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Vários chefes de Estado americanos já se mostraram insatisfeitos com as decisões do banco central do país; por aqui, os presidentes da República também já tiverem atritos com a autarquia
Na semana passada, durante a reunião do Fomc (sigla em inglês para Comitê de Mercado Aberto da Reserva Federal) do Fed, equivalente ao nosso Copom (Comitê de Política Monetária), o órgão americano decidiu reduzir a taxa básica de juros em 25 pontos-base (um quarto de um ponto percentual), a primeira queda em onze anos. Como eles trabalham com bandas, a nova faixa fica entre 2% e 2,25%.
Sendo a notícia amplamente esperada pelos mercados, não deveria causar maiores impactos nas bolsas e nos preços dos treasuries (títulos do Tesouro dos Estados Unidos).
Acontece que, em seu costumeiro comentário após o encontro do Fomc, ochairman do Fed, Jerome Powell, frustrou as expectativas dos agentes econômicos que aguardavam por novas reduções nas próximas reuniões, hipótese essa que Powell descartou.
Se, por um lado, o mercado se limitou a um perceptível desapontamento, por outro o presidente Donald Trump ficou furioso.
Num dos seus tuítes seriais, Trump alegou que, enquanto a Comunidade Europeia e a China baixam as taxas de juros para valer, injetando dinheiro em suas economias, o “nosso Fed não faz nada”. “Muito ruim (too bad), isso”, acrescentou.
Como, nos Estados Unidos, o Federal Reserve Bank é um órgão independente desde 1913, é raro um ocupante da Casa Branca criticar de forma tão contundente as decisões do colegiado.
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Embora o presidente tenha a prerrogativa de escolher o chairman, cujo mandato não coincide com o seu, essa indicação precisa ser aprovada pelo Senado, tal como no Brasil. O ungido tem liberdade de trabalhar ao lado dos demais seis integrantes da Junta de Governadores da instituição.
Vários chefes de Estado americanos já se mostraram insatisfeitos com as decisões do Fed. Entre eles, os recentes George W. Bush, Bill Clinton, George H. W. Bush (Bush pai) e Ronald Reagan. Mas sempre o fizeram com comentários leves, do tipo:
“Em minha opinião, essa decisão não era necessária”.
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É óbvio que Barack Obama jamais fez esse tipo de ressalva. Pudera. Durante seus dois mandatos, a taxa-base manteve-se em zero, herança da crise do subprime.
Trump ataca Powell ferozmente e ameaça demiti-lo, coisa que não tem poderes para fazer. Mas pode escolher outro nome em 2022, caso seja reeleito no ano que vem.
A não ser por ocasião de suas nomeações, os chairmen do Fed não frequentam a Casa Branca. Eventualmente, até se encontram com o presidente da República em recepções, enterros, casamentos, etc., mas se limitam a cumprimentos protocolares.
No Brasil, o Banco Central, criado em 1964, nunca teve independência. O máximo que conseguiu foi autonomia operacional, status esse que está atingindo seu ápice no governo Jair Bolsonaro.
Se Paulo Guedes troca ideias sobre política monetária com Roberto Campos Neto, disso não tenho conhecimento. Mas jamais vi Bolsonaro, ou um dos seus filhos, e nem mesmo o “filósofo” Olavo de Carvalho fazerem algum tipo de crítica à política do BC.
Quando assumiu a presidência da República, em março de 1967, o general Artur da Costa e Silva recebeu a sugestão de dar independência ao BC, na época presidido por Ruy Leme.
“O Banco Central será o guardião da moeda”, disse, empolgado, um integrante da área econômica do governo.
“O guardião da moeda sou eu”, Costa e Silva, mais do que depressa, encerrou o diálogo.
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Quando iniciou seu primeiro mandato, Lula teve dificuldade em conseguir um nome de prestígio no cenário internacional para nomear para o BC. Por sugestão de Antonio Palocci, Pedro Luiz Bodin de Moraes, então diretor de política monetária da instituição durante o governo FHC, foi sondado, mas não aceitou, provavelmente com medo de interferências de um governo socialista.
Felizmente para Lula e Palocci, Henrique Meirelles encarou o desafio. Desincumbiu-se da tarefa com tal desenvoltura e competência que chegou a ser aclamado, durante uma reunião de seus pares internacionais, como o melhor presidente de Banco Central em todo o mundo.
Dilma estragou tudo. Escolheu Alexandre Tombini e, desgraçadamente para o país, exerceu ela mesma a função de “guardiã da moeda”. Deu no que deu. Taxa Selic derrubada na marra, volta da inflação de dois dígitos.
Com a escolha de Ilan Goldfajn pelo presidente Michel Temer e de Roberto Campos Neto por Bolsonaro, é menos um problema para o Brasil. Reformada a Previdência e dando prosseguimento às privatizações, só resta termos otimismo com o futuro do país, após várias décadas nas quais o grande fundamento do mercado era déficit, inflação, inflação, déficit...
Pena que o cenário internacional possa alterar isso tudo. Para pior. Por mais que as decisões do Fed afetem o Brasil, as do Copom jamais irão interferir no cenário mundial.
O que me deixa otimista, moderadamente otimista, é saber que o enxugamento do Estado é aparentemente um caminho sem volta. Isso vai acabar se refletindo no aumento do PIB e na volta de um país que já foi próspero.
Só que próspero e sem inflação é um cenário que jamais testemunhei em meus 79 anos de vida.
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