Chefs on Fire reúne a nova diáspora brasileira à volta das brasas de Cascais
Festival dedicado à cozinha no fogo ocupa pelo segundo ano o Parque Marechal Carmona, nos dias 19 e 20 de setembro, com uma expressiva seleção de brasileiros que antecipam chegada do evento a São Paulo em 2027

Cozinhar com fogo pode parecer um retorno ao princípio de tudo. No Chefs on Fire, porém, a técnica funciona como uma lente para observar o presente. Ao redor das brasas, encontram-se cozinhas autorais, trajetórias de imigração, novos modelos de festival e uma geração de chefs que já não cabe confortavelmente dentro de uma única identidade nacional.
Nos dias 19 e 20 de setembro, o evento volta ao Parque Marechal Carmona, em Cascais, para sua oitava edição. O festival havia passado os primeiros anos na FIARTIL, no Estoril, e mudou-se em 2025 para esse parque entre o centro histórico, a marina e o mar.
O endereço não foi escolhido apenas por sua beleza. Com capacidade para até 5 mil pessoas por dia, ele permitiu ampliar a operação sem abandonar o caráter de encontro ao ar livre que acompanha o projeto desde sua criação, em 2018. De acordo com a organização e a Câmara Municipal de Cascais, sete edições foram realizadas entre 2018 e 2025, o que faz da programação de 2026 a oitava, e não a nona.
A escala aumentou. Serão mais de 40 chefs, incluindo participações especiais, reunindo em seus currículos 24 Sóis do Guia Repsol e 13 estrelas Michelin. A cozinha acontece diante do público, em sete estruturas de fogo, com lenha, grelhas, fumaça e tempo. Não há a distância habitual entre o cozinheiro e o cliente, nem a solenidade de uma sala de alta gastronomia. O visitante vê a brasa mudar de temperatura, sente a fumaça antes de receber o prato e entende, sem necessidade de uma aula teórica, por que cozinhar no fogo exige precisão.

