A bolsa na capa da revista é sinal de que chegou a hora de vender suas ações?
O Seu Dinheiro ouviu analistas e gestores de fundos para questionar se chegou a hora de sair da bolsa ou se tudo isso não passa de alarmismo – e preconceito

O sobrenome Rockefeller dispensa apresentações. Responsável por revolucionar o setor do petróleo nos Estados Unidos em fins do século 19, é provável que John Rockefeller tenha sido o homem mais rico de todos os tempos, feitas todas as atualizações monetárias pertinentes.
Tamanha fortuna não teria sido sustentada sem um pezinho na bolsa de valores, obviamente. Mas como ela passou incólume pelo crash de 1929?
“Quando meu engraxate começou a me pedir dicas sobre ações, resolvi vender tudo”, teria respondido Rockefeller ao ser questionado sobre o assunto.
A atitude de Rockefeller, segundo essa versão da história, evitou que sua fortuna acabasse dragada pelo estouro da bolha de 1929 e resumiu em poucas palavras um daqueles momentos de irracionalidade que antecedem grandes rupturas nos mercados financeiros.
Existe uma outra versão dessa história controvertida e cheia elementos de lenda urbana. No lugar de Rockefeller entraria Joseph Kennedy, pai do ex-presidente norte-americano John Kennedy.
O patriarca da família Kennedy realmente se desfez de suas posições na bolsa dias antes da fatídica Black Thursday, preservando assim sua fortuna.
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Hora de sair?
Preconceitos e protagonistas à parte – e seguindo a mesma lógica atribuída a Rockefeller e a Kennedy –, é corrente entre os participantes do mercado financeiro em São Paulo a seguinte máxima: “quando a bolsa vira notícia na Praça da Sé, é hora de sair”.
A frase começou a ser revisitada nos últimos dias depois de a revista Veja ter publicado reportagem com direito a capa sobre a entrada de quase 1 milhão de brasileiros na bolsa desde o início da pandemia do novo coronavírus.
O grande volume de novos CPFs na B3 é apontado como uma das razões para a rápida recuperação do Ibovespa depois da intensa queda registrada no começo da pandemia.
Na semana passada, ao saber da capa da revista semanal, um experiente operador de renda variável com quem eu conversei brincou: “vende, não falha!”
É prematuro falar em bolha
Dias depois, um susto: os preços das ações do setor de tecnologia desabaram em Nova York, derrubando o índice Nasdaq e arrastando consigo diversos mercados. Esta correção nos preços dos ativos começou na semana passada e seguiu firme mesmo depois do feriado prolongado.
A questão que se levanta é: estaria a bolsa formando uma bolha em um momento de irracionalidade nos mercados? Seria mesmo a hora de sair?
Para responder a estas perguntas, o Seu Dinheiro foi ouvir analistas e gestores de fundos para questionar se chegou a hora de sair ou se tudo isso não passa de alarmismo – e preconceito.
“Claro que esses sinais chamam a atenção, principalmente de quem está há mais tempo no mercado, mas é preciso levar em consideração os aspectos tangíveis dessa situação”, disse Alexandre Silverio, diretor de investimentos da AZ Quest.
Falar de bolha, por exemplo, é muito prematuro, prossegue ele. “No começo da pandemia, questionava-se a capacidade de sobrevivência de governos e empresas”, recorda Silverio.

Neste aspecto, as companhias listadas na B3 podem ter sofrido com a crise, mas são empresas que mostraram-se vencedoras, com grande capacidade de reagir e de atrair recursos para se financiarem.
“Além disso, a reação do Banco Central foi proporcionar um nível inédito de juros baixos no Brasil. Então não me parece que essa entrada de CPFs aliada à capacidade das empresas listadas em bolsa signifique uma bolha”, afirma.
Pedro Galdi, analista da Mirae Asset, também não acredita na existência de uma bolha no atual momento da bolsa brasileira. Há uma série de razões, inclusive, para que a renda variável continue em expansão no futuro próximo. “Os juros estão baixos no mundo todo. Na Europa o juro é negativo. Então o dinheiro não tem muito pra onde correr”, avalia.
