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José Júlio Senna, economista do Ibre-FGV, diz que empresários já têm à disposição dinheiro mais barato. “E nem por essa razão há fila de empresários querendo tomar crédito.”
Às 20h46 da quarta-feira, 31 de agosto de 2011, jornalistas dedicados à cobertura do Copom levaram um susto e economistas dedicados à repercussão das decisões do comitê perderam a fala. Uma nova Selic entraria em vigor no dia seguinte, 1º de setembro, 0,50 ponto percentual mais baixa que a anterior.
O juro havia tombado de 12,50% para 12%. O comunicado divulgado com a Selic transferia a responsabilidade pela mudança inesperada à piora do cenário externo. Recompostos, profissionais do mercado descreveram o fato: “O Copom deu um ‘cavalo de pau’ na taxa de juro.”
O colegiado não só havia cortado fortemente a Selic, mas também invertido sua direção sem aviso ou sinalização prévia e iniciara um ciclo de alívio monetário em meio a questionamentos e protestos tão elevados quanto à correção da curva de juro na BM&F.
Interpretar o ocorrido ninguém conseguiu. Porém, rapidamente, surgiu o culpado. Com nome e endereço: presidente Dilma Rousseff, Palácio do Planalto, Praça dos Três Poderes, DF-Brasília. O Banco Central havia sucumbido à pressão do Executivo para derrubar a Selic.
Dilma havia dito no início do mandato, em janeiro, que pretendia reduzir o juro real a 2%. O sonho estava a caminho, assim como pressões inflacionárias e um imenso descrédito da autoridade monetária.
Ao final daquele ciclo de baixa, a Selic caiu a 7,25% ao ano, um recorde de baixa. E, em dezembro de 2012, o juro real cravou a marca de 1,39%. Antes do ‘cavalo de pau’, o juro real era 5,5%.
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O juro real nanico para os padrões brasileiros durou, mas não contribuiu para turbinar a atividade e desorganizou a economia. Os estímulos à aceleração foram bloqueados pela desconfiança com os rumos da política econômica,da política monetária, do próprio governo e por uma brutal desancoragem de expectativas inflacionárias.
Hoje, o juro real projetado para o fim do ano está ligeiramente abaixo de 2%, mas poderá bater o recorde de 2012 daqui a um ano. Contudo, a descompressão do juro, iniciada há um bom tempo, vai favorecer projeções para o Produto Interno Bruto (PIB)?
Parece improvável na opinião do economista José Júlio Senna, chefe do Centro de Estudos Monetários do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV), se não ocorrerem reformas para além da Previdência.
“A atividade depende de confiança no futuro, identificação com o rumo da política econômica e expectativas favoráveis. O juro é importante? Evidente que sim. Contudo, em alguns momentos do tempo, o juro não serve para nada.”
Para esse especialista em política monetária e bancos centrais, o problema do Brasil não é mais de desaceleração cíclica, normalmente neutralizada ou compensada com políticas cíclicas fiscais ou monetárias.
Ele lembra que a política fiscal não tem mais espaço e a monetária, se tiver, é pouco. Mas esse não é mais o problema do Brasil. “O problema do Brasil tornou-se estrutural.”
Senna, ex-diretor de política monetária do BC, afirma que o mercado já promoveu o afrouxamento monetário. Estamos com juro para 2021 abaixo da Selic (5,90% na sexta, ante Selic de 6,50%).
Isso quer dizer que os empresários já têm à disposição dinheiro mais barato e há bastante tempo. "E, nem por essa razão, há fila de empresários querendo tomar crédito."
Isso acontece, segundo Senna, porque nosso problema é a atividade. “Entraves conspiram contra a economia brasileira há 40 anos. O Brasil não cresce há quatro décadas.” Nesse longo período, o PIB per capita avançou 0,9 por cento [em média] e a produtividade cresceu 0,5 por cento.
