Felipe Miranda: Um conto de duas cidades
Na pujança da indústria de inteligência artificial e de seu entorno, raramente encontraremos na História uma excepcionalidade tão grande
"Era o melhor dos tempos, era o pior dos tempos, era a idade da sabedoria, era a idade da insensatez, era a época da crença, era a época da descrença, era a estação da Luz, era a estação das Trevas, era a primavera da esperança, era o inverno do desespero.”
Charles Dickens — Um conto de duas cidades
Em evento recente no Brasil, Howard Marks, que merecia nome de batismo melhor do que “guru de Warren Buffett”, alertou para a necessidade de separarmos o excepcionalismo norte-americano em dois grandes blocos. Se olharmos do ponto de vista macroeconômico, sistêmico e institucional, sob a ótica de Main Street, a expressão estaria se esfarelando. Já se a visão estiver circunscrita ao ambiente microeconômico, na pujança da indústria de inteligência artificial e de seu entorno, então poucas vezes encontraremos na História excepcionalidade tão grande.
- SAIBA MAIS: Receba uma carteira diversificada com recomendações de ativos para buscar ganho de capital apurada pela Empiricus Research; veja como
A preocupação sobre uma deterioração institucional dos EUA vem ganhando adeptos renovados a cada dia. Nesse final de semana, Thomas Friedman lembrou de sucessivas decisões de Donald Trump vistas tipicamente apenas em “Repúblicas das Bananas”. John Authers, colunista da Bloomberg, já havia identificado um processo de “Bananification" dos EUA na semana passada. Larry Summers comparou a recente demissão da responsável por dados do mercado de trabalho ao observado na Argentina de Kirchner.
As características estruturantes dos EUA enfrentam abalos sísmicos. Na edificação da “Democracia na América”, Tocqueville se impressionou com o Império da Lei, o respeito às regras e à impessoalidade. Era o inverso da afabilidade e cordialidade descritas em “Raízes do Brasil”, por exemplo. A falta de institucionalidade e o peso dado a laços pessoais por Trump parecem aproximá-lo de um caudilho latino-americano, o que talvez seja, em pouco tempo, uma ofensa aos latinos…
A região passa por uma onda contrária à esquerda populista clássica. Evidência mais emblemática na Argentina de Milei, a quem Niall Ferguson chamou de “Thatcher com esteróides”. Na Bolívia, de forma surpreendente, a eleição de segundo turno nem sequer terá um candidato da esquerda. Maduro está cada vez mais isolado na Venezuela.
Leia Também
Se a onda vai se transformar em tsunami e afetar o Brasil, é cedo para dizer. Mas é anedótico vermos Stanley Druckenmiller, que pegou na veia o rali de Argentina, agora montar uma posição ações brasileiras. O smart money se movimenta, talvez antecipando uma chance de rali eleitoral capaz de conferir interessante assimetria aos preços.
IA e o excepcionalismo norte-americano
Os números cheios, seja da economia, seja dos índices de ações, escondem a desconfiança crescente com o dólar e a hegemonia norte-americana por conta do estupendo vigor dos setores ligados à inteligência artificial.
Em sua apresentação mensal, a empresa de investimentos WHG trouxe dados interessantes a esse respeito, mostrando várias evidências dessa bifurcação.
Desde 2023, o índice da Goldman Sachs de semicondutores ligados à inteligência artificial sobe 312%; a parte analógica desse segmento se valoriza apenas 3% no mesmo intervalo.
Neste ano, um basket de semicondutores avança 19,4%, contra 9,3% de uma cesta de companhias de software.
Se olharmos por indústrias, aeroespacial sobe 52%, energia para IA avança 37%, bens industriais propriamente ditos se valorizam 5%, enquanto indústrias de ciclo curto perdem 5% e transportes recuam 18% na média do acumulado de 2025.
Os lucros para as Mag7 seguem sendo revisados para cima, enquanto, para a média do S&P 500 excetuadas essas empresas, há uma atualização para baixo de 8% nos lucros projetados desde junho de 2024.
A dicotomia cruza fronteiras: na Europa, uma cesta de energia atrelada à inteligência artificial se aprecia 21,5%, contra uma queda de 12,6% de uma cesta ligada ao consumo de luxo.
O megatrend global está na IA e em seu entorno. Tudo dentro dela; quase nada fora dela. Como lembra a própria WHG, o Brasil teria tudo para se beneficiar dessa grande tendência. Num mundo carente de energia, temos sobra de capacidade energética, com uma matriz 90% limpa, e amplo espaço para desenvolvimento de data centers. Só o Canadá seria um rival à altura.
Na corrida do ouro, quem mais ganha são os vendedores de pás e picaretas. Em vez de nos aproveitarmos disso, preferimos a briga com as big techs. Avançamos rumo à maior regulação e vemos nossa primeira dama dizendo aquela palavra começando com “F" para se referir a Elon Musk. Não parece ser a melhor diplomacia também nesse escopo.
