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Mercado mantém otimismo com novo governo, mas discurso genérico de Bolsonaro em Davos acende sinal de alerta
O presidente Jair Bolsonaro tinha 45 minutos reservados para falar na abertura do fórum econômico em Davos. Esperava-se que o discurso durasse ao menos meia hora. Mas não chegou nem a dez. A mensagem genérica e previsível, sem detalhar como planeja estabilizar as contas públicas, frustrou, em partes, o mercado financeiro brasileiro.
Ao final da sessão de ontem, a Bolsa brasileira registrou a maior queda neste ano, de quase 1%, mas segurou-se nos 95 mil pontos, ao passo que o dólar voltou à marca de R$ 3,80, no maior nível em 2019. Houve, sim, grande influência do ambiente externo cada vez mais preocupado com a desaceleração econômica global e com a guerra comercial.
Mas foi a falta de detalhes ontem na fala do presidente que frustrou as expectativas por um discurso mais incisivo, aumentando a espera por novas declarações e sinalizações do governo em relação ao ajuste fiscal e às reformas econômicas. Os ativos locais seguem ávidos por novidades, de modo a manter a onda de otimismo com o novo governo.
Hoje, os investidores podem passar o pente-fino na fala de Bolsonaro, passadas a tensão com a estreia internacional e a decepção com o discurso curto na primeira aparição em Davos. Ainda na cidade suíça, o presidente participa de entrevista à imprensa, ao lado dos seus super-ministros Paulo Guedes (Economia) e Sergio Moro (Justiça), a partir das 13h.
Ontem, Guedes conseguiu transmitir uma mensagem de entusiasmo e passou previsibilidade do país aos investidores. Ele defendeu a reforma da Previdência e um novo regime, o de capitalização, e falou de privatizações. Porém, em ambos os temas, o ministro tampouco detalhou ou mencionou alvos específicos.
Para os “gringos”, a quase ausência de qualquer menção ao que será feito para cobrir o rombo das contas públicas pode ser um indício de que o compromisso do governo com a reforma fiscal não é tão forte quanto alguns esperam. E se Bolsonaro não detalhar em breve como ele planeja enfrentar esse desafio, o brilho do governo pode começar a se desgastar.
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Afinal, o principal desafio continua sendo a execução, na prática, dos planos de gerar superávit primário, abrir a economia, reduzir o tamanho do Estado etc. E foi por isso que o discurso de Bolsonaro na cidade suíça decepcionou, diante da falta de substância e credibilidade. O que a elite financeira mundial procurava eram medidas concretas.
A sensação deixada lá fora é de que, se Bolsonaro falou por tão pouco tempo talvez seja porque ainda não há, necessariamente, um plano sobre como irá fazer para mudar as regras da aposentadoria ou privatizar as empresas estatais. Poderia ter sido mais prolixo em “vender” o país para o público presente em Davos, repleto de investidores.
Por ora, os investidores - locais e institucionais, principalmente - seguem confiantes na agenda liberal, a ser conduzida pelo ministro Paulo Guedes. O sentimento ainda é de que, antes de convencer os estrangeiros a alocar seus recursos no Brasil, o Palácio do Planalto precisa conquistar apoio do Congresso para aprovar as medidas de ajuste fiscal.
Com isso, as atenções se voltam, agora, para a retomada das atividades no Legislativo, no mês que vem. Deputados e senadores voltam aos trabalhos em plena sexta-feira, dia 1º de Fevereiro para eleger os presidentes da Câmara e do Senado, além dos demais cargos da Mesa.
Até lá, porém, o mercado financeiro brasileiro estará atento às articulações dos partidos. A expectativa é de que Rodrigo Maia seja reeleito pelos deputados. Mas cresce a oposição à candidatura dele, não apenas pelas siglas de esquerda, mas também do Centro. No Senado, Simone Tebet concorre com Renan Calheiros a indicação interna do MDB.
