Guerra já pesa no bolso da população: inflação de março vem acima do esperado e economistas já cogitam estouro da meta no ano
Alta de 0,88% no mês veio na esteira do aumento nos preços de combustíveis e alimentos; revisões para o ano já preveem IPCA próximo de 5%

O impacto da guerra nos preços de produtos era esperado, e se confirmou rapidamente. No mesmo mês em que o conflito começou no Oriente Médio, o índice oficial de preços do Brasil (IPCA) registrou o choque no bolso na população.
A alta no IPCA de março foi de 0,88%, frente uma expectativa de 0,75% do mercado financeiro. Com isso, a inflação em 12 meses subiu para 4,14%, bastante acima dos 3,81% observados nos 12 meses até fevereiro.
De acordo com o IBGE, os nove grupos de produtos e serviços do IPCA tiveram altas de preços em março.
Embora fosse esperado algum impacto da guerra, economistas consideraram que a surpresa altista aumenta a pressão nas expectativas de inflação futura.
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Até então, os preços de serviços eram a maior preocupação, pois era o núcleo que estava demorando para arrefecer (chegou a 5,3% em março). Agora, transportes e alimentos se tornam outro ponto de alerta.
“Este resultado, acima do esperado, somado ao conflito no Oriente Médio e à possibilidade de um clima mais adverso no segundo semestre com a ocorrência do El Niño, reforça o viés de alta para nossa projeção de inflação”, afirma o relatório do banco Daycoval.
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Claudia Moreno, economista do C6 Bank, acredita que as medidas anunciadas pelo governo, que incluem subsídios e redução de impostos para combustíveis, devem limitar os efeitos da alta do petróleo sobre a inflação nos próximos meses. Ainda assim, outros impactos sobre os combustíveis e os alimentos ainda podem surgir mais à frente.
“O mercado de trabalho aquecido e a perspectiva de desvalorização do real devem fazer com que os preços voltem a acelerar no segundo semestre”, afirma Moreno.
Os vilões do IPCA
Os grupos que puxaram o aumento da inflação foram os mais impactados pelo choque do petróleo: transportes e alimentos e bebidas (pelo repasse de aumento do frete).
A alta mais relevante foi a da gasolina (4,59%), que também teve o maior impacto (0,23 pontos percentuais) na inflação do mês.
Na esteira do aumento dos combustíveis também teve a alta nos preços de passagens aéreas (6,08%) e do diesel (13,90%). Embora a inflação tenha sido maior nesses componentes, seus pesos no índice geral são menores, o que limitou um pouco um avanço maior do IPCA.
Já em Alimentação e bebidas, os preços do leite longa vida (11,74%) e do tomate (20,31%) foram os que mais esticaram.
Juntos, esses cinco subitens foram responsáveis por 0,43 pontos percentuais do IPCA de 0,88% de março.
De acordo com o IBGE, a aceleração no nível de preços no grupo de alimentação foi a mais evidente, com a alta de 1,94% no mês — o maior avanço desde abril de 2022 (2,59%).
“Foi uma combinação dos efeitos de redução de oferta de alguns produtos com altas do frete, em decorrência dos combustíveis mais caros”, avaliou Fernando Gonçalves, gerente do IPCA no IBGE.
O que acontece agora com a inflação?
Os economistas revisaram para cima suas projeções para inflação no ano.
Antes da guerra, as projeções giravam em torno de 3,5% a 4%, o mais conservador. Agora, a maior parte das estimativas subiu em pelo menos um ponto percentual.
O Daycoval espera que o IPCA encerre o ano em 4,8%. A mesma estimativa da XP. Se confirmado, a inflação fecharia o ano acima do teto da meta, de 4,5%, depois de se enquadrar no fechamento de 2025.
“Em nossa avaliação, o choque de oferta terá efeitos persistentes, sobretudo nos preços de combustíveis, bens industrializados e passagens aéreas. A mudança teria sido ainda mais relevante não fosse a premissa de taxa de câmbio média um pouco mais apreciada em comparação ao cenário anterior”, escreveu Alexandre Maluf, analista de macroeconomia da XP.
Segundo Maluf, os preços de fretes têm sido reajustados de forma relevante, afetando rapidamente os preços de hortifrutis e granjeiros. A avaliação é que esse impacto deve se disseminar para os demais alimentos ao longo do ano.
Há ainda a questão dos fertilizantes, que podem apresentar restrição na oferta global nos próximos meses.
“No curto prazo, não vemos esse fator como grande risco para o cenário inflacionário de 2026, uma vez que as compras de fertilizantes no Brasil se concentram no segundo semestre”, diz o relatório. Porém, “grande parte do impacto ocorreria nas safras de 2027.”
E os juros?
A boa notícia é que a maior parte dos economistas esperam que o Banco Central continue cortando os juros. O Comitê de Política Monetária (Copom) sinalizou que a Selic deve continuar caindo, mas o ritmo dependerá da evolução do conflito no Oriente Médio.
“Na nossa leitura, as restrições na produção de petróleo e de outros insumos já começam a pressionar a inflação. Por isso, esperamos um corte moderado na próxima reunião, de 0,25 ponto percentual, levando os juros para 14,5%. No nosso cenário, a Selic deve encerrar o ano em 13,5%”, avalia Moreno, do C6.
A XP tem uma avaliação parecida, e Caio Megale, economista-chefe do banco, considera o recuo nos preços do petróleo como uma pré-condição essencial para a aceleração no ritmo de cortes.
Neste momento, a projeção é de um corte de 0,25 p.p. em abril, seguido de dois cortes de 0,50 p.p. em junho e agosto. Com isso, a Selic chega a 13,5% no ano — uma projeção bastante acima dos 12,75% de antes da guerra.
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