“Estamos estagnados e isso quer dizer que a solução para o Brasil não é de curto prazo.”
José Júlio Senna indica que o Brasil não avançará por atalhos. “O Brasil tem que resolver direto o problema de longo prazo. Agir sobre o lado da oferta na economia.”
Ele diz que é preciso reduzir custos para que os empresários mobilizem recursos para fins produtivos. O Brasil precisa destravar o processo produtivo, cortar custos de produção, simplificar a estrutura de impostos, reduzir os impostos, melhorar o ambiente de negócios, transferir a infraestrutura – via privatizações e concessões – para o setor privado. “Só a mudança de mãos traz um imediato ganho de produtividade.”
O governo está na linha certa, mas há muita demora para que as coisas aconteçam na direção de uma economia mais eficiente. Senna entende que essa demora acende alertas, traz dúvidas e levanta resistências às mudanças. A reforma da Previdência vai sair e é fundamental. Mas não é tudo.
“Veja a situação. A Previdência é aprovada e os empresários vão dizer: legal, aquele risco de default está bem amenizado. Bola para frente. Vamos rediscutir isso daqui a 15 anos. Aqui, ok! Então vamos aumentar a produção e escoá-la pelas estradas... Aqui, não mudou nada. Não tem estrada. Vamos, então, ganhar eficiência com o pagamento de impostos, mas ainda é necessário um ‘exército’ para preencher formulários. Se não ocorrer melhora visível nessas condições, a economia não se recupera.”
Para Senna, é equivocado o argumento de que os bancos centrais podem cortar a taxa de juro e aumentar se for necessário. “Alterar a taxa de juro não é como trocar de camisa. Quando o juro começa a subir, não se tem ideia de onde vai parar.”
Em 2018, lembra, essa dúvida ficou gigantesca. Estimava-se que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) poderia promover quatro aumentos. Agora espera-se corte.
“Eu nunca comprei essa ideia dos aumentos. Argumento, há anos, que os países desenvolvidos experimentam um ‘mundo novo’, em que a desigualdade aumentou, as famílias perderam o ímpeto para consumir porque a renda ficou mais concentrada, a produtividade passou a evoluir em ritmo lento.”
Assim, o empresário entende que o PIB potencial também será fraco, que os lucros serão menores e retraem os investimentos. Soma-se a isso a expansão populacional baixa, que exige construção de menos usinas hidrelétricas e casas, a tecnologia que não é intensiva em capital, a substituição de trabalhadores por máquinas e o resultado será mais retração, segundo Senna.
Do outro lado da economia há menor pressão por salários e, por tabela, menor pressão inflacionária. Desde 2010, as taxas de crescimento vêm puxando para baixo a média histórica.
“Agora, com as disputas comerciais deflagradas por Donald Trump, o crescimento do comércio internacional é contraído. Os indicadores econômicos vão todos na mesma direção do desaquecimento e assim chegamos a uma nova onda de estímulos à atividade.”
Senna lembra que o Japão promete estimular a atividade, embora jamais tenha interrompido a compra de ativos em mercado. O Banco Central Europeu (BCE) já avisou que vai retomar essas compras e os EUA, avalia, seguem em sua posição privilegiada em relação a seus pares. Exatamente por isso ele vê um espaço modesto para o dólar enfraquecer ante as demais moedas.
“O mundo vai continuar querendo dólar. Não vejo uma paulada para cima, mas também não vejo o dólar enfraquecendo com consistência e isso tem implicações para o Brasil...”
O chefe do Centro de Estudos Monetários da FGV lembra que no fim de maio, quando o presidente do Fed, Jerome Powell, deu a primeira sinalização de corte de juro, o dólar caiu no mundo e, no Brasil, passou de 4,10 reais para cerca de 3,83 reais.
O dólar um pouco mais baixo pode alimentar a expectativa de que o Copom será incentivado a cortar a Selic. “Eu não contaria com isso”, diz o economista.
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