Turismo e colecionismo: como transformar uma viagem em oportunidade para descobrir e comprar arte
Viajar para fora do circuito óbvio, planejar o orçamento e deixar espaço na mala podem fazer da próxima viagem uma experiência ainda mais interessante para quem coleciona arte

Dois vícios que combinam muito bem: turismo e colecionismo. E nem adianta negar, porque, sempre que alguém viaja, acaba comprando alguma coisa. Faz parte da experiência aquela lembrancinha, o objeto que remete à viagem, o ímã de geladeira, a arte local. Tudo isso entra no pacote de experiências que uma viagem proporciona, e que começa muito antes de embarcar no avião.
Fora a lista de pedidos, presentes e encomendas que toda viagem atrai. E esse é talvez o mais interessante de uma viagem com cunho cultural. Ninguém vai para o Paraguai pelos museus, por exemplo, por que esse é o tipo de destino que já vem com pedidos. Já outros lugares não têm esse estigma do consumo e são, geralmente, onde é possível encontrar as obras de arte mais acessíveis para comprar.
Isso não quer dizer que o Paraguai ou outros destinos não tenham arte; muito pelo contrário. Mas lugares mais conhecidos por sua produção artística não costumam atrair listas e listas de encomendas de parentes e amigos. Por isso, quando um colecionador viaja, é sempre bom planejar um espaço extra na bagagem para a arte e, de preferência, para a própria coleção.
Talvez essa seja, inclusive, uma das oportunidades mais transformadoras de colecionar: tirar a gente da zona de conforto. Ver coisas novas, artistas novos, formas diferentes de fazer, entender e apresentar arte. Além de treinar o nosso olhar, essas experiências também afiam o nosso bom gosto. Deixam nossa coleção mais diversa, interessante e com mais histórias para contar.
E, se no Brasil cruzar de estado já faz isso, imagina cruzar uma fronteira?

O desinibido faz uma viagem e uma coleção mais interessante
Eu, sempre que viajo, cultivo um sentimento de possibilidade que só o anonimato te dá. Ninguém sabe quem você é, você não conhece ninguém, tudo é novo. E a ideia de imersão em uma nova cultura parte um pouco daí, de ver o novo e, a partir dessa experiência, rever o conhecido.
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Eu mesmo nunca me senti tão brasileiro quanto na época em que morei fora. Tem algo de perspectiva cultural que a gente ganha quando vive o dia a dia de outra pessoa. E, ainda que a maioria de quem coleciona arte também colecione viagens, o circuito tende a se concentrar em lugares bastante previsíveis.
Londres, Paris, Nova York e outras grandes capitais, cheias de museus, recheadas de galerias e abarrotadas de artistas. E, sim, são grandes destinos para os amantes da arte. Mas vão te mostrar, mais ou menos, a mesma cena cultural da arte contemporânea. Faz parte do roteiro, eu sei; mas não precisa ser todo o roteiro.
Em lugares onde o mercado de arte está bem estabelecido, toda a cena artística já se movimenta em torno dele. E, ainda que isso facilite o acesso a artistas e exposições, também dificulta ver algo realmente novo. Além disso, você acaba encontrando as mesmas pessoas, os mesmos conhecidos, e perde um pouco aquela proposta inicial de ser anônimo e voltar desconhecido.
Até porque, nesses lugares bastante batidos, é mais difícil se perder: ir parar em um bairro que não conhece, ver uma galeria de que nunca ouviu falar ou descobrir por si só o que é bom. Grandes destinos da arte já têm isso muito estabelecido e divulgado. Com isso, a gente acaba condicionado a não perder tempo se aventurando com o possível, mas a apostar no garantido.
E, se tem algo que eu aprendi viajando e acompanhando colecionadores nesses momentos, é que o desinibido geralmente faz compras mais interessantes.
O precavido morreu de velho
Para os menos aventureiros, o segredo é planejar. E, ainda que eu escolha sempre destinos insólitos para viajar e colecionar, sou um obcecado por planejamento. Parte do prazer da viagem está em planejar: ver a rota, pesquisar lugares, mapear, literalmente, galerias e museus, além de conferir a programação.
Viajar comigo é uma programação intensa de manhã, tarde e noite. Justamente porque gosto de fazer as coisas com tempo, calma e me dedicar a ver tudo com o detalhe necessário. Para quem vai pensando na possibilidade de colecionar, recomendo o mesmo. Ou, pelo menos, se informar antes sobre galerias, coletivos e espaços culturais e selecionar aquilo que faz sentido ver.
O maior inimigo de toda viagem é o tempo. Nunca é suficiente. Então, já saber o que ver em cada lugar ajuda a economizar esse recurso. E, como todas as galerias têm Instagram, site e presença digital, entrar em contato por e-mail com antecedência, se informar sobre os artistas representados, ver as exposições em cartaz e receber os catálogos em PDF pode até tirar um pouco da magia da surpresa, mas ajuda na magia do planejamento.