Não há como ignorar uma das maiores revoluções tecnológicas e de produtividade da história da humanidade. Ainda faz sentido ao investidor ter exposição às big techs norte-americanas. Ao mesmo tempo, acreditar que o dólar continuará como a grande e inquestionável reserva de valor global (ao menos nas proporções atuais) diante de tantos ferimentos às boas e históricas instituições dos EUA parece negligenciar como impérios se desenvolvem e se destroem anos à frente. Os R$ 5,30 são logo ali…
As projeções para a economia em 2026, inflação no Brasil e o que mais move os mercados hoje
Seu Dinheiro mostra as projeções do Itaú para os juros, inflação e dólar para 2026; veja o que você precisa saber sobre a bolsa hoje
Os planos e dividendos da Petrobras (PETR3), a guerra entre Rússia e Ucrânia, acordo entre Mercosul e UE e o que mais move o mercado
Seu Dinheiro conversou com analistas para entender o que esperar do novo plano de investimentos da Petrobras; a bolsa brasileira também reflete notícias do cenário econômico internacional
Felipe Miranda: O paradoxo do banqueiro central
Se você é explicitamente “o menino de ouro” do presidente da República e próximo ao ministério da Fazenda, é natural desconfiar de sua eventual subserviência ao poder Executivo
Hapvida decepciona mais uma vez, dados da Europa e dos EUA e o que mais move a bolsa hoje
Operadora de saúde enfrenta mais uma vez os mesmos problemas que a fizeram despencar na bolsa há mais dois anos; investidores aguardam discurso da presidente do Banco Central Europeu (BCE) e dados da economia dos EUA
CDBs do Master, Oncoclínicas (ONCO3), o ‘terror dos vendidos’ e mais: as matérias mais lidas do Seu Dinheiro na semana
Matéria sobre a exposição da Oncoclínicas aos CDBs do Banco Master foi a mais lida da semana; veja os destaques do SD
A debandada da bolsa, pessimismo global e tarifas de Trump: veja o que move os mercados hoje
Nos últimos anos, diversas empresas deixaram a B3; veja o que está por trás desse movimento e o que mais pode afetar o seu bolso
Planejamento, pé no chão e consciência de que a realidade pode ser dura são alguns dos requisitos mais importantes de quem quer ser dono da própria empresa
Milhões de brasileiros sonham em abrir um negócio, mas especialistas alertam que a realidade envolve insegurança financeira, mais trabalho e falta de planejamento
Rodolfo Amstalden: Será que o Fed já pode usar AI para cortar juros?
Chegamos à situação contemporânea nos EUA em que o mercado de trabalho começa a dar sinais em prol de cortes nos juros, enquanto a inflação (acima da meta) sugere insistência no aperto
A nova estratégia dos FIIs para crescer, a espera pelo balanço da Nvidia e o que mais mexe com seu bolso hoje
Para continuarem entregando bons retornos, os Fundos de Investimento Imobiliários adaptaram sua estratégia; veja se há riscos para o investidor comum. Balanço da Nvidia e dados de emprego dos EUA também movem os mercados hoje
O recado das eleições chilenas para o Brasil, prisão de dono e liquidação do Banco Master e o que mais move os mercados hoje
Resultado do primeiro turno mostra que o Chile segue tendência de virada à direita já vista em outros países da América do Sul; BC decide liquidar o Banco Master, poucas horas depois que o banco recebeu uma proposta de compra da holding Fictor
Eleição no Chile confirma a guinada política da América do Sul para a direita; o Brasil será o próximo?
Após a vitória de Javier Milei na Argentina em 2023 e o avanço da direita na Bolívia em 2025, o Chile agora caminha para um segundo turno amplamente favorável ao campo conservador
Os CDBs que pagam acima da média, dados dos EUA e o que mais movimenta a bolsa hoje
Quando o retorno é maior que a média, é hora de desconfiar dos riscos; investidores aguardam dados dos EUA para tentar entender qual será o caminho dos juros norte-americanos
Direita ou esquerda? No mundo dos negócios, escolha quem faz ‘jogo duplo’
Apostar no negócio maduro ou investir em inovação? Entenda como resolver esse dilema dos negócios
Esse número pode indicar se é hora de investir na bolsa; Log corta dividendos e o que mais afeta seu bolso hoje
Relação entre preço das ações e lucro está longe do histórico e indica que ainda há espaço para subir mais; veja o que analistas dizem sobre o momento atual da bolsa de valores brasileira
Investir com emoção pode custar caro: o que os recordes do Ibovespa ensinam
Se você quer saber se o Ibovespa tem espaço para continuar subindo mesmo perto das máximas, eu não apenas acredito nisso como entendo que podemos estar diante de uma grande janela de valorização da bolsa brasileira — mas isso não livra o investidor de armadilhas
Seca dos IPOs ainda vai continuar, fim do shutdown e o que mais movimenta a bolsa hoje
Mesmo com Regime Fácil, empresas