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DISPUTA POLÍTICA

Split payment opõe Flávio Bolsonaro e governo Lula em debate sobre o caixa das empresas

Split payment pode reduzir o capital de giro das empresas e elevar a busca por crédito, em meio ao debate sobre a reforma tributária

Notas e moedas de reais brasileiros sobre uma mesa de madeira. Uma calculadora na composição. Economia e finanças brasileiras. - Imagem: Rmcarvalho/iStock

A reforma tributária promete mudar mais do que a maneira como as empresas pagam impostos. A mudança também pode afetar o dinheiro disponível para manter as operações, especialmente com a chegada do split payment, mecanismo que prevê o recolhimento automático dos tributos no momento em que uma venda é paga.

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Hoje, o dinheiro da venda entra integralmente no caixa da empresa, e os impostos são recolhidos depois, conforme as regras de apuração. Até lá, os valores destinados ao Fisco podem permanecer temporariamente disponíveis para ajudar a bancar as despesas do negócio.

Com o split payment, esse intervalo tende a desaparecer: a parcela referente ao Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e à Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) será separada na liquidação do pagamento e transferida diretamente ao governo.

É justamente esse efeito sobre o caixa que colocou o mecanismo no centro do debate eleitoral. Representantes do comércio e especialistas em tributação alertam que a antecipação do recolhimento pode reduzir o capital de giro das empresas e aumentar a necessidade de recorrer a empréstimos para manter a operação.

O split payment vai mudar a rotina dos negócios

O assessor econômico da FecomércioSP, Fábio Pina, é um dos críticos da medida. Na avaliação dele, o split payment cria um "mega problema" para o fluxo de caixa, principalmente em setores nos quais os prazos comerciais têm peso importante e o dinheiro dos impostos costuma permanecer por algum tempo nas mãos das empresas.

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"Hoje as empresas têm 15 a 30 dias entre venda e recolhimento, com apurações mensais e trimestrais e poucos descontos na fonte. Com a separação imediata do imposto, haveria pressão no capital de giro e corrida a crédito bancário", afirma. Pina também critica o que considera um controle "abusivo", sob o argumento de que eventuais falhas na cadeia deveriam ser responsabilidade do Fisco.

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No sistema atual, o intervalo entre a entrada do dinheiro e o pagamento dos tributos pode chegar, em geral, a 30 a 90 dias, dependendo das regras de apuração e recolhimento. Esse período permite que parte dos recursos permaneça no caixa da empresa antes de ser destinada ao pagamento dos impostos.

A perspectiva de encurtar esse prazo preocupa especialmente os negócios que dependem desse dinheiro para financiar as atividades do dia a dia. Previsto legalmente desde janeiro de 2025, o split payment tem implementação programada a partir de 2027. Para os críticos, a mudança pode aumentar a procura por crédito bancário justamente em um cenário de juros elevados, com a taxa Selic em 13,75% ao ano.

A discussão ganhou força nesta semana, em meio às manifestações de integrantes das campanhas presidenciais. Na terça-feira (7), Daniella Marques, ex-presidente da Caixa Econômica Federal e coordenadora econômica da campanha de Flávio Bolsonaro (PL), afirmou que um eventual governo do candidato acabaria com o mecanismo por "asfixiar o capital de giro do pequeno".

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O ministro da Fazenda, Dario Durigan, reagiu à proposta. Segundo ele, ser contra o avanço do split payment é "favorecer quem frauda", já que o mecanismo ajudaria a combater a sonegação e a fechar o cerco contra empresas noteiras.

Na quinta-feira (8), Flávio Bolsonaro voltou a defender publicamente o fim da ferramenta, afirmando que ela "inviabiliza o capital de giro para as empresas". No mesmo dia, o deputado Luiz Carlos Hauly (Podemos-PR), um dos idealizadores da reforma tributária no Congresso, ponderou sobre a possibilidade de revogação. Para ele, o split payment é uma peça necessária do novo Imposto sobre Valor Agregado (IVA), pois viabiliza o modelo de "crédito financeiro".

Hauly argumenta que a principal preocupação da campanha de Flávio está nas operações entre empresas e consumidores finais (B2C). A implementação da reforma, porém, prevê uma primeira etapa voltada às transações entre empresas (B2B).

O cronograma também prevê uma adoção gradual. No segundo semestre de 2027, o pagamento fracionado deve começar de forma opcional, restrito às operações entre empresas. A obrigatoriedade geral foi adiada pela Receita Federal e deve ficar para 2028, diante do tempo necessário para que bancos, instituições de pagamento e outros participantes façam as adaptações tecnológicas.

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Durigan afirmou ao Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado, no domingo, após votar em um colégio tradicional dos Jardins, em São Paulo, que o governo está aberto ao diálogo com o empresariado e admite discutir ajustes no mecanismo e nos prazos. Ele não sinalizou, porém, intenção de abandonar a proposta.

"O empresário não precisa ter medo. Ele precisa entender que o split payment vai acabar com a sonegação. O governo está disposto a sentar, ouvir os empresários, fazer ajustes no mecanismo e discutir prazos", disse.

As preocupações não se limitam ao impacto sobre o capital de giro. O presidente da Associação Brasileira de Advocacia Tributária (Abat), Halley Henares Neto, chama a atenção para a complexidade tecnológica da implementação e para a experiência internacional, que inclui casos de adoção do mecanismo seguidos de revisões e ajustes.

"Não é um sistema de fácil implementação", disse Henares, ao destacar também os custos envolvidos para os meios e arranjos de pagamento e as instituições financeiras.

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"Obviamente vão repassar esse custo para o contribuinte", emendou. Na avaliação dele, as pequenas e médias empresas podem sentir especialmente os efeitos da mudança, já que hoje conseguem manter os valores recebidos até o momento do recolhimento dos tributos. "Geralmente há 40, 45 dias entre o recebimento e o fato gerador do tributo e depois o recolhimento desse tributo."

O economista-chefe da Reach Capital, Igor Barenboin, também alerta para o possível impacto sobre o caixa dos negócios e para o risco de encarecimento do crédito, sobretudo entre empresas menores e mais dependentes de financiamento bancário para custear suas operações.

"Vai tirar dos empresários o capital de giro."

*Com informações do Estadão Conteúdo

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