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Matheus Doliveira

Matheus Doliveira

Formado em Jornalismo pela Universidade de São Paulo (USP), é repórter de lifestyle há cinco anos e já passou por veículos como Exame, Neofeed e UOL. Atualmente, faz mestrado de Gerenciamento de Marcas de Luxo na Paris School of Business e colabora com diversos veículos de estilo de vida do Brasil.

DOBRANDO O CLIMA

A vinícola da Mantiqueira que conquistou o mundo com seus ‘vinhos de altitude’

Rótulos brasileiros produzidos a até 1700 metros acima do nível do mar, adquirem características únicas por causa de condições climáticas desafiadoras, colocando o Brasil no radar das principais premiações internacionais

Matheus Doliveira
Matheus Doliveira
3 de outubro de 2025
8:16 - atualizado às 12:00
Altitude e condições climáticas desafiadoras ajudam a atribuir características únicas aos vinhos da Serra da Mantiqueira
Altitude e condições climáticas desafiadoras ajudam a atribuir características únicas aos vinhos da Serra da Mantiqueira - Imagem: Divulgação

No passado, a Serra da Mantiqueira, cadeia montanhosa que se estende pelos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo, era uma região conhecida pela produção de café. Hoje em dia, no entanto, o brilho vem das garrafas – mais precisamente, dos chamados vinhos de altitude.

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Fundada em 2015, a Vinícola Ferreira é hoje um dos maiores expoentes na produção de vinhos finos “produzidos próximo às nuvens”. Atualmente, acumula 26 medalhas de Ouro, Prata e Bronze conquistadas em quatro concursos internacionais de prestígio (Decanter World Wine Awards de Londres, Paris Wine Cup, Sommeliers Choice Awards, de São Francisco, e Hong Kong Asian Wine Awards). 

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A produtora frisa que, nessa altitude, as condições climáticas desafiadoras ajudam a atribuir características únicas aos vinhos. Foi o que a ajudou o reconhecimento nas maiores premiações internacionais, incluindo o prêmio londrino, aliás, uma espécie de “Oscar dos vinhos”. 

Parte da produção ocorre no Altiplano do Baú, uma das regiões mais altas da Serra Mantiqueira, entre 1.400 e 1.700 metros acima do nível do mar
Parte da produção ocorre no Altiplano do Baú, uma das regiões mais altas da Serra Mantiqueira, entre 1.400 e 1.700 metros acima do nível do mar

A vinícola que ‘trabalha’ para o clima

Produzir vinho é um desafio em qualquer terreno. Mas a tarefa se torna muito mais difícil quando a presença de chuvas fortes, granizo, ventos e geadas são parte da rotina das vinícolas. Paradoxalmente, são essas mesmas condições climáticas difíceis de driblar que acabam diferenciando os rótulos. 

“Muita gente me pergunta se nossa vinícola ‘desafia’ o clima por estar no topo da Serra da Mantiqueira. Eu costumo responder o contrário: nós trabalhamos para o clima, em consonância com a natureza”, diz Dormovil Ferreira, fundador da vinícola premiada de Piranguçu, Minas Gerais. 

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Apesar de ter começado as operações há apenas 15 anos, a Vinícola  Ferreira já produziu mais de 100 mil rótulos desde 2019. Eles são vendidos a um preço médio de R$ 300 a garrafa. “As uvas que temos aqui estão entre as melhores que se pode encontrar no Brasil. Elas são dificílimas de cultivar, por outro lado, são as mais fáceis de beber”, afirma Dormovil.

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Em altitudes elevadas, a maturação da uva é mais lenta, e por esse motivo, os vinhos se tornam sensorialmente mais complexos
Em altitudes elevadas, a maturação da uva é mais lenta, e por esse motivo, os vinhos se tornam sensorialmente mais complexos

A altitude deixa tudo mais complexo (até o sabor)

Os vinhedos da Vinícola Ferreira ficam no Altiplano do Baú, uma das regiões mais altas da Serra Mantiqueira, entre 1.400 e 1.700 metros acima do nível do mar.

Em altitudes elevadas como essa, a maturação da uva é mais lenta, e por esse motivo, os vinhos se tornam sensorialmente mais complexos. A acidez e os aromas intensos como florais, frutados e minerais, por exemplo, ficam bem mais presentes ao degustar a bebida. Por outro lado, os taninos são mais finos, com textura elegante, além de o potencial de guarda desse tipo de vinho premium ser maior. 

“A amplitude térmica é bem grande graças a altitude, pois de dia é muito quente e tem sol e de noite é muito frio”, diz Tábata Rosa, sommelier da Vinícola Ferreira. “Isso determina uma boa maturação das uvas e uma boa concentração de açúcar, o que é ótimo para as videiras”, explica. 

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Até agora, a maior conquista da vinícola com seus rótulos de montanha foi a medalha de ouro no Decanter de Londres em 2023. O vinho celebrado foi o Piquant Soleil safra 2022 (R$ 490 no e-commerce), um Syrah 100% que conquistou 95 pontos. Foi o que garantiu o reconhecimento inédito para a região Sudeste. Há poucos meses, a produtora também recebeu uma segunda medalha de ouro pelo mesmo rótulo, dessa vez no Asian Wine Awards, de Hong Kong, na China. 

Lonas de plástico protegem as uvas 

A maioria esmagadora das vinícolas da Serra da Mantiqueira realizarem a chamada poda invertida para driblar o mau tempo, especialmente, o excesso de água. 

A técnica consiste em realizar a poda das videiras após o início da brotação (normalmente no fim do inverno) para atrasar a floração. Consequentemente colheita ocorre quando as condições climáticas estão mais favoráveis. 

A Vinícola Ferreira, no entanto, optou por um método de produção diferente. O ciclo do plantio natural do fruto é preservado, mas as videiras são cobertas com lonas plásticas, assim evitando danos causados pela chuva. “Entendo o apelo da poda invertida, mas nesta altitude a que estamos não é tecnicamente possível o uso dela, por isso optamos pelas lonas de proteção”, justifica Dormovil. 

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Uma das vantagens de usar lonas, diz ele, é a possibilidade de praticamente zerar o uso de agentes químicos, já que a barreira plástica dificulta a proliferação de pragas. 

Em parte da produção, o ciclo do plantio natural do fruto é preservado, mas com videiras cobertas por lonas plásticas, evitando danos causados pela chuva
Em parte da produção, o ciclo do plantio natural do fruto é preservado, mas com videiras cobertas por lonas plásticas, evitando danos causados pela chuva

Dos cumes da Mantiqueira para o mundo 

Com o sucesso de seus vinhos de altitude, a vinícola começou a exportar seus vinhos para a Austrália no ano passado. Agora, ela prepara sua entrada nos Estados Unidos e Europa

No final do ano, a marca também começará a receber seus primeiros hóspedes no hotel instalado em meio aos vinhedos. Atualmente, ele está em fase de acabamento. “Os nossos chalés serão uma vitrine para mostrar ao nosso público todo o trabalho duro e recompensa por trás dos vinhos de altitude”, diz Dormovil.
Em conjunto com as vinícolas Entre Vilas, Bela Vista e Altos da Mantiqueira, todas do Altiplano do Baú, a Vinícola Ferreira ainda diz estar trabalhando para obter uma Denominação de Origem Própria (DOP) futuramente, como existe em Bordeaux e Borgonha. A ideia é reforçar a exclusividade dos vinhos de altitude da Serra da Mantiqueira.

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