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Especialistas discutem a popularização do ingrediente, como ela tem se refletido no Brasil e se a moda permanecerá a longo prazo
Estético, energético e com propriedades benéficas à saúde. O matcha, com cor verde vibrante, oriundo da Ásia e protagonista da típica cerimônia do chá japonesa, tem virado a estrela em cafeterias pelo mundo. Principalmente, no Hemisfério Norte.
De acordo com o New York Times, o Japão, maior e mais tradicional produtor e exportador, já exportou o dobro de matcha e chá verde, em termos de valor (US$ 250 milhões, cerca de R$ 1,3 bilhões), nos primeiros sete meses de 2025 em comparação com todo o ano de 2020.
A febre, segundo o Financial Times, foi impulsionada pela sua popularidade nas redes sociais, pela maior preocupação com a saúde durante a Covid-19 e pelo boom do turismo no Japão.
Nos Estados Unidos, como indica o New York Times, só no Starbucks houve aumento de 40% nas vendas de matcha no primeiro trimestre de 2025 em comparação com o mesmo período do ano anterior. Já no Reino Unido, segundo o The Bottom Line, entre junho e julho deste ano, foram vendidos 1,6 milhão de bebidas à base do produto.
No Brasil, de acordo com a Namu Matcha, marca brasileira dedicada exclusivamente ao matcha e principal importadora no país, há um crescimento da demanda. No entanto, o fundador Álvaro Dominguez, que abriu a empresa em 2020, destaca que este aumento não é repentino, mas expressivo de forma anual: “Sempre basicamente dobrou a cada ano desde que começamos a operar”.
Para a nutricionista, mestre em ciências dos alimentos pela USP e especialista em chá, Lígia Fernandes, aqui estamos vivendo essa tendência de forma mais evidente há um ano. No entanto, na sua visão, a longevidade da trend tem prazo de validade: “Eu acredito que ainda estamos na crista da onda, mas vai passar”.
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“É preciso saber que o matcha é a folha de camellia sinensis”, diz Lígia. Segundo a especialista, aproximadamente 15 dias antes da colheita, ela é coberta para que não receba luz e aumente assim sua clorofila. Isto é, a L-teanina, que dá o sabor umami característico do matcha. A palavra de origem japonesa remete a “gosto saboroso”.
“Depois, as folhas são colhidas à mão, trituradas em pedra lentamente para manter a qualidade do produto final”, relata Lígia. O resultado é o pó verdinho que, como aponta o portal Tua Saúde, contém cafeína, aminoácidos e antioxidantes. Suas propriedades anti-inflamatórias e proteção celular contribuem para o fortalecimento do sistema imunológico e reduzem o risco de doenças crônicas.

“O matcha entrou no rol dos alimentos funcionais, principalmente para uma geração que busca mais saudabilidade e buscava uma bebida alternativa ao café”, relata Lígia Fernandes. “E exatamente como ele, o matcha é versátil, dá para tomar frio, quente, com leite e etc. E claro, a geração jovem é a que posta nas redes sociais e acaba viralizando mesmo. O líquido é bonito”.
De acordo com a Namu, trata-se de um ingrediente milenar, com mais de 3.000 anos. Os primeiros registros deste chá moído vem da dinastia Tang, na China, por volta dos anos 800. No entanto, foi no Japão que o matcha se aperfeiçoou e ganhou status cultural e ritualístico com os valores de harmonia, respeito, pureza e tranquilidade. Isso tanto entre os convidados e anfitriões da cerimônia, segundo a Japan House São Paulo.
“Essa cultura cerimonial japonesa do matcha, ela não aumentou. O que aumentou foi o seu consumo com leite, no sorvete, em drinks com e sem álcool, que é o matcha culinário”, diz Carla Saueressig, primeira sommelière especialista em chás, infusões e ervas-mate e tea blender do Brasil, além de palestrante e consultora.
Lígia Fernandes compartilha da mesma visão: “Vejo bastante restaurantes explorando isso na gastronomia: sorvete, creme, tortas e por aí vai. Aqui no Brasil, eu vejo o matcha mais como ingrediente na gastronomia mesmo. O brasileiro gosta de matcha com algo mais”.

