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É a política, ou a falta dela

Não dá mais para esperar, Bolsonaro tem que assumir a Presidência

Episódio envolvendo Rodrigo Maia, que ameaça abandonar reforma, será determinante para futuro do governo, que segue atuando em “modo campanha”

Jair Bolsonaro ao lado de Flávio e Carlos Bolsonaro
Jair Bolsonaro ao lado de Flávio e Carlos Bolsonaro - Imagem: Wilton Junior/Estadão Conteúdo

Vou transcrever abaixo duas mensagens que troquei com um experiente consultor político de Brasília que ilustram bem o momento político do governo Jair Bolsonaro e evidenciam a necessidade de o governo, tido aqui como o presidente e seu núcleo familiar, adotar uma postura pragmática e começar, de fato, a governar.

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  • Ouvimos de um parlamentar de oposição: a oposição está esfacelada e o apoio à reforma é de aproximadamente 80% dos membros. A reforma deve ser aprovada na Câmara no primeiro semestre.
  • Em contraponto, ouvimos de uma liderança importante do DEM: não há diálogo com o governo, essa reforma não sai antes do primeiro semestre da Câmara.

O natural seria o contrário, com a oposição desacreditando a reforma, e os partidos alinhados defendendo sua aprovação. O cerne da questão está nessa parte: “não há diálogo com o governo”.

O episódio envolvendo o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ) e o filho Carlos praticamente interditam de vez esse diálogo, pois Maia era um relevante canal de comunicação com partidos e liderança partidárias, que foram deixadas de lado ao longo de toda a campanha de eleição de Bolsonaro.

“Apesar da manutenção do otimismo do mercado, há um cenário de instabilidade instalado, o qual demanda atenção e coloca o presidente em situação paradoxal, pois, ao que tudo indica, a manutenção da estratégia de campanha pode colocar em risco a aprovação da Previdência, condição essencial para o sucesso do governo”, diz esse consultor.

Contexto

Esse clima de insatisfação e falta de diálogo tem de ser vista dentro do contexto eleitoral de 2018 que ainda permeia o governo. Segundo esse mesmo consultor, os motes centrais das eleições foram a radicalização do discurso contra a velha política e o uso das redes na comunicação direta com a população.

Assim, Bolsonaro formou seu governo apontando para a quebra do que conhecemos como “Presidencialismo de Coalizão”, priorizando as bancadas temáticas e deixando os partidos políticos em segundo plano.

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Do ponto de vista da comunicação, foi mantida a estratégia de desgaste e conflito com a mídia tradicional e o contato direto via redes sociais.

A estratégia é válida para manter sua militância engajada, mas parece não estar dando resultado esperado, pois não trouxe mais apoiadores para o presidente, que vem observando queda de popularidade.

Mesmo que ressoe bem com apoiadores e parte da opinião pública esse clima de beligerância com a chamada “política tradicional” tem interditado o diálogo com o Congresso e entrar em conflito com o articulador da reforma pode prejudicar a estratégia de aprovação.

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Qual a saída?

Para esse especialista, a reforma da Previdência depende de postura pragmática do Governo, através da priorização de recursos de retórica que o permitam abrir o diálogo com o Congresso e setores da sociedade, sem perder seu exército nas redes.

Ou seja, é possível manter o “exército” nas redes sem agredir aliados e isso serve também para o núcleo familiar, que embora tenha participação informal, sempre soará como algo forma ou “de governo”.

Tudo indica que o presidente terá de demonstrar compromisso com a reforma e demonstrar sacrifício. No entanto, nos lembra o consultor, o sinal inicial com a reforma dos militares foi no sentido contrário, já que o texto trouxe uma reestruturação de carreiras e parca economia ou “sacrifício” de R$ 10 bilhões.

Além disso, para lidar com um tema tão impopular como reforma da Previdência, as redes sociais não serão suficientes, será necessário um esforço de comunicação tradicional, via entrevistas, coletivas.

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Mais uma avaliação

Em nota a clientes, uma grande corretora também fez uma avaliação semelhante, dizendo que “a encruzilhada de Bolsonaro está na vida real. Ou o presidente toma a decisão de ao menos uma vez contrariar seus apoiadores nas redes sociais e começa a tomar decisões e exercer postura mais presidencial em relação à política de uma forma geral, ou corremos risco de adiamentos infinitos da reforma da Previdência até que fique inviável votar a matéria”.

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