O SD Select é uma área de conteúdos extras selecionados pelo Seu Dinheiro para seus leitores.
Esse espaço é um complemento às notícias do site.
Recurso Exclusivo para
membros SD Select.
Gratuito
O SD Select é uma área de conteúdos extras selecionados pelo Seu Dinheiro para seus leitores.
Esse espaço é um complemento às notícias do site.
Você terá acesso DE GRAÇA a:
Ao reler a Inglaterra vitoriana com o olhar de uma romancista contemporânea, Zadie Smith transforma a história em espelho do presente em ‘A Fraude’
Zadie Smith ganhou notoriedade como romancista nos Estados Unidos aos 24, ainda em 2000. À época, fez sucesso com a publicação de seu primeiro romance, Dentes Brancos (Companhia das Letras, R$ 129,90). A história, que usava o fim da Segunda Guerra Mundial como cenário, tornou-se enorme sucesso crítico e comercial. De lá para cá, a escritora lançou ainda O Caçador de Autógrafos (2006) e Sobre a Beleza (2006). Além disso, conquistou o leitor com seus ensaios pessoais sobre literatura, publicados originalmente na The New Yorker.
Agora, em A Fraude (Companhia das Letras, R$ 129,90) Smith faz novo retorno no tempo. Agora, seu destino é o século 19, para iluminar dilemas muito atuais: a disputa por narrativas, a fabricação de verdade e a política da identidade.

A passagem dos cenários contemporâneos para um romance histórico pode parecer estranha à primeira vista. Considerando, no entanto, seu amor pelos clássicos ingleses em meio aos quais cresceu, A Fraude parece inevitável.
“Por volta de 2012, eu me deparei com uma história do século 19 e, imediatamente, percebi que era minha”, declarou Zadie no ensaio sobre o romance para a revista The New Yorker.
Situado na Inglaterra vitoriana, o enredo explora as farsas e polêmicas encobertas pelo véu da moralidade. A viga mestre é o caso Tichborne, que estoura quando o australiano Arthur Orton afirmou ser um herdeiro desaparecido chamado Roger Tichborne. A mãe acreditou; a família, não.
Ao imbróglio se seguem disputas, dois julgamentos e uma onda popular que viu no impostor um anti-herói. No fim, a Justiça decretou fraude, mas o país já havia transformado tudo em espetáculo social.
Leia Também
“A situação do Pretendente Tichborne me atingiu como um objeto de arte encontrado: um daqueles presentes que o universo oferece a um escritor uma vez na vida.”
O romance se divide entre essa narrativa e a cena literária da Londres em meados do século 19. A escolha acaba possibilitando o contraste entre relações sociais, raciais e de gênero, como o papel da mulher na sociedade da época.
Sobre o seu processo de criação, a autora contou ao canal France 24:
“Eu ouço coisas. Às vezes fico anos sem escrever algo, e enquanto isso ouço. Passei um bom tempo, nas minhas aulas e com meus amigos, ouvindo uma versão do século 19.”
Ultimamente, A Fraude representa uma tentativa de compreensão deste século que nos é tão atrasado e reprimido, ao mesmo tempo que é inovador e otimista em relação ao futuro. Os pontos de contato são muitos, os de diferença ainda mais. O desafio está na escolha dos modos de representação do passado.
O romance histórico, por definição, é um exercício de recriação do passado. O romance histórico consciente, isto é, aquele tipo de livro que se olha no espelho e percebe os problemas inerentes ao processo de reconstituição ou recriação de um passado. Assim, esse tipo de romance tende a estruturar-se em torno de um questionamento muito parecido: o que é fato e o que é ficção?

Apesar de se passar numa Londres do século 19, talvez A Fraude seja o romance mais contemporâneo de Zadie Smith até agora. De um lado o livro é uma carta amorosa aos livros que formaram a autora – com direito a uma visita de Charles Dickens.
Essa declaração ao ofício foi comentada por Smith em entrevista no programa Charlie Rose. Nele, Zadie admitiu que se sente atraída por “grandeza”, preferindo escrever sobre os livros e autores que ama e tem em alta conta. A familiaridade com a literatura é o produto de uma infância entre livros, voltada para dentro:
“Eu tive uma vida livresca. Acredito que o verdadeiro escritor é quem essa pessoa é entre os nove e quinze anos, e nessa idade eu era uma pessoa dos livros, bem caseira.”
O ambiente clássico, entretanto, inclui um olhar implícito sobre o poder das narrativas – da mentira e da verdade –, tão voláteis no mundo digital.
