Por que a Azul deveria comprar a Avianca
Caminhos das duas companhias aéreas já se cruzaram várias vezes desde 2015. União criaria nova líder do setor e conjuntura global favorece acordo para fortalecer a Star Alliance no Brasil
A união de Avianca e Azul é bola cantada no setor aéreo e faz tempo. O caminho das duas companhias aéreas se cruzou diversas vezes e faz mais sentido hoje para ambas - e para o jogo de xadrez global que vive o setor aéreo - unir as operações. Ao menos três executivos importantes do setor aéreo me disseram que as duas só não se juntaram porque seus fundadores - David Neeleman, da Azul, e os irmãos Germán e José Efromovich, da Avianca - não são exatamente "melhores amigos". Resta saber se os irmãos Efromovich darão o braço a torcer agora que a companhia aérea brasileira está em maus lençóis.
Em entrevista ao jornal "Valor Econômico" no fim de semana, o empresário David Neeleman admitiu que poderá avaliar uma oferta pela empresa. Na sequência, a Azul enviou um comunicado negando que exista alguma negociação em curso.
Disputa pela TAP
A primeira vez que os caminhos das empresas se cruzaram não foi nada amigável. O grupo dos Efromovich e de Neeleman foram rivais na disputa pela companhia aérea portuguesa TAP, que foi privatizada em 2015 depois de sucessivas tentativas ao longo de dez anos. Os donos da Avianca já tinham tentado comprar a TAP dois anos antes, mas, apesar de não terem concorrentes, sua proposta foi recusada pelo governo português por falta de comprovação da capacidade de pagamento. Na segunda tentativa, encontraram a concorrência de Neeleman e perderam o negócio para o dono da Azul.
Na prática, a aproximação da Azul com a TAP significava muito mais do que a compra de uma empresa estrangeira. Era a aproximação da Azul com a Star Alliance, uma aliança de empresas aéreas global, que estava sem parceiros no Brasil desde março de 2014. A vaga abriu quando a TAM deixou o grupo para fazer a fusão com a LAN e formar a Latam - e assim migrou para a aliança concorrente, a One World. Como a Avianca colombiana era membro da aliança, os irmãos Efromovich estavam no processo de negociação para a adesão da Avianca Brasil ao grupo no primeiro semestre de 2015.
As alianças das empresas aéreas representam a união de aéreas estrangeiras para se fortalecer no mundo. Não faz sentido para um grupo ter mais de um membro em cada mercado. Veja quais são as 3 maiores alianças de empresas aéreas e alguns dos seus principais membros:
- Star Alliance: TAP, United Airlines, Lufthansa e Avianca (colombiana e brasileira).
- One World: Latam, American Airlines, British Airways e Iberia.
- Sky Team: Delta, Air France-KLM. A Gol não é membro da aliança, mas tem parcerias com as empresas desse grupo, que são suas acionistas.
Investimento da United Airlines

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No meio da disputa pela TAP, a situação se tornou ainda mais contundente quando David Neeleman anunciou o investimento da United Airlines na Azul em junho de 2015. Na época, a Avianca já estava com o "casamento" marcado para entrar na Star Alliance no mês seguinte. Como a United é da Star, uma das principais perguntas na entrevista coletiva de Azul e United foi: "A Azul vai entrar na Star Alliance?". A resposta foi uma espécie de "veja bem...", quando os executivos não querem dizer nem sim ou não.
Em fevereiro do ano passado, a United Airlines admitiu em comunicado aos investidores que avaliava um investimento nas duas Aviancas - a do Brasil e a da Colômbia. Com a crise que se agravou na Avianca Brasil, Germán Efromovich chegou a afirmar na semana passada que a empresa receberia um aporte da United até o fim de janeiro, informação que não foi confirmada pela companhia americana.
Avianca com a corda no pescoço
A crise na Avianca Brasil chegou ao seu limite neste mês, quando a companhia se viu obrigada a pedir recuperação judicial para evitar que seus credores tomassem os aviões da empresa para saldar dívidas. A Avianca está sofrendo há anos no meio da crise brasileira. Ao contrário das suas concorrentes, que receberam aportes de capital de companhias aéreas estrangeiras para reforçar seu caixa, a Avianca sangrou sozinha. Faltou fôlego para aguentar os solavancos na cotação do dólar e do barril de petróleo neste ano, que corroeram os lucros das companhias aéreas. Veja o que fizeram as concorrentes no período:
- A Gol vendeu mais ações para a Delta
- A Latam vendeu uma fatia de 10% para a Qatar Airways
- A Azul vendeu parte da companhia para a chinesa HNA
A expectativa do mercado é que os Efromovich cedam agora e se vejam obrigados a flexibilizar os termos de uma eventual venda da Avianca - seja para a United, para a Azul ou quem quer que seja. Um grande executivo do setor aéreo me disse que é possível que a United atue como "mediadora" para viabilizar a fusão de Avianca e Azul, já que não seria do seu interesse manter duas empresas concorrentes no Brasil.
Motivos de sobra....
Preciso ressaltar que não há nada certo sobre a união das empresas. Mas faço aqui uma lista de motivos que mostram que a união de Azul e Avianca é um negócio que faz sentido do ponto de vista estratégico:
1 - Fortalecimento da Star Alliance
O fortalecimento da Star Alliance no Brasil é, sem dúvida, um grande ponto a favor da união de Azul e Avianca. As empresas estrangeiras da One World e Sky Team hoje são atendidas pela malha de Latam e Gol, respectivamente, que são maiores no mercado brasileiro. É do interesse delas ter uma parceira mais forte no país, como uma empresa que unisse a força de Azul e Avianca. Vale lembrar que, no conselho de administração da Azul, estão executivos da Tap e United Airlines.
2 - União cria líder do setor
A união de Azul e Avianca criaria uma nova líder para o setor aéreo brasileiro. Entre janeiro e outubro, a Gol ocupou a maior fatia do mercado de voos domésticos, de 33%, seguida de Latam, com 31%. Azul e Avianca têm, respectivamente, 23% e 12,6%. As duas juntas, portanto, teriam mais de 35% do mercado, superando Latam e Gol.
3 - Malha aérea complementar
Além disso, as duas empresas têm uma malha complementar. A Azul tem grande capilaridade e distribui seus passageiros pelo interior do Brasil, mas tem uma presença tímida (ou até quase inexistente) no aeroporto de Congonhas, o principal ponto de embarque e desembarque de passageiros de negócios no país. A Avianca tem presença relevante em Congonhas.
4 - Frota similar
Tanto a Azul quanto a Avianca traçaram planos de expansão de frota usando aviões da Airbus. Uma eventual união de operações poderia aproveitar as sinergias de frota.
Marca é maior barreira
Um dos maiores entraves para viabilizar esse negócio é a questão das marcas. Como está na posição compradora, a Azul tende a querer manter sua marca. Os Efromovich sempre tiveram planos de unir a Avianca da Colômbia com a brasileira (a antiga Ocean Air). A operação saiu mais difícil do que o esperado. Lá na Colômbia a Avianca é uma empresa listada em bolsa e eles têm de lidar com investidores minoritários, que sempre foram uma pedra no sapato dos irmãos Efromovich. Abandonar a marca seria uma grande derrota para o plano dos irmãos para a empresa.
O que ainda está no ar é se a saída para a Avianca Brasil envolverá, de alguma forma, a empresa colombiana. Até onde vai a ambição - e o fôlego financeiro de David Neeleman? Estou aguardando ansiosa as cenas dos próximos capítulos.
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