Com juros baixos, bolsa é o caminho para quem busca mais rentabilidade
Galdi acredita que muito mais gente ainda vai entrar na bolsa nos próximos meses. “No isolamento da pandemia as pessoas foram fuçar e muita gente que ainda está na renda fixa só está percebendo agora que não vai ganhar quase nada se não migrar para a renda variável.”
“O retorno não está na renda fixa, mas na renda variável. Aqui no Brasil, temos à disposição os mercados de ações ou os fundos imobiliários. Mais pra frente vamos ter os BDRs, então tem espaço para crescer”, diz o analista. Além disso, acrescenta, “tem muito IPO vindo aí”.
Diante disto, ele não vê a formação de uma bolha neste momento. “A economia está voltando, em breve vai ter vacina. Tudo aponta para a bolsa continuar performando bem pelos próximos meses.”
De qualquer modo, num relatório divulgado a clientes, o Banco Fator chama a atenção para as advertências levantadas recentemente pela Esma, sigla em inglês para a Autoridade Europeia de Valores Mobiliários, equivalente à nossa CVM.
Em um estudo sobre tendências, riscos e vulnerabilidades (TRV), a Esma lança dúvidas sobre a sustentabilidade da atual condição dos mercados financeiros ao destacar o “risco de potencial decoupling da performance do mercado financeiro da atividade econômica subjacente”, observa o Banco Fator.
Ponto de entrada não é o ideal
Com mais ou menos risco, o fato é que o pequeno investidor acaba se sentindo atraído pela perspectiva de ganhos mais elevados e de que essa expansão vá continuar indefinidamente.
Enrico Cozzolino, analista de ações do banco Daycoval, considera se tratar de um caso de finanças comportamentais. “Quando sai uma notícia assim, os múltiplos já estão caros. Então não é o ponto de entrada ideal”, explica ele, referindo-se à capa de Veja.
Neste processo, o investidor pessoa física acredita que vale a pena assumir o risco, às vezes acreditando que a bolsa vai continuar subindo, mas entra com o mercado caro. “Quando ocorre um ajuste mais forte para baixo, ele acaba se assustando e realiza o prejuízo”, diz Cozzolino.
Na avaliação do especialistas, “os múltiplos voltaram a ficar caros em agosto”, quando a bolsa recuperou o patamar dos 100 mil pontos, “sem que houvesse avanços que justificassem pagar mais por bolsa, seja em termos da pandemia ou de política local”.
Numa situação assim, o lucro da empresa precisa aumentar ou o preço precisa cair para se equiparar ao lucro que ela tem. “Historicamente é o que acontece. Mas o que me chama a atenção atualmente é ver cada vez mais clientes entendendo um pouco melhor essa queda sem entrar em pânico.”
Silverio, da AZ Quest, também chama a atenção para a necessidade de se observar cada período histórico a partir de um prisma adequado.
“No passado, realmente, quando as pessoas estavam acostumadas com retornos elevados na renda fixa, esse tipo de situação acontecia. A pessoa podia até perder dinheiro correndo risco, mas depois voltava para uma renda fixa que remunerava muito bem.”
Entretanto, o momento agora é outro. “O mercado brasileiro atravessa neste momento um chamado financial deepening”, afirma ele. E esta expansão da renda variável, diz Silverio, parece ter vindo para ficar.
Em relação ao susto proporcionado pelas ações de tecnologia, Silverio enxerga no momento uma realização de lucros. “Nenhum dado mostra mudança estrutural”, afirma.
De acordo com o diretor de investimentos da AZ Quest, as empresas de tecnologia mudaram de patamar com base em percepções de longo prazo.
“Num ambiente de juro baixo e percepção de que vai continuar sendo assim por mais tempo, quando você olha o valor de uma companhia, quanto de retorno ela vai trazer, boa parte não vem do lucro de curto prazo, mas da capacidade de gerar lucro num prazo mais dilatado” Alexandre Silverio — AZ Quest.
No caso das empresas de tecnologia, isso foi antecipado e percebido como um desfecho mais provável. Mas o gestor afirma que em alguns momentos do ciclo esse movimento vai ser questionado.
E se Rockefeller ou Kennedy hipoteticamente vissem a capa de revista sobre a expansão da B3 cientes de todo este contexto, é improvável que saíssem da bolsa.
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