Não dá mais para esperar, Bolsonaro tem que assumir a Presidência
Episódio envolvendo Rodrigo Maia, que ameaça abandonar reforma, será determinante para futuro do governo, que segue atuando em “modo campanha”

Vou transcrever abaixo duas mensagens que troquei com um experiente consultor político de Brasília que ilustram bem o momento político do governo Jair Bolsonaro e evidenciam a necessidade de o governo, tido aqui como o presidente e seu núcleo familiar, adotar uma postura pragmática e começar, de fato, a governar.
- Ouvimos de um parlamentar de oposição: a oposição está esfacelada e o apoio à reforma é de aproximadamente 80% dos membros. A reforma deve ser aprovada na Câmara no primeiro semestre.
- Em contraponto, ouvimos de uma liderança importante do DEM: não há diálogo com o governo, essa reforma não sai antes do primeiro semestre da Câmara.
O natural seria o contrário, com a oposição desacreditando a reforma, e os partidos alinhados defendendo sua aprovação. O cerne da questão está nessa parte: “não há diálogo com o governo”.
O episódio envolvendo o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ) e o filho Carlos praticamente interditam de vez esse diálogo, pois Maia era um relevante canal de comunicação com partidos e liderança partidárias, que foram deixadas de lado ao longo de toda a campanha de eleição de Bolsonaro.
“Apesar da manutenção do otimismo do mercado, há um cenário de instabilidade instalado, o qual demanda atenção e coloca o presidente em situação paradoxal, pois, ao que tudo indica, a manutenção da estratégia de campanha pode colocar em risco a aprovação da Previdência, condição essencial para o sucesso do governo”, diz esse consultor.
Contexto
Esse clima de insatisfação e falta de diálogo tem de ser vista dentro do contexto eleitoral de 2018 que ainda permeia o governo. Segundo esse mesmo consultor, os motes centrais das eleições foram a radicalização do discurso contra a velha política e o uso das redes na comunicação direta com a população.
Assim, Bolsonaro formou seu governo apontando para a quebra do que conhecemos como “Presidencialismo de Coalizão”, priorizando as bancadas temáticas e deixando os partidos políticos em segundo plano.
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Do ponto de vista da comunicação, foi mantida a estratégia de desgaste e conflito com a mídia tradicional e o contato direto via redes sociais.
A estratégia é válida para manter sua militância engajada, mas parece não estar dando resultado esperado, pois não trouxe mais apoiadores para o presidente, que vem observando queda de popularidade.
Mesmo que ressoe bem com apoiadores e parte da opinião pública esse clima de beligerância com a chamada “política tradicional” tem interditado o diálogo com o Congresso e entrar em conflito com o articulador da reforma pode prejudicar a estratégia de aprovação.
Qual a saída?
Para esse especialista, a reforma da Previdência depende de postura pragmática do Governo, através da priorização de recursos de retórica que o permitam abrir o diálogo com o Congresso e setores da sociedade, sem perder seu exército nas redes.
Ou seja, é possível manter o “exército” nas redes sem agredir aliados e isso serve também para o núcleo familiar, que embora tenha participação informal, sempre soará como algo forma ou “de governo”.
Tudo indica que o presidente terá de demonstrar compromisso com a reforma e demonstrar sacrifício. No entanto, nos lembra o consultor, o sinal inicial com a reforma dos militares foi no sentido contrário, já que o texto trouxe uma reestruturação de carreiras e parca economia ou “sacrifício” de R$ 10 bilhões.
Além disso, para lidar com um tema tão impopular como reforma da Previdência, as redes sociais não serão suficientes, será necessário um esforço de comunicação tradicional, via entrevistas, coletivas.
Mais uma avaliação
Em nota a clientes, uma grande corretora também fez uma avaliação semelhante, dizendo que “a encruzilhada de Bolsonaro está na vida real. Ou o presidente toma a decisão de ao menos uma vez contrariar seus apoiadores nas redes sociais e começa a tomar decisões e exercer postura mais presidencial em relação à política de uma forma geral, ou corremos risco de adiamentos infinitos da reforma da Previdência até que fique inviável votar a matéria”.
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