A reunião para definir a candidatura ficou marcada para 29 de janeiro. Se Simone vencer, o senador eleito Major Olímpio, do PSL, pode desistir de concorrer à presidência da Casa. O partido dele está indignado com as movimentações do ministro Onyx Lorenzoni (Casa Civil) para que o DEM lance um nome.
Os mercados internacionais amanheceram de lado nesta quarta-feira, após notícias de possíveis sobressaltos nas negociações comerciais entre Estados Unidos e China, que abalaram Wall Street ontem. Na Ásia, porém, o sinal das bolsas foi misto: houve leves baixas em Tóquio e em Xangai, mas ligeira alta em Hong Kong.
Dados mais fracos que o esperado no Japão ampliaram o temor com a desaceleração econômica global. O país registrou o primeiro déficit comercial desde 2015, após o maior recuo das exportações em dois anos. O desempenho sugere que a perda de tração na China está afetando os negócios de países vizinhos.
Com isso, o Banco Central japonês (BoJ) deixou a política monetária inalterada, mas cortou a previsão para a inflação neste e no próximo ano, reforçando a postura firme de manter os estímulos à economia do país. Em reação, o iene perdeu terreno para o dólar, mas a moeda norte-americana tem desempenho misto em relação aos rivais.
Já o BC chinês (PBoC) voltou a injetar liquidez no sistema financeiro, através de uma nova ferramenta, que fornece recursos de médio prazo (MLF). A operação injetou US$ 40 bilhões com vencimento de até um ano e novamente acontece à medida que se aproxima o feriado do Ano Novo Lunar.
No Ocidente, as principais bolsas europeias caminham para uma abertura negativa, apesar do sinal positivo ensaiado em Nova York. Os índices futuros tentam se apoiar na fala do conselheiro da Casa Branca, Larry Kudlow, de que o encontro agendado para a semana que vem com os chineses será “muito, muito importante” e “determinante”.
A declaração reduz, em partes, as dúvidas na questão comercial sino-americana, após relatos ontem de que o presidente Donald Trump teria rejeitado uma reunião preparatória com autoridades chinesas nesta semana, devido à falta de progresso em relação à propriedade intelectual.
Segundo Kudlow, os dois lados trabalham para negociações “de alto nível” e Trump “não irá recuar” e irá forçar a China a promover reformas substanciais no comércio. A estratégia norte-americana parece elevar a pressão sobre Pequim antes do fim do prazo da trégua comercial, em março. Mas isso pode causar desconforto nos mercados, induzindo uma volatilidade até lá.
A agenda econômica desta quarta-feira traz como destaque apenas a prévia da inflação ao consumidor brasileiro em janeiro. O IPCA-15 deve apagar a queda de 0,16% registrada em dezembro e subir 0,35% neste mês. Ainda assim, a taxa acumulada em 12 meses deve desacelerar a 3,8%, distante da meta perseguida pelo Banco Central, de 4,25%.
Ainda assim, a taxa mais salgada em janeiro pode ser apenas o início de leituras mais altas nos índices de preços no varejo. Afinal, o calor intenso neste verão brasileiro combinado com o baixo volume de chuvas para o mês e o consumo recorde de energia pode antecipar o fim da bandeira verde na conta de luz - se não em fevereiro, já em março.
Essa perspectiva inibe, então, as apostas de que o Comitê de Política Monetária (Copom) poderia voltar a cortar a taxa básica de juros em breve. Nessa perspectiva, a inflação comportada e a recuperação econômica lenta demandam uma nova queda da Selic. Mas as incertezas em relação à agenda de reformas diminuem as chances de novos estímulos.
Os resultados efetivos do IPCA-15 serão divulgados às 9h. Antes, saem os números preliminares sobre a confiança da indústria em janeiro (8h). Depois, serão conhecidos os dados do emprego formal no país em dezembro (9h30) e sobre a entrada e saída de dólares do Brasil no início deste ano (12h30). Já no exterior, o calendário está esvaziado.
O ex-diretor do Copom espera que um primeiro corte venha em março ou abril, quando a expectativa de inflação futura chegar, enfim, aos 3%
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