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Mateus Ferreira, que assumiu o comando financeiro na época da aquisição bilionária, falou com o Seu Dinheiro sobre as perspectivas para dividendos, a estratégia para cuidar da alavancagem e a MP do setor elétrico
Tem gente que gosta de emoção. Mateus Ferreira, aparentemente, prefere adrenalina financeira de altíssima voltagem.
Afinal, não é todo dia que alguém assume o comando do caixa de uma empresa com R$ 20 bilhões em dívida, alavancagem de 5,7x e uma fusão bilionária recém-anunciada — tudo isso num setor altamente regulado. E com Selic nas nuvens.
Pois foi nesse cenário “paradisíaco” que Ferreira virou CFO da Auren Energia (AURE3), há exatamente um ano, logo após a empresa ter anunciado a aquisição da AES Brasil, por R$ 7 bilhões.
E, contra todas as apostas mais céticas, ele garante: a integração está na reta final, as sinergias vieram dobradas e o passivo financeiro foi domado com estilo.
Nesta entrevista exclusiva ao Seu Dinheiro, o executivo fala sobre o que deu certo, o que ainda tira o sono e o que os investidores podem esperar da companhia nos próximos anos.
Mateus Ferreira atuou por bastante tempo no mercado financeiro e, mais recentemente, como diretor-executivo da Votorantim e membro do conselho de grandes empresas ligadas a ela, como Motiva (MOTV3), ex-CCR, e a própria Auren.
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Até que, há um ano, o executivo foi convocado para uma nova missão: entrar na operação e cuidar da parte financeira e de relações com investidores da empresa de energia. E isso bem no momento em que ela dava um grande passo: a aquisição da AES Brasil.
Com esse negócio bilionário, a Auren — controlada pela Votorantim e o fundo canadense CPP — passou a ser a terceira maior geradora de energia do Brasil, atrás apenas de Eletrobras (ELET3, ELET6) e Engie (EGIE3).
Porém, a conta foi alta: a dívida da empresa saltou de R$ 3 bilhões para R$ 20 bilhões e seu nível de alavancagem chegou a atingir 5,7x dívida líquida/Ebitda ao fim do ano passado. E num momento de Selic na casa dos dois dígitos. Ou seja: um trabalho árduo pela frente para o novo CFO.
Ferreira conta que, em apenas nove meses, a integração da AES Brasil está entrando na reta final e deve terminar no fim deste ano. “A partir de dezembro, você não vai ver mais a gente falar da AES. A gente vai ter virado essa página”, diz o executivo.
E mais: ele também afirma que os resultados da integração estão melhores que o divulgado anteriormente.
Um exemplo é a sinergia de custos e despesas (chamada de PMSO), que havia sido estimada em R$ 120 milhões e, agora, foi atualizada para R$ 250 milhões. Além disso, a empresa projetava que a disponibilidade dos ativos iria chegar a 95% num prazo de dois anos; agora, espera que isto aconteça já ao final deste ano.
“Fazendo uma avaliação da transação passados nove meses, hoje temos uma visão mais positiva do ponto de vista de agregação de valor para a companhia do que tínhamos em maio do ano passado”, afirma o executivo. “Estamos super contentes, apesar de todas as turbulências que vivemos hoje.”
Sobre as turbulências em questão, Ferreira destaca tanto a situação macroeconômica “mais desafiadora”, quanto os desafios setoriais — “principalmente o tema de curtailment, que tem vindo em níveis mais altos do que a gente imaginava”.
O curtailment, no caso, refere-se à redução ou corte forçado da geração de energia elétrica, no caso brasileiro decidido pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), que afeta especialmente usinas de fontes renováveis, como eólicas e solares. Ele acontece, por exemplo, quando a produção supera a capacidade de consumo ou de transmissão do sistema elétrico.
A companhia emitiu R$ 13 bilhões em dívida, nos últimos nove meses, a “um custo super competitivo”, na avaliação de Ferreira.
Por exemplo, a mais nova emissão da companhia é de R$ 500 milhões em debêntures incentivadas, que serão precificadas em agosto. “A gente está captando a NTNB, que é o título do governo equivalente do mesmo período, menos 41 bps”, explica.
A situação é semelhante à que aconteceu recentemente com a oferta de debêntures incentivadas da Petrobras, precificadas com rendimento abaixo dos títulos públicos. Saiba mais aqui nesta reportagem.
“Óbvio que é uma dívida incentivada, por isso eu consigo captar abaixo da curva, mas se você comparar com outros emissores no Brasil, poucas empresas conseguem captar tão barato quanto a gente”, diz o executivo.
E, com essa emissão de agosto, o CFO celebra o fim de todas a gestão de passivo da companhia.
