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De prodígio da computação a homem mais rico do mundo, Bill Gates revisita a infância e a juventude em Seattle em ‘Código-fonte: Como tudo começou’, um ensaio sobre o papel da família, da educação e da curiosidade no caminho do fundador da Microsoft

Em livro de memórias publicado no começo de 2025, o fundador da Microsoft e hoje filantropo Bill Gates reconta a primeira parte de sua vida em Seattle, destacando o papel da leitura, dos pais e da educação no seu sucesso.
Código-fonte faz alusão ao conjunto de instruções que definem um software, e essa é a metáfora que guia Gates em sua autobiografia. Sob o sensível livro de memórias, há uma investigação das constantes e variáveis que o levaram a fundar a segunda empresa mais valiosa do mundo.
As constantes começam com sua família: filho do meio, Gates cresce sob as altas expectativas estabelecidas por Kristi, sua irmã mais velha. O sucesso acadêmico era esperado na família de classe média alta do noroeste dos Estados Unidos. É também algo que ele descreve como uma verdadeira “atmosfera de potencial ilimitado, que foi o verdadeiro pano de fundo da minha infância”.
Leitor precoce, Gates encontrou nos livros uma maneira de saciar sua curiosidade: “na leitura eu encontrava respostas para todo tipo de coisas”. O empresário descreve a atividade assim: “Ler, no banco de trás do carro — ou em qualquer lugar, aliás — era meu estado default. Quando lia, as horas voavam.”
Gates credita à avó, com quem aprendeu a jogar cartas, seu espírito competitivo. Mas também sua noção de que o mundo pode ser compreendido através do pensamento lógico e da matemática. No post celebrando a publicação de Código-fonte: Como tudo começou (Companhia das Letras, 2025), Gates dedica o livro à família e à avó que o ensinou “a jogar cartas e como pensar”.

A avó, modelo de “leitora culta”, apoiou totalmente o hábito da leitura ainda na infância:
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“Depois da escola, subíamos a curta ladeira até a biblioteca, onde eu enchia seu carro com uma nova pilha de livros para ler durante a semana.”
A atmosfera era de liberdade intelectual em uma casa onde “se havia alguma coisa com que meus pais nunca questionavam gastar dinheiro eram os livros”. E acabou reforçada pela postura pedagógica da Lakeside School.
Além de dar aos alunos uma maior autonomia, a escola onde Bill Gates estudava ainda estimulava algo que se revelaria mais importante para a formação do empresário. Numa época em que computadores eram inacessíveis ao público e os programas eram escritos à mão, o laboratório da Lakeside School ofereceu a Gates e seus colegas um espaço de liberdade intelectual ilimitada.
“A programação se encaixava em mim porque eu me permitia definir a minha própria medida de sucesso, e ela me parecia ilimitada.”
Em 1972, Bob Haig, seu professor de matemática, morre em um acidente de avião. Então Gates e seu melhor amigo, Kent Evans, herdam a tarefa de criar um programa de computador. O objetivo era automatizar a distribuição da grade horária dos alunos da Lakeside, recém-fundida com o colégio feminino St. Nicholas.
Antes que possam terminar o programa, outra tragédia: Kent Evans falece em um acidente de montanhismo. Paul Allen, amigo mais velho e futuro cofundador da Microsoft, aproveita a licença da faculdade para ajudar Gates a concluir o trabalho. Mais tarde, Gates perceberia que os dois lidavam com o luto à sua maneira.
O ambicioso projeto consistia em criar um programa capaz de organizar os horários dos setenta cursos subdivididos em 170 seções para os 580 alunos da Lakeside. E foi concluído com sucesso. Gates considera esse o primeiro trabalho “de verdade”, com impacto no mundo ao seu redor. Para ele, aquilo “não era um projeto de escola, era o mundo real”.
Antes mesmo de concluir o ensino médio — e de ser aceito em Princeton, Yale e Harvard —, Gates já estava trabalhando em um programa para automatizar a distribuição de energia no estado de Washington. Em mente, o sonho de abrir uma empresa de software com Paul Allen. Só esperavam pelos avanços tecnológicos necessários.
Gates se sente sufocado pela rigidez da vida universitária, muito distante da liberdade proporcionada pela família e pela Lakeside School. Um de seus professores, aliás, o descreveria como “um aluno no segundo ano já entediado com os cursos de pós-graduação”. Logo, Gates encontra a liberdade nos grupos de hobbyistas dedicados à computação.
“Computadores baratos ou gratuitos se encaixavam na cultura hippie dos anos 1960 e 1970. [...] O modo passional com que encaravam a nova tecnologia era muito arraigado numa ideologia de mudança social e circulação de ideias.”

Esse é o universo proporcionado pelos avanços na computação e na miniaturização de componentes — justamente aquilo que Gates e Allen tinham sonhado há tantos anos. Ultimamente, é o que convence o jovem Bill a abandonar os estudos em Harvard para se dedicar em tempo integral à Microsoft. É também o ponto onde o livro de memórias termina.
A trajetória de Gates é única no universo da tecnologia e dos negócios. E o livro se coloca como uma retrospectiva para tentar compreender esse sucesso que, embora fruto de muito trabalho, também dependeu de muitas oportunidades. Gates teve pontes, desde o valor que a família colocava nos estudos até a liberdade conquistada no colégio, por exemplo.
Código-fonte, a metáfora estruturante do livro, remete ao clássico embate entre natureza e meio ambiente. No espírito científico, Gates oferece mais um relato dos fatos do que uma interpretação aprofundada, que ele deixa ao leitor. É, sobretudo, uma narrativa ao mesmo tempo íntima e universal, capaz de envolver tanto quem admira tecnologia quanto quem acredita no poder da educação. Além disso, destaca o papel, aqui claríssimo, da leitura em sua formação. O reflexo é uma prosa fluida e agradável, ainda que a tradução vacile em alguns pontos.
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