Tentar ver tudo acaba atrapalhando viver tudo. Uma viagem que vira gincana perde muito da espontaneidade. Se o tempo de deslocamento, a falta de reservas de entrada e os espaços fechados já atrapalham o tempo de qualidade e a tranquilidade de ver arte, imagina o de comprar arte?
Você tem dinheiro?
Outra coisa em que se pensa pouco é orçamento. E não digo o da viagem, porque esse sempre existe. Para quem compra arte, porém, o cálculo precisa ser mais frio e calculista. E mais realista também, até por uma questão de câmbio e moeda.
Primeiro, grandes somas de dinheiro precisam ser declaradas. Depois, o trabalho que a gente faz aqui de entender a trajetória e o valor de mercado de cada artista vai precisar ser feito fora, dublado em outra moeda e, muitas vezes, em outro idioma. E essa é uma parte interessante da educação em arte e mercado do colecionador: ver como cada cultura valoriza, precifica e entende o que é essencial para cada tipo de arte é bastante revelador.
Outro ponto é que muitos colecionadores estabelecem um orçamento para arte, seja por obra, por ano ou por viagem. A partir daí, buscam aquilo que brilha os olhos e cabe no bolso dentro desses parâmetros. Cada um vai estabelecer esse valor de acordo com a própria realidade e, então, orientar o roteiro da viagem, passando pelas galerias, feiras e coletivos que estejam de acordo com esse planejamento.
A organização, além de acalmar a ansiedade, ajuda a evitar um hábito recorrente que estraga muita viagem…
Quem converte, não se diverte!
Não tem nada pior do que alguém que anda com uma calculadora, dizendo o que vale a pena ou não em uma viagem! E não estou dizendo que fazer contas não seja fundamental para evitar jogar dinheiro fora. Mas fazer isso o tempo todo é sinal de falta de planejamento.
Na hora de comprar arte, nem sempre funciona, porque teríamos que estar comparando o mesmo artista em mercados parecidos para fazer uma correlação. E isso não existe. Um artista com uma trajetória e uma representação forte aqui, mas relativamente desconhecido em um mercado estrangeiro, vai ter valores diferentes. Afinal, o mercado não valoriza a obra objetivamente, mas o artista subjetivamente.
Currículo, trajetória, coleções a que pertence: tudo isso valoriza um artista. E, quanto mais locais forem essas referências, mais o valor tende a se localizar. É a partir da internacionalização do artista que o valor dele passa a ser passível de comparação internacional.
Mas o que dá para fazer, sim, é pensar em valores mais abstratos para artistas iniciantes, de média carreira ou renomados e partir dessa abstração para entender o que você, de fato, está comprando e se aquilo faz sentido na sua coleção.
Eu já sou a favor de ter orçamento e não converter. Se planejo com antecedência o meu limite de gasto, na hora da viagem e da compra tenho menos com que me preocupar.
E, como acredito em comprar arte que encanta, em gastar dinheiro com o que apaixona, pensar demais ou fazer conta demais pode ser uma causa de arrependimentos futuros.
Depois de viajar, agora tem que voltar
A pior parte da viagem? Voltar! E, para quem comprou arte, agora é preciso se preocupar em declarar e transportar. O que talvez seja ainda menos divertido.
Muitas galerias, espaços ou artistas enviam as obras por transportadora, dependendo do formato, material ou característica do trabalho. Isso poupa bastante tempo e transtorno do viajante. Para os que não oferecem essa facilidade, ou para os colecionadores que já querem levar a obra consigo, resta comprar bagagem extra ou consultar como cada companhia aérea permite transportar cargas frágeis e valiosas.
Todo mundo vai embalar as obras da melhor forma possível para garantir a integridade delas durante a viagem. Mesmo assim, todo cuidado é pouco, principalmente se for preciso despachar. Hoje, estão disponíveis na internet vários tipos de embalagem que podem ser inflados, fechados a vácuo e outras formas de proteção que dá para levar sem ocupar muito espaço e que garantem essa proteção extra.
Muitos países também não cobram impostos de estrangeiros, e conseguir as notas fiscais ajuda na hora de declarar algumas compras, caso seja necessário. Para quem decide se arriscar, é sempre uma questão de sorte. Obviamente, obras pequenas e fáceis de carregar são mais simples de transportar. Agora, grandes formatos, materiais diferentes e técnicas mais elaboradas vão exigir documentação específica.
E eu, que amo me aventurar e sou um colecionador bem espontâneo, sou o maior entusiasta de sair por aí, me divertir e colecionar nesse processo. Mas vale sempre lembrar que, depois de comprar, é preciso transportar.
E vale ainda mais ressaltar que muito do valor da arte que se compra está justamente na história que se conta.
BTG Pactual
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