“Todo o alongamento que a gente tinha que fazer, dos vencimentos que estavam mais comprimidos no curto prazo, a gente já fez. E agora é vida normal. A gente vai ter entre R$ 1,5 bilhão e R$ 2,5 bilhões por ano de vencimento, que é um número super razoável”, afirma. “Agora eu entro em uma velocidade de cruzeiro, sem nenhum tipo de pressão por qualquer tipo de rolagem de giro.”
Já do lado da desalavancagem, a história é um pouco mais complexa, e Ferreira divide a situação em três períodos. O primeiro período foi quando a Auren conseguiu baixar a alavancagem de 5,7x para 5x, do 4T24 para o 1T25, graças às sinergias e também ao aumento de capacidade de produção.
Agora, porém, a empresa adentra uma segunda fase, de desalavancagem em velocidade mais baixa, devido a dois fatores:
1) a construção de um novo parque eólico no Rio Grande do Norte, o complexo Cajuína 3, com um investimento orçado em R$ 750 milhões;
2) o pagamento de R$ 1,4 bilhão, nos próximos oito meses, em frustrações de geração de energia em parques onde há o mercado regulado.
Finalmente, passada esta segunda fase, a Auren espera retomar a velocidade e chegar à alavancagem de 3,5x a 3x entre 2027 e 2028.
Ferreira fala tranquilamente sobre a alavancagem da companhia, mas o humor muda quando perguntado sobre a MP do setor elétrico — a Medida Provisória n° 1300/2025, que foi editada pelo governo brasileiro há dois meses, em tese para modernizar o setor, promover mais eficiência, competitividade e transparência.
O executivo recolhe o sorriso e diz que não se sente confortável para falar. “É um tema mais delicado, é um tema super politizado, e que tem mudado semanalmente. A verdade de hoje não é necessariamente a verdade de amanhã”, afirma ele.
A MP 1.300/2025, publicada em 21 de maio de 2025, foi complementada pela MP 1.304/2025, publicada em 11 de julho de 2025, e ambas têm um prazo máximo de quatro meses para serem votadas, ou perdem a validade. Há preocupações do setor produtivo sobre o impacto das medidas na conta de luz e na segurança jurídica do setor.
Há, ainda, um temor de que emendas e propostas apresentadas no Congresso durante a tramitação da MP possam desfigurar o texto original, introduzindo "jabutis" que não estejam diretamente relacionados ao tema, ou que elevem ainda mais os custos da energia para o consumidor.
O executivo sugere, então, deixar o assunto para depois da aprovação das medidas. “Tem que deixar rolar um pouquinho para a gente observar o que vai acontecer. Quem sabe em setembro a gente pode voltar a falar disso, e aí falar do que efetivamente aconteceu, não ficar especulando sobre o que vai acontecer.”
As empresas do setor elétrico são historicamente consideradas boas pagadoras de dividendos, sendo frequentemente apontadas como uma classe de ativos defensiva e com previsibilidade de receita e fluxo de caixa estável. No caso da Auren Energia, a situação é um pouco mais complexa.
“A Auren sempre foi muito clara ao dizer que deveria ter a capacidade de crescer e, ao mesmo tempo, pagar dividendos, e que obviamente isso dependeria do ciclo que ela está vivendo”, afirma o executivo.
Segundo ele, de 2022 até 2024, a companhia pagou mais de R$ 3 bilhões em dividendos, quando estava em um momento de alavancagem mais baixa e sem nenhuma grande oportunidade no horizonte. Mas aí veio a aquisição da AES, no ano passado, e o ciclo mudou.
“É razoável imaginar que vamos pagar menos dividendo dentro desse período agora, até que a alavancagem volte, e a gente tenha uma nova discussão com os nossos acionistas sobre como vai ser o próximo ciclo.
Questionado se tem uma data em vista, o executivo desconversa. “O que a gente tem como política é o que fala a lei, que é 25% do lucro líquido. Foi o que a gente pagou no último ano, e é o que a gente vai olhar daqui para frente. Até voltar a alavancagem para níveis mais razoáveis. Aí a gente vai ter uma nova discussão para definir como vai ser o próximo ciclo.”
A ação AURE3 acumula valorização de cerca de 5% neste ano, revertendo parte das perdas de mais de 27% em 12 meses. O papel opera atualmente na casa dos R$ 9.
Ferreira diz que se preocupa com o valor das ações, mas com moderação. “Preço de ação é consequência de alguma coisa. Então, se fizermos bem feito o nosso trabalho, e entregarmos aquilo que estamos propondo, a ação volta”, pondera.
De nove recomendações de bancos e casas de análises, seis são de manutenção e três de compra. Uma das indicações de compra é da equipe do BTG Pactual, que vê a ação chegando a R$ 13,50 em 12 meses.
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