Comparado a O Cemitério de Praga, penúltimo romance de Umberto Eco, também construído em torno de uma história real sobre a falsificação, A Fraude evidencia os indivíduos na história, com todas as suas emoções, medos e sonhos. Eco escreve um romance para demonstrar um argumento, Zadie Smith está mais interessada em ver como seus personagens vivem na história.
Qualquer romance histórico deve lidar com um problema de linguagem muito específico, a arcaização da linguagem. Zadie Smith consegue, no entanto, equilibrar o vocabulário dos clássicos que a formaram com uma prosa fluida – resultado, talvez, de seu talento como crítica literária.
O mesmo cuidado, no entanto, não se reflete na tradução brasileira. A falta de precisão e proximidade com a nossa própria literatura desfaz a ilusão que sustenta o romance e retira boa parte do sabor do livro.
A falta de edições brasileiras dos ensaios da autora e o atraso de dois anos na publicação do livro no Brasil – a ponto de a autora já estar na turnê de outra obra – fazem com que a publicação perca um pouco de seu momento. Talvez a reedição de Dentes Brancos aponte para uma mudança no tratamento da obra de uma autora que é, inegavelmente, uma das vozes mais brilhantes de sua geração.
Saiba onde ver os filmes que disputam o Oscar com o longa brasileiro, indicado nas categorias de Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Direção de Elenco e Melhor Ator para Wagner Moura
Veja 10 novidades que chegam ao público no mês de fevereiro, entre espetáculos, séries, filmes e livros
Conheça os cenários onde a história da bossa nova foi escrita – e os lugares para celebrá-la ainda hoje
“O Agente Secreto” e Wagner Moura foram indicados ao Oscar 2026, no anúncio realizado nesta quinta-feira (22); Brasil ainda teve uma quinta indicação em Melhor Fotografia
Confira os valores atualizados para visitar os museus mais famosos do planeta
Nova tradução de Macbeth, de William Shakespeare, chega pela Companhia das Letras e reacende o debate sobre ambição e poder. Em entrevista ao Seu Dinheiro, o tradutor Lawrence Flores Pereira explica os desafios de trazer a tragédia para o português de hoje
Baiano tornou-se primeiro brasileiro a levar o prêmio de Melhor Ator em Filme de Drama no Globo de Ouro. O Agente Secreto ganha na categoria de Melhor Filme em Língua Não Inglesa
Wagner Moura é o mais cotado para levar estatueta de Melhor Ator de Drama; “O Agente Secreto” também é favorito para Melhor Filme de Drama
De polemista em suas colunas de jornal ao duplo reconhecimento pelo Goncourt, o escritor argelino Kamel Daoud se impõe como uma das principais vozes da literatura francófona, agora com o visceral ‘Língua interior’
Com foco em grandes eventos, novo empreendimento no Conjunto Nacional, em São Paulo, resgata projeto de antigo jardim de inverno do restaurante Fasano, por onde já passaram nomes como Nat King Cole, Fidel Castro e Dwight Eisenhower
Brasil recebe de fenômenos do pop, como Rosalía, Sabrina Carpenter e Bad Bunny, à nomes consagrados do rock, como Elton John, Guns N’ Roses e AC/DC
Em 31 anos de premiação, é a primeira vez que uma produção brasileira conquista estatueta; Brasil também leva título de Melhor Fotografia com o diretor paulista Adolpho Veloso
Streaming mais maduro, o retorno simbólico do vinil e um mercado de shows que se reorganiza fora do eixo tradicional mostram como a indústria musical entra em 2026 menos movida por modismos e mais guiada por comportamento, cultura e sustentabilidade econômica.
De romance psicológico à análise econômica, estes títulos representam os livros mais comentados e influentes do momento no exterior e que ainda não foram traduzidos no Brasil
A editora e cineasta Isabel Diegues fala sobre sua tradução de ‘A Teoria da Bolsa de Ficção’, ensaio de Ursula K. Le Guin lançado no Brasil pela editora Cobogó que revisita a origem das narrativas e propõe novos modos de imaginar o mundo
Artista texana supera a marca de 10 dígitos, tornando-se a quinta personalidade da música a atingir o marco
Entre o impacto de redes sociais e o peso dos fenômenos, a lista da Nielsen-PublishNews revela as principais tendências de leitura do ano
Com aquisição da renomada ‘Coleção Daros Latinamerica’, Museu de Arte Latino-Americano de Buenos Aires dobra o tamanho do seu acervo e reforça a presença brasileira
Altas expectativas rodeiam a reabertura de um dos espaços artísticos parisienses que sempre teve curadoria original e fora dos eixos clássicos da arte europeia
James Cameron se torna o quinto cineasta mais rico do mundo; confira as principais conquistas do diretor