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Há 25 anos, Copom elevava a taxa Selic a 45% ao ano; lembre o que levou os antecessores de Campos Neto e subirem tanto os juros
Roberto Campos Neto talvez ainda nem sonhasse em presidir o Banco Central (BC) quando o Comitê de Política Monetária (Copom) elevou a Taxa Selic a 45% ao ano.
Aconteceu em março de 1999, quando o Copom — na época sob o comando de Arminio Fraga — subiu os juros de 39% para 45% ao ano.
Vinte e cinco anos depois, a lembrança vem à tona com a notícia de que a Turquia vive um drama semelhante.
Na tentativa de domar a inflação galopante, o BC do país elevou sua taxa básica de juros de 42,5% a 45% ao ano.
No que depender do BC da Turquia, os juros no país não vão subir mais.
No comunicado que acompanhou a decisão, a autoridade monetária sinalizou o fim do aperto monetário, apesar da inflação fora de controle.
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O índice de preços ao consumidor da Turquia acelerou de 62% em novembro para 64,8% em dezembro no acumulado em 12 meses.
Embora a elevação dos juros fosse esperada, a ação da autoridade monetária levou a lira turca a sua mínima histórica hoje.
Pela primeira vez, a moeda da Turquia ultrapassou a marca de 30 por dólar.
A situação parece inimaginável hoje, mas o Brasil já conviveu com juros oficiais nos níveis praticados atualmente pelo Banco Central da Turquia.
O Brasil de 1999 e a Turquia de 2024 são conectados por ações erráticas na condução da política econômica e um cenário externo adverso.
Para contar como a Taxa Selic atingiu 45% ao ano no Brasil, é necessário voltar aos anos 1980, quando o Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) promoveu um duro aperto monetário.
A alta dos juros nos Estados Unidos desencadeou uma crise da dívida, em especial entre países da América Latina.
Isso porque a maior parte desses países mantinha um largo estoque de dívida externa vinculada ao dólar.
O calote do México, em 1982, desencadeou um efeito dominó no continente americano. E, em meio a moratórias e cartas de intenções, o Brasil acabou resgatado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).
As condições impostas pelos credores eram draconianas. Nos anos seguintes, a moeda brasileira trocou de nome como quem troca de roupa.
Cruzeiro, Cruzeiro Novo, Cruzado, Cruzado Novo, Cruzeiro de novo, Cruzeiro Real…
Seis nomes para uma mesma moeda e muitos zeros cortados em um intervalo inferior a uma década.
E se a taxa de inflação de mais de 60% em 12 meses da Turquia é chamada de galopante, imagine uma alta de preços de 82,39% como a registrada pelo IBGE na passagem de fevereiro para março de 1990.
Em 1989, o ano, os preços subiram 1.972,91% em 12 meses no Brasil. E as taxas interanuais mostrariam números ainda maiores nos anos seguintes.
Em março de 1990, Fernando Collor de Mello confiscou a poupança dos brasileiros.
Se as redes sociais existissem na época, a indignação de Lillian Witte Fibe ao entender ao vivo que se tratava de um confisco provavelmente teria virado meme.
A inflação então saiu do espaço sideral para se alojar na estratosfera. Em seu ponto mais baixo naquele início de anos 1990, o IPCA marcou 369,96% no acumulado em 12 meses até julho de 1991. Nunca menos que isso.
Collor então sofreu o impeachment em 1992 (não por causa do confisco). Seu vice, Itamar Franco, assumiu o governo e nomeou uma nova equipe econômica, transferindo o então chanceler Fernando Henrique Cardoso para o cargo de ministro da Fazenda.
Itamar deu carta branca para que FHC promovesse uma reforma capaz de estabilizar a economia — e controlar a inflação, que fechou 1993 à taxa anualizada de 2.693,84%.
De uma equipe composta por economistas liberais como André Lara Resende, Pérsio Arida, Edmar Bacha, Gustavo Franco e Pedro Malan emergiu o Plano Real.
O Cruzeiro Real primeiro virou URV (unidade real de valor), uma moeda provisoriamente atrelada ao dólar, para depois virar, em julho de 1994, o Real como o conhecemos hoje.
No primeiro ano de vigência do Real, a inflação oficial em 12 meses desabou de 4.005,08% em julho de 1994 para 27,45% em julho de 1995.
E isso enquanto a crise da dívida na América Latina drenava as reservas internacionais dos países da região.
Em meio à implementação do Plano Real, lá estava o México mais uma vez, “tão longe de Deus, tão perto dos Estados Unidos”, desencadeando o “efeito Tequila”.
Em grande medida, o Plano Real blindou o Brasil dos piores efeitos daquela crise e FHC elegeu-se presidente em 1994.
A inegável vitória na luta contra o dragão da inflação renderia a Fernando Henrique a reeleição em 1998.
Mas, embora a inflação acumulada em 1998 tenha fechado em 1,65% no Brasil, o cenário seguia adverso.
Em 1997, ocorreu a crise da Ásia, desencadeada por um ataque especulativo ao baht tailandês. Em 1998 ocorreu a crise cambial russa. Em 1999, a bola da vez foi o Brasil.
O programa econômico baseava-se em um regime de âncoras fiscal, cambial e monetária.
Para manter a inflação sob controle e alguma sensação de bem-estar interno apesar de uma elevada taxa de desemprego, o governo mantinha o Real artificialmente sobrevalorizado e a taxa básica de juros chegou a ser qualificada como “escorchante” pelo próprio FHC.
No fim de 1998, logo depois de reeleger-se e em meio a um debate sobre o fim do regime de bandas cambiais, Fernando Henrique admitiu que o Brasil estava quebrado.
Fez então o primeiro dos três pedidos de socorro que faria ao FMI até o fim de seu período como presidente, em 2002.
Contrário à flutuação do câmbio naquele momento, Gustavo Franco deixou a presidência do BC e foi substituído por Arminio Fraga após uma passagem relâmpago e estabanada de Francisco Lopes no comando da autoridade monetária.
No lugar da âncora cambial, o governo instituiu o regime de metas de inflação, que vigora até hoje no país. Logo na primeira reunião presidida por Fraga, em março de 1999, o Copom lançou os juros a 45% ao ano.
Foram apenas 19 dias naquele nível. Ainda em março de 1999, o BC iniciou um rápido ciclo de alívio monetário por meio do qual a Selic chegaria ao fim de julho daquele ano em 19,50%.
Com a liberação do câmbio, o dólar disparou nos meses seguintes antes de se estabilizar, mas a inflação, apesar de saltos esporádicos, nunca mais visitou a estratosfera.
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