e outros países asiáticos começam a registrar novos casos do coronavírus — assim, cresce o temor quanto a uma 'segunda onda' da doença na região e a um fenômeno semelhante no Ocidente.
Ou seja: tivemos um dia de volatilidade típica dos cenários mais nebulosos — o que não impediu o Dow Jones (+1,62%), o S&P 500 (+1,15%) e o Nasdaq (+0,91%) de fecharem em alta.
Aqui no Brasil, o Ibovespa ainda precisava de mais um empurrão para se firmar em alta — e ele veio de Brasília.
Alívio político
Já na reta final da sessão, os investidores comemoraram um sinal de alívio nas tensões políticas: o presidente Jair Bolsonaro teve uma reunião com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e ambos deram declarações mais amenas depois do encontro.
Bolsonaro disse ter 'voltado a namorar' com Maia, afirmando estar tudo bem entre os dois; o presidente da Câmara, por sua vez, disse ser necessário 'encontrar pontos' que os unem.
Essa mudança no discurso foi o estímulo que faltava para os mercados brasileiros: o Ibovespa ganhou força na meia hora final da sessão, terminando o dia com ganhos de mais de 1%; o dólar à vista se firmou em queda, após quatro dias em alta.
O mercado de câmbio ainda contou com mais uma ajuda do BC: pouco depois das 16h00, a autoridade monetária voltou a atuar, mesmo com a moeda americana longe das máximas — e, desta vez, foi convocado um leilão à vista de dólares.
Assim, após um começo de sessão particularmente ruim, o Ibovespa e o dólar conseguiram virar o jogo e, ao menos por hoje, tiveram um alívio.
Juros em baixa
A melhoria no cenário para os ativos domésticos e o alívio visto em Brasília fizeram as curvas de juros fecharem em baixa, acompanhando a recuperação vista no câmbio e na bolsa:
- Janeiro/2021: de 2,65% para 2,64%;
- Janeiro/2022: de 3,64% para 3,66%;
- Janeiro/2023: de 4,90% para 4,84%.
Agenda cheia
No front corporativo, diversas empresas que fazem parte do Ibovespa reportaram seus números trimestrais desde a noite de ontem. Em destaque, apareceu Azul PN (AZUL4), em baixa de 5,61% — a empresa fechou o período com um prejuízo líquido de R$ 6,1 bilhões.
Já Via Varejo ON (VVAR3) apresentou uma reação tímida ao balanço trimestral: a ação teve baixa de 1,31%, após a companhia reverter o prejuízo reportado há um ano e encerrar os primeiro três meses de 2020 com lucro líquido de R$ 13 milhões.
Outras companhias que integram o índice, como GPA e Ultrapar, também divulgaram seus números — veja aqui um resumo dos resultados.
Confira abaixo as cinco maiores altas do Ibovespa nesta quinta-feira:
| CÓDIGO | NOME | PREÇO (R$) | VARIAÇÃO |
| CSNA3 | CSN ON | 8,39 | +11,57% |
| UGPA3 | Ultrapar ON | 15,00 | +11,28% |
| ELET3 | Eletrobras ON | 22,72 | +9,81% |
| CMIG4 | Cemig PN | 8,59 | +8,46% |
| CYRE3 | Cyrela ON | 13,63 | +8,26% |
Veja também as maiores quedas do índice no momento:
| CÓDIGO | NOME | PREÇO (R$) | VARIAÇÃO |
| SULA11 | SulAmérica units | 37,87 | -6,91% |
| PCAR3 | GPA ON | 59,90 | -6,26% |
| SUZB3 | Suzano ON | 47,54 | -6,03% |
| AZUL4 | Azul PN | 11,60 | -5,61% |
| IRBR3 | IRB ON | 7,04 | -4,99% |
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