Fogo sem fronteira
A edição será a mais internacional do festival até agora. Há convidados da França, Argentina, Suécia e Espanha, além de uma presença brasileira especialmente relevante. São seis profissionais nascidos no Brasil e estabelecidos em diferentes regiões de Portugal: Lizandra Almeida, Fagner Buzinhani, Angélica Salvador, Nelson Soares, Michele Marques e Nathalie Inês.
Eles não formam um bloco homogêneo. Há cozinha italiana, japonesa, alentejana, portuguesa contemporânea, confeitaria e, naturalmente, muitas maneiras de interpretar a brasa. Mas o ponto em comum é mais interessante: todos construíram em Portugal uma linguagem na qual a origem brasileira aparece sem ser tratada como fantasia tropical.
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No sábado, 19, Lizandra Almeida, uma das Rising Stars desta edição, prepara cupim com abóbora na brasa, salada verde e mostarda. Nascida em Sergipe e com parte da carreira desenvolvida em São Paulo, Liz chegou a Portugal há cerca de três anos. Hoje comanda a cozinha do Pils, na Rua do Conde de Redondo, em Lisboa.
No restaurante, carnes, peixes e vegetais passam pela grelha, enquanto fermentações, conservas e defumações dão mais precisão ao repertório do fogo. É um endereço descontraído, com jardim interior e uma seleção de cervejas que leva a proposta além da churrascaria convencional.
As identidades da diáspora
Os outros brasileiros cozinham no domingo, 20, Nelson Soares apresentará um casarecce com salsicha, brócolis e pangrattato. Autodidata, o chef construiu sua reputação no Sult do Rio de Janeiro, restaurante de cozinha italiana com referências regionais brasileiras, antes de abrir uma unidade em Cascais, em 2024. Na versão portuguesa, produtos e receitas de diferentes regiões do país entraram na equação. O resultado não é exatamente italiano, brasileiro ou português, mas uma identidade construída por camadas.
O Sult fica no centro de Cascais, o que permite combinar a passagem pelo festival com uma visita posterior ao restaurante. Nelson ainda participa da operação do B-Life Kitchen, na Marina de Cascais, projeto ligado à alimentação saudável e à longevidade. No Chefs on Fire, entretanto, sua escolha pelo macarrão, pela linguiça e pelo pão crocante parece apontar para outro tipo de bem-estar, aquele que começa com a comida reconfortante.
Michele Marques, por outro lado, leva ao fogo corações de galinha. A chef carioca vive em Portugal desde 2005 e escolheu Estremoz, no Alentejo, para construir sua carreira. Começou vendendo queijos em feiras e, em 2009, abriu a Mercearia Gadanha, inicialmente uma loja de produtos regionais que evoluiu para restaurante. Mais tarde, ao lado do chef Ruben Trindade Santos, criou também a Casa do Gadanha, que combina hospedagem e uma proposta gastronômica mais autoral.
A trajetória de Michele ajuda inclusive a explicar uma transformação importante na hospitalidade portuguesa. Profissionais estrangeiros não estão apenas abrindo restaurantes “de suas terras”. Eles se instalam fora dos grandes centros, estabelecem relações com produtores, recuperam imóveis e ajudam a criar novos motivos para viajar. Em Estremoz, a chef tornou o produto alentejano o centro de sua cozinha sem apagar as memórias do Brasil.
Portugal pela lente brasileira
Angélica Salvador representa outro capítulo dessa história. À frente do In Diferente, na Foz do Douro, no Porto, ela conquistou em 2026 a primeira estrela Michelin do restaurante. Brasileira radicada em Portugal há mais de duas décadas, trabalha sobretudo com pescados, carnes e produtos sazonais portugueses, lidos através de suas viagens e memórias. No festival, servirá costela em fogo de chão com polenta de milho e vinagrete de abacaxi, uma composição em que a referência brasileira surge com clareza, mas sem caricatura.
A conexão com Lisboa aparece de forma mais direta em Fagner Buzinhani, chef do GoJuu, restaurante japonês localizado próximo à Praça de Espanha. A casa preserva o legado do mestre japonês Takashi Yoshitake e mantém uma abordagem rigorosa da tradição. Para Cascais, Fagner criou um iwashi yaki sando, sanduíche japonês de sardinha grelhada. A escolha aproxima uma técnica japonesa de um peixe profundamente ligado à mesa portuguesa.
Nathalie Inês, responsável pela pastelaria do SÁLA de João Sá, na Rua dos Bacalhoeiros, em Lisboa, fecha o percurso brasileiro com uma alheira doce. O nome sugere uma brincadeira entre uma das formas mais reconhecíveis da charcutaria portuguesa e o repertório da confeitaria. É também um bom resumo do que torna esta escalação interessante: profissionais estrangeiros não aparecem à margem da gastronomia local, mas dentro de algumas de suas cozinhas mais criativas.
Os outros chefs on fire
O programa ainda inclui nomes como Louise Bourrat, do Mammarua, Matias Natuche, do Barbela, Petter Nyström, do Familjen, e Mario Clemente, do Alberca. A Madeira será a região portuguesa convidada, representada por Octávio Freitas, do Desarma, e Filipe Janeiro, do Gazebo. Nas áreas paralelas haverá conversas, oficinas de cozinha no fogo, fotografia gastronômica e demonstrações de cerâmica, marcenaria e ferraria.
A música continua sendo parte central da experiência. No sábado, apresentam-se Silk Nobre, AGIR com Paulo de Carvalho e Bateu Matou. No domingo, Carolina Deslandes participa do formato Mesa, uma jam session com convidados, e o DJ Xinobi encerra o festival.
Para quem estiver em Cascais, aliás, vale reservar boa parte do dia: este não é um evento para uma passagem apressada entre dois compromissos. O ingresso individual inclui cinco pratos e duas bebidas, o que pede alguma estratégia diante de tantas cozinhas. Entre os brasileiros, por exemplo, Lizandra participa apenas no sábado, enquanto Nelson, Michele, Angélica, Fagner e Nathalie cozinham no domingo.
A próxima expansão deverá aproximar ainda mais os dois lados do Atlântico. De acordo com informação antecipada à reportagem, o Chefs on Fire desembarcará em São Paulo em abril de 2027. Datas, local, chefs e venda de ingressos, porém, ainda não foram divulgados nos canais oficiais. Até lá, brasileiros que estiverem em Portugal têm em Cascais uma boa prévia de como o festival traduz alta cozinha para um ambiente mais informal. Quem estiver no Brasil deve acompanhar os anúncios no site do Chefs on Fire e nas redes oficiais.

Chefs on Fire Cascais 2026
Data: 19 e 20 de setembro de 2026
Horário: das 12h à meia-noite
Local: Parque Marechal Carmona
Endereço: Praceta Domingos D’Avilez e Avenida da República, 2750-642, Cascais
Ingressos: € 50 para acesso ao recinto e aos concertos, sem consumação; € 85 com cinco pratos e duas bebidas; passe para os dois dias por € 200, com 15 pratos e dez bebidas. Há também modalidades infantil, familiar e para grupos. Valores consultados em 9 de setembro de 2026.
Compra e programação: chefsonfire.com
Reservas: recomendadas com antecedência, pois a capacidade é limitada a 5 mil visitantes por dia.
Como chegar: o parque fica a cerca de dez minutos a pé da estação ferroviária de Cascais, com ligação direta a Lisboa pela Linha de Cascais.
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