Como os fundos de pensão brasileiros estão lidando com a pauta sustentável — e por que isso mexe com o seu bolso
Grandes entidades já incorporam critérios ESG nas decisões de investimento, mas o setor enfrenta desafios de métricas, dados confiáveis e disseminação entre as entidades menores

Você já parou para pensar onde está investido o dinheiro que garante a aposentadoria de milhões de trabalhadores no Brasil — incluindo, talvez, a sua própria?
Boa parte desse dinheiro é administrada pelos fundos de pensão, também conhecidos como Entidades Fechadas de Previdência Complementar (EFPC).
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Esses fundos são responsáveis por investir as contribuições feitas mensalmente por funcionários de empresas públicas e privadas. Cada um deles conta com uma equipe de gestores profissionais, que decide onde aplicar os recursos, sempre buscando maior rentabilidade e segurança de longo prazo para os participantes.
Assim como ocorre em economias desenvolvidas, os fundos de pensão exercem um papel estratégico na economia brasileira, movimentando cifras bilionárias e investindo em setores fundamentais, como infraestrutura, energia, mercado imobiliário, crédito privado e ações de empresas listadas na bolsa.
Atualmente, segundo dados da Abrapp (Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar), os fundos de pensão brasileiros administram cerca de R$ 1,3 trilhão em ativos — o equivalente a 11% do PIB nacional.
Entre as maiores entidades de previdência do país estão a Previ (dos funcionários do Banco do Brasil), a Petros (da Petrobras) e a Funcef (da Caixa Econômica Federal).
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Aos poucos, a agenda ESG — que considera critérios ambientais, sociais e de governança corporativa — tem ganhado espaço nas decisões de investimento desses fundos de pensão. Mas, segundo Devanir Silva, diretor-presidente da Abrapp, esse avanço ainda acontece de forma desigual e enfrenta obstáculos importantes.
Detalhe: essas escolhas afetam diretamente o bolso dos participantes dos planos de previdência complementar e também o mercado financeiro como um todo, já que boa parte dos investimentos em infraestrutura, ações e crédito no Brasil passa pelas mãos desses fundos.
ESG avança entre os grandes, mas adesão ainda é desigual
Devanir Silva observa que há uma disparidade na adesão de práticas ESG no setor de fundos de pensão a depender do porte das entidades.
De acordo com o executivo, apenas 51% das entidades fechadas de previdência complementar de menor porte — aquelas com patrimônio de até R$ 2 bilhões — aplicam critérios ESG em seus investimentos.
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Já entre os fundos com patrimônio acima de R$ 10 bilhões, 82,1% possuem abordagem formalizada de investimento responsável — alta de 10,2 pontos percentuais desde 2020, de acordo com o Relatório de Sustentabilidade do Setor, publicado pela Abrapp em 2024.
No entanto, apenas 16,7% dos fundos de grande porte possuem um documento específico dedicado ao tema ESG, embora a maioria já trate do assunto nas políticas gerais de investimento. Esse número, apesar de pequeno, representa um avanço: em 2020, eram só 9,1%.
A integração acontece de três formas principais:
- Na seleção de ativos: os critérios ESG ajudam a escolher onde alocar recursos, priorizando negócios mais sustentáveis e que tragam menos riscos reputacionais e financeiros no longo prazo.
- No engajamento com as empresas investidas: conselheiros indicados pelos fundos participam dos conselhos de administração e fiscal de grandes companhias, pressionando-as a seguir boas práticas.
- Na governança interna das entidades: há um esforço de capacitação para que gestores e conselheiros saibam analisar e cobrar ESG tanto nas empresas investidas quanto na própria gestão dos fundos.
Falta de dados e padronização ainda trava a agenda ESG
Um dos principais obstáculos apontados por Silva para a ampliação da agenda de sustentabilidade no setor de previdência fechada é a carência de dados ESG confiáveis e de métricas padronizadas no Brasil.
Segundo o executivo, mesmo com os avanços recentes, as informações disponíveis ainda são heterogêneas, fragmentadas e, muitas vezes, qualitativas demais para orientar decisões consistentes de investimento.
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“Nós carecemos de dados padronizados, de informações consistentes, principalmente para as entidades menores, que têm menos estrutura para produzir análises próprias”.
Silva destacou que essa falta de parâmetros comuns prejudica a uniformização das práticas ESG no setor e dificulta a integração completa desses fatores nos processos decisórios.
Como parte desse movimento de amadurecimento, ele revelou na entrevista ao Seu Dinheiro que a Previc (Superintendência Nacional de Previdência Complementar), órgão supervisor dos fundos de pensão, já está se movimentando para regulamentar a Resolução 5202/2025 de forma mais detalhada.
“A Previc já começou a chamar os fundos de acordo com seu porte patrimonial para reuniões e conversas técnicas, envolvendo os comitês de investimentos e de contabilidade”, disse o executivo.