Álvaro Dominguez, da Namu Matcha, confirma o movimento ao relatar que, no último ano, o aumento da demanda veio principalmente das cafeterias. A criação de um cardápio focado neste produto, afirma, aumenta a oferta e o tíquete médio desses estabelecimentos e de todos os locais de alimentos que trabalham com ele. Isso porque abre um leque para nichos mais diversos de públicos.
“A cafeteria não serve mais só quem gosta de café, agora vai quem gosta de café e quem gosta de matcha” diz o fundador da marca.
“Nós não produzimos matcha. Logo, tudo que temos aqui é importado do Japão, da Coreia ou até mesmo da China”, diz Lígia. O boom na procura global pelo ingrediente, no entanto, tem levado a limitações da oferta no Japão, por exemplo. Casas de chá tradicionais como Nakamura Tokichi Honten, decidiram disponibilizar apenas uma pequena lata do produto por pessoa.
“A capacidade de produção do matcha de alta qualidade, é muito limitada”, diz Carla Saueressig. Isso porque, como já explicado por Lígia, o processo artesanal exige tempo, e as safras são afetadas por fatores como clima e envelhecimento de produção. No caso do Japão, como indica o Financial Times, a pouca renovação agrícola também é um desafio para produzir em maior escala.
Na Namu, a matéria-prima vem da província de Hadong, na Coreia do Sul. Álvaro também afirma haver uma diminuição de produção e consequentemente, um encarecimento do matcha. “Às vezes causado por efeitos climáticos, ou descanso das plantações, ou falta de mão de obra. São vários fatores”. Com aumento de demanda e produção menor, relata, os preços tendem a subir.

“A conta é simples: o mundo não tem como suprir essa procura. Um matcha premium, passou a custar 3x mais pela famosa lei da oferta e demanda” diz a especialista Lígia Fernandes. Na Namu, este tipo indicado para o uso em bebidas custa a partir de R$89, para 30g e vai até R$519 para 250g. “E nós brasileiros ainda sofremos mais porque dependemos de importação, impostos de exportação, etc.”, diz a especialista.
Este desafio no cenário de produção e encarecimento do matcha, de acordo com Lígia e Álvaro, pode trazer consequências em relação à qualidade do produto. O fundador da Namu cita, por exemplo, a flexibilização de leis permitindo adição de corantes para deixar um matcha “de menor qualidade com a cor mais verdinha”. Como indica a BBC, isso ocorre especialmente na China. Há também a possibilidade de falsificação de certificações de pureza, segundo Álvaro.
“Chá verde simples tem se passado por matcha”, comenta Lígia. A especialista relata experiências recentes em cafeterias brasileiras em que percebeu que o produto ofertado não era de fato o original. “Chá verde em pó é diferente de matcha. Apesar de ambos virem da mesma folha, a camellia sinensis, o processamento delas é que faz a diferença. E faz muita diferença no sabor, até mesmo na finura do pó”, afirma

Álvaro, por sua vez, aponta para a questão de educação do usuário, que ainda está navegando num mercado jovem. Isto é, há poucas informações disponíveis sobre o produto e, de acordo com o fundador da Namu, “muito marketing empurrando soluções mágicas a partir dele”.
“Nós estamos falando de um ingrediente caro, como uma iguaria e ainda assim tem pessoas que compram gato por lebre”, diz Lígia.
Para a sommelière e especialista em chás, Carla Saueressig, o consumo do matcha misturado a diferentes bebidas, já faz parte do cotidiano das pessoas e não vai sair. No entanto, ela destaca que é preciso levar em conta a cultura do Brasil e suas regionalidades ao refletir sobre como a tendência se reflete por aqui.
“O brasileiro não vai deixar de tomar café. Nós somos culturalmente tomadores de café”, relata. Além disso, ela afirma que ao considerar o Brasil como um todo, não só as capitais, só as cidades maiores do interior vão ter um consumo mais intenso do produto.
"As pessoas vão continuar tomando as coisas que são do hábito delas. Por exemplo, o Mato Grosso do Sul vai continuar tomando tererê. O Sul vai continuar tomando chimarrão, e as praias do Brasil vão continuar tomando mate gelado. Isso nunca vai deixar de ser tendência cultural nossa”, diz Carla.
Já Lígia aponta que o aumento dos preços pode dificultar um consumo em massa do produto por aqui. “O de de má qualidade tem gosto amargo demais. É bem comum eu ouvir as pessoas dizendo que não gostam de matcha. E a minha frase é: ‘Você nunca tomou matcha bom!’”, brinca. Ela relata que o de maior qualidade tem tanto umami, que alguns chegam a parecer chocolate branco.
“A alta do valor do matcha bom vai fazer essa onda se dissipar e só quem realmente é apreciador de chás especiais seguirá bebendo", diz Lígia. “Hoje é matcha, amanhã será outra coisa”, complementa ela sobre o caráter temporário da popularidade da trend.
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