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2018-11-09T15:33:18-02:00
Vinícius Pinheiro
Vinícius Pinheiro
Formado em jornalismo, com MBA em Derivativos e Informações Econômico-Financeiras pela FIA. Trabalhou por 18 anos nas principais redações do país, como Agência Estado/Broadcast, Gazeta Mercantil e Valor Econômico. É coautor do ensaio “Plínio Marcos, a crônica dos que não têm voz" (Boitempo) e escreveu os romances “O Roteirista” (Rocco), “Abandonado” (Geração) e "Os Jogadores" (Planeta).
Bancos

Por que o Bradesco considera que as ações do banco estão baratas

Os recados que os principais executivos do segundo maior banco privado brasileiro mandaram em evento para analistas e investidores

28 de agosto de 2018
20:36 - atualizado às 15:33
Mulher olha vitrine de lojas em promoção
Ações do Bradesco sofreram com a Bolsa em meio à onda de pessimismo com a economia brasileira. - Imagem: Shutterstock

Mistério sempre há de pintar por aí, já diria o mestre Gilberto Gil. Ainda mais quando se trata do cenário para o Brasil em véspera de eleições. Mas para quem já vive sob esse teto há 75 anos como o Bradesco, melhor não ser tão esotérico assim.

Participei na tarde de hoje do evento anual promovido pelo segundo maior banco privado do país com analistas e investidores. E o recado não podia ser mais claro: as cotações das ações do Bradesco na bolsa estão baratas e o dólar a quase R$ 4,14 está fora do lugar.

O evento da associação dos analistas (Apimec) é uma rara oportunidade de os investidores saberem o que pensam os principais executivos do banco. Incluindo Lázaro de Mello Brandão, que deixou o conselho do Bradesco no ano passado, mas segue dando expediente na sede do banco na Cidade de Deus, em Osasco (SP) no auge de seus 92 anos.

Com uma desenvoltura de dar inveja a muito marmanjo, “seu” Brandão leu um discurso de duas páginas (sem usar óculos) no qual defendeu os principais valores do Bradesco. Ou seja, a posição de banco com atuação concentrada no país e que conta com carreira fechada, com os principais postos ocupados por profissionais formados na casa.

Foco nos 'millennials'

O grande desafio do Bradesco é incorporar essa fórmula de tradição às novas tecnologias e modelos de organização. O surgimento das novas empresas de tecnologia financeira (fintechs) despertou a preocupação sobre como os grandes bancos de varejo pretendem se modernizar.

Não por acaso, um dos painéis do encontro com os analistas foi inteiramente dedicado a iniciativas como o Next, o banco digital voltado para a geração “millennial” pilotado pelo Bradesco. Em agosto, a iniciativa havia atraído 250 mil clientes, dos quais 86% não eram correntistas do Bradesco. A expectativa é chegar a 500 mil usuários e acelerar o ritmo diário de abertura de contas de 3 mil para 4 mil no fim deste ano.

Apesar dos esforços no campo digital, o Bradesco enxerga uma das principais avenidas de crescimento dentro de casa. O banco conta hoje com 43 milhões de clientes com produtos como seguros ou cartões, mas que não são correntistas do banco. É sobre essa base que o Bradesco pretende avançar oferecendo outros produtos da prateleira.

Mesmo com o avanço das operações bancárias pelo celular, o Bradesco mantém a aposta no “tête-à-tête” como estratégia. “Estamos em 1.900 pontos onde concorrência não está”, disse o presidente do banco, Octavio de Lazari Junior, à plateia do evento, que aconteceu no Hotel Hilton, na zona sul de São Paulo.

Mais tarde aos jornalistas, Lazari falou que a alta do dólar no período pré-eleitoral não preocupa. Isso porque a maior parte das empresas não tem dívidas na moeda de Donald Trump. O presidente do Bradesco também considera que a cotação ao redor de R$ 4,14 não parece o patamar adequado para o dólar. Qual seria, então, o valor "correto"? Para Lazari, ao redor dos R$ 3,70.

Mudança de maré

Outra mensagem que o Bradesco procurou deixar aos investidores é que a economia brasileira vive de ciclos, mas que o banco é e será capaz de manter bons resultados. Para Luiz Carlos Trabuco Cappi, presidente do conselho de administração, a maré pessimista de hoje deve mudar após as eleições e pode até virar euforia.

Pode parecer um discurso para a torcida, mas as palavras são de quem conduziu a aquisição do HSBC Brasil. Mas o negócio de R$ 16 bilhões, é sempre bom lembrar, foi fechado em pleno ano de 2015, quando a presidente ainda era Dilma Rousseff.

A compra foi estratégica ao colocar o Bradesco em uma posição competitiva nas regiões Sul e Sudeste, onde ficava para trás da concorrência. Mas demorou a dar frutos em razão da crise econômica. A reação dos investidores ao balanço do banco no primeiro semestre deste ano é um sinal de que o mercado começou a vislumbrar esses ganhos, segundo Trabuco.

Está barato

As ações até que reagiram bem aos resultados mais recentes. Mas sofreram junto com o resto da bolsa com o pessimismo dos investidores sobre o resultado das eleições e com o desempenho dos países emergentes em geral.

Para a diretora de relações com investidores do Bradesco, Denise Pavarina, os múltiplos sobre os quais o banco é negociado hoje parecem baixos. A relação entre o preço da ação e o lucro, por exemplo, está em 9,2 vezes. Esse número está abaixo do que o banco apresentou nos anos anteriores e também se encontra longe da máximas históricas, que chegaram a quase 17 vezes em 2006.

Em resumo, uma aposta no Bradesco hoje claramente é uma aposta em Brasil, seja quem for o vencedor da corrida eleitoral no mês que vem. "Que eu, que dois, que dez, que dez milhões, todos iguais", diria Gil. O banco deve pagar o preço por essa relação tão umbilical. Mas também pode ser um dos grandes beneficiados caso a maré de fato vire. E, claro, se souber fazer a transição de seus negócios para o mundo digital.

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