O objetivo é emitir normativas complementares que padronizem os critérios de reporte e avaliação ESG, estabelecendo procedimentos e formatos mínimos para relatórios e análises, o que deve reduzir a disparidade entre os grandes e pequenos fundos.
A Resolução nº 5202/2025 foi aprovada em março pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) e definiu novas regras de investimentos para as entidades fechadas de previdência complementar.
Entre outras resoluções, a norma fortaleceu a inclusão dos aspectos ambiental, social e de governança na análise de risco dos investimentos das entidades de previdência complementar fechada. Também indicou a necessidade de dar transparência a tais impactos sobre as carteiras de investimentos.
Na prática, isso significa que os fundos precisarão mostrar como estão lidando com riscos como mudanças climáticas, práticas trabalhistas inadequadas ou problemas de governança corporativa nas empresas onde investem.
Além disso, a resolução do CMN incluiu a possibilidade das entidades de previdência investirem em créditos de descarbonização (CBIOs) até o limite de 3% dos recursos destinados a segmentos estruturados — uma medida de incentivo à substituição de combustível fóssil por biocombustíveis.
Casos Previ e Petros: referências nacionais
Silva aponta a Previ, fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, como o exemplo mais avançado no Brasil de adoção de critérios ESG no setor.
Maior fundo de pensão da América Latina, a Previ administra cerca de R$ 260 bilhões e possui uma área exclusiva dedicada à gestão ESG.
“A Previ desenvolveu metodologia própria, criou banco de dados e estabeleceu critérios objetivos para temas como trabalho infantil, indústria de armas e diversidade”.
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Segundo o executivo, a Previ está dialogando com a Abrapp sobre compartilhar sua metodologia ESG estruturada com outros fundos, como forma de acelerar a profissionalização do setor.
“É um modelo que gostaríamos de ver disseminado entre todas as associadas da Abrapp”, disse Silva.
Outro exemplo citado pelo presidente da Abrapp é a Petros, segundo maior fundo de pensão do país, com um patrimônio de mais de R$ 130 bilhões. Em nota enviada ao Seu Dinheiro, a entidade afirma estar comprometida com a incorporação de critérios ESG em seus processos de análise, decisão e monitoramento de investimentos.
Segundo a entidade, “as companhias que adotam as melhores práticas tendem a ser mais bem-sucedidas e proporcionam desempenho sustentável, perenidade e melhor relação risco-retorno”.
Para o futuro, Silva diz acreditar que a pauta ESG não será apenas uma obrigação regulatória universal, mas um diferencial competitivo estratégico entre os fundos de pensão. Ou seja, quem estruturar boas práticas e integrá-las de forma consistente aos seus investimentos terá vantagem sobre os demais.
Por que isso importa para o seu bolso
Ainda existe o mito de que investimentos ESG sacrificam rentabilidade. Silva rebate essa ideia:
“Plano de previdência é sinônimo de sustentabilidade. E sustentabilidade se constrói com boa governança, padrões justos e responsabilidade ambiental. Não queremos investir em ativos com data de validade. Queremos investimentos duradouros, que tragam retorno e alavanquem uma economia saudável para todos”.
Ele lembra que, no ambiente atual de juros elevados no Brasil, boa parte do dinheiro das entidades está aplicada em títulos públicos, mas que isso é circunstancial.
Para preservar e valorizar os recursos no tempo certo — ou seja, no momento da aposentadoria —, diversificação e investimentos responsáveis são fundamentais.
“Os fundos de pensão são parceiros naturais das grandes empresas brasileiras. E, nesse papel, podem e devem exigir padrões adequados de governança e responsabilidade socioambiental”.
Quando fundos de pensão investem mal, o prejuízo recai sobre os participantes pessoa física — que são os verdadeiros “donos do dinheiro”. Um investimento de risco ignorado ou mal gerido hoje pode comprometer o benefício de quem vai se aposentar amanhã.
Garantir que os critérios ESG sejam levados a sério é, antes de tudo, uma forma de proteger o patrimônio acumulado e assegurar o benefício no futuro. E como participante, você tem o direito — e o dever — de acompanhar, fiscalizar e cobrar isso.
Silva destaca os canais diretos de fiscalização para participantes de planos de previdência complementar: eles elegem representantes para conselhos deliberativo e fiscal, tendo acesso a informações de gestão e investimentos.
Se você participa de um fundo de pensão, vale:
- acompanhar os relatórios anuais de sustentabilidade e investimentos;
- participar dos processos eleitorais e assembleias;
- e cobrar transparência sobre políticas ESG e desempenho das carteiras.
A saúde financeira do seu benefício futuro e a proteção do seu patrimônio estão diretamente ligadas a essas decisões.
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