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A CONTA DA GOVERNABILIDADE

A euforia com Flávio Bolsonaro pode virar frustração? Por que uma vitória sobre Lula não é cheque em branco para reformas

Em painel no Incorpora Abrainc 2026, Gustavo Franco, Antonio Lavareda e Fábio Zambelli debateram por que uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro e uma maioria favorável no Congresso não garantem a aprovação do ajuste fiscal esperado pelo mercado

Flávio Bolsonaro durante entrevista
Flávio Bolsonaro durante entrevista - Imagem: Lula Marques/Agência Brasil

Não é de hoje que o mercado se anima com a possibilidade de alternância de poder no Brasil. Depois que Flávio Bolsonaro (PL) abriu vantagem sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no primeiro turno das eleições, o Ibovespa chegou a saltar quase 8% na última segunda-feira (6), embalado pela expectativa de que uma vitória do senador abra caminho para reformas consideradas essenciais pelos investidores, sobretudo um ajuste fiscal.

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Mas, entre a euforia dos investidores e a aprovação dessas mudanças, existe um caminho que passa pelo Congresso Nacional — e que pode ser mais complicado do que a composição das duas Casas sugere. Essa é a visão de Fábio Zambelli, diretor da Athos Public Affairs (Grupo InPress). Ele participou do Incorpora Abrainc 2026, na quarta-feira (7).

Para Zambelli, embora um eventual governo Flávio Bolsonaro possa começar com uma das maiores bases parlamentares das últimas décadas, essa maioria não é homogênea e reúne partidos e congressistas com interesses e prioridades diferentes.

“É fundamental entender quem senta na presidência da Câmara e do Senado, pois muitos senadores de direita foram eleitos com o mandato de fazer impeachment de ministro do Supremo. Administrar esse apetite de confronto e, ao mesmo tempo, implementar uma agenda reformista robusta é um grande desafio de coordenação política”, afirmou Zambelli durante um painel que também reuniu Antonio Lavareda, presidente de honra da Abrapel, e Gustavo Franco, economista e ex-presidente do Banco Central.

Na avaliação dos painelistas, a composição do Congresso abre espaço para reformas estruturais, mas a capacidade de articulação política será determinante para tirá-las do papel.

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Para Zambelli, o desafio vai além de conciliar os interesses da base aliada. Um ajuste fiscal efetivo também exigirá impor limites às emendas parlamentares — recursos do orçamento cuja destinação é indicada por deputados e senadores. Isso significa que, para colocar as contas públicas em ordem, Flávio Bolsonaro poderá ter de contrariar os congressistas dos quais dependerá para aprovar suas reformas.

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Vitória nas urnas não é cheque em branco

Para Antonio Lavareda, Flávio Bolsonaro não poderia interpretar uma vitória no segundo turno como uma chancela da opinião pública ao ajuste fiscal. Na avaliação do cientista político, o resultado das urnas reflete mais o desgaste do governo Lula do que uma adesão dos eleitores às reformas econômicas esperadas pelo mercado.

"Não há um mandato para grandes mudanças por parte da opinião pública", afirmou Lavareda.

A distinção é importante porque medidas de ajuste fiscal podem exigir decisões impopulares, com impacto sobre despesas públicas e interesses de diferentes grupos sociais.

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Assim, mesmo que um eventual governo Flávio consiga reunir votos suficientes no Congresso, isso não significa que terá apoio popular para todas as mudanças esperadas pelos investidores.

Há ainda outra questão, segundo Lavareda: até que ponto a família Bolsonaro estaria disposta a bancar medidas impopulares que poderiam comprometer suas perspectivas eleitorais futuras?

Embora Flávio Bolsonaro tenha sinalizado que não pretende disputar a reeleição e que estaria disposto a promover mudanças estruturais, a manutenção da influência política da família pode entrar em conflito com reformas que exigem sacrifícios no curto prazo.

O dilema é que medidas consideradas necessárias pelo mercado nem sempre produzem resultados políticos imediatos. Cortes de despesas e mudanças em benefícios, por exemplo, podem provocar resistência da população e reduzir a popularidade do governo.

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PEC da Transição pode ser a resposta

Se Lavareda e Zambelli recomendam cautela na interpretação do resultado eleitoral, Franco tem uma leitura mais otimista sobre a possibilidade de um eventual governo Flávio conseguir tirar as reformas econômicas do papel.

Para o ex-presidente do BC, o resultado das urnas e a reação dos mercados são dois acontecimentos que precisam ser analisados em conjunto. Segundo ele, a valorização dos ativos brasileiros não reflete apenas o entusiasmo dos investidores da Faria Lima, mas uma percepção mais ampla dos agentes econômicos sobre uma melhora na condução da política econômica no Brasil.

Franco também considera que a articulação com o Congresso pode começar antes mesmo da posse, aproveitando o período de transição para negociar com os parlamentares as mudanças necessárias à política econômica.

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O economista lembra que algo semelhante ocorreu após a eleição de Lula, em 2022, quando o governo eleito conseguiu aprovar a chamada PEC da Transição, que abriu espaço no orçamento para novas despesas antes mesmo do início do mandato.

A comparação serve para mostrar que não é preciso esperar a posse para construir acordos políticos e aprovar mudanças constitucionais. Na avaliação de Franco, um eventual governo Flávio Bolsonaro poderia aproveitar esse mesmo período para começar a negociar a agenda fiscal, reunindo o apoio do Congresso em funcionamento e das forças políticas que assumirão as cadeiras na próxima legislatura.

A diferença é que, enquanto a PEC de 2022 buscava ampliar os gastos, uma eventual negociação agora poderia ter como objetivo criar condições para um ajuste nas contas públicas.

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