Eleições 2026 limitam até onde a Selic pode cair, diz economista-chefe do BNP Paribas
Para Fernanda Guardado, parte da desancoragem das expectativas de inflação se deve à incerteza quanto à responsabilidade fiscal do próximo governo

A maior taxa Selic em duas décadas dá sinais de efeito. A inflação corrente, aquela que sentimos no dia a dia, está em queda, e a atividade econômica está desacelerando. Diante desse cenário, as expectativas do mercado para a inflação futura começaram a cair — um passo crucial para o Banco Central ganhar confiança e, eventualmente, iniciar um ciclo de corte de juros.
Mas essa revisão de expectativas tem um limite, na opinião de Fernanda Guardado, economista-chefe para América Latina do BNP Paribas. E isso independe da melhora nos números de inflação ou do desempenho da economia.
“Uma parte dessa desancoragem [de expectativas] é devida à incerteza sobre qual política econômica a gente vai escolher lá na frente. E isso não está na mão do Banco Central, não está na mão de ninguém. Depende apenas do que vai acontecer a partir de 2027”, disse a economista em entrevista à Warren nesta terça (16), referindo-se às eleições presidenciais de 2026.
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Para Guardado, o timing certo para o BC cortar a Selic é quando vislumbrar nas projeções futuras a inflação dentro da meta de 3%. Isso está previsto para acontecer em março de 2026, quando o horizonte da autoridade monetária, de 18 meses futuros, se enquadra nessa previsão.
Selic e as incertezas
Existe essa percepção de que o Brasil tem um "encontro marcado com as contas públicas" em 2027. Analistas preveem que, nesse ano, as regras fiscais atuais podem tornar inviável o funcionamento da máquina pública, exigindo algum tipo de ajuste fiscal.
Essa discussão futura, porém, impacta as decisões sobre a taxa Selic hoje. O mercado embute nos preços dos ativos um prêmio de risco por não saber qual presidente será escolhido: um nome que apoie o ajuste para controlar gastos ou a continuidade de uma política fiscal expansionista.
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E essa incerteza respinga diretamente no trabalho do Banco Central.
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Segundo Guardado, o BC precisa tomar suas decisões com base nos dados e projeções que possui hoje, sem ter o "luxo da previsibilidade" sobre o que acontecerá com o fiscal em 2027.
“É difícil ser assertivo em relação ao que vai acontecer ao fim de 2026. O cenário-base do BNP Paribas é uma Selic em 12%. Entendemos que é um meio do caminho entre a possibilidade de um fiscal endereçado ou não”, disse a economista.
Juros devem começar a cair no fim de 2025 ou início de 2026
Está dado que este ciclo de cortes na Selic, hoje em 15%, não vai começar ao fim da reunião do Copom deste mês, que termina nesta quarta-feira (17). O mercado aposta majoritariamente que o primeiro corte na Selic deve ocorrer em janeiro de 2026 — com uns 20% pendendo para dezembro deste ano.
Um dos principais gatilhos para que essa aposta de corte na Selic se concretize são justamente as expectativas para a inflação futura. Trata-se de uma projeção muito importante para o mercado e para o Banco Central.
A expectativa de inflação futura norteia os preços de ativos financeiros — desde a renda fixa até a avaliação de ações — e o trabalho da política monetária, que tem por missão manter a inflação dentro da meta.
Essas projeções futuras melhoraram muito nos últimos meses. Na pior avaliação do ano, em meados de abril, o mercado esperava que o índice de preços IPCA (inflação de referência no Brasil) fechasse 2025 em 5,7% e 2026 em 4,5%.
Ou seja, muito fora da meta de 3% deste ano (com tolerância de 1,5% para mais ou menos) no teto da meta de 2026. Os dados constam no relatório Focus, do Banco Central, que compila as projeções dos agentes financeiros.
O boletim desta semana, entretanto, mostra que os números projetados agora são outros: 4,83% neste ano e 4,3% no próximo.
Onde investir neste cenário de incerteza?
Para o investidor, esse cenário complexo também gera oportunidades, acredita Raphaela Spilberg, sócia da gestora Vinland, que também participou do debate da Warren.
A principal escolha de Spilberg neste momento são os títulos públicos atrelados à inflação (NTN-Bs, também conhecidas como Tesouro IPCA+).
A gestora afirma que esses títulos mantêm as taxas “estressadas” e acima do nível histórico, refletindo o alto risco fiscal do país. Em outras palavras, eles oferecem um prêmio elevado para compensar a incerteza.
A outra escolha é a bolsa de valores, já que a queda de juros é, historicamente, um gatilho positivo para a bolsa.
"Estudos internos nossos mostram que a bolsa costuma reagir e iniciar um movimento de alta cerca de três meses antes do primeiro corte efetivo da Selic. Portanto, para quem acredita no início do ciclo de cortes no próximo ano, a bolsa se torna um ativo atrativo”, diz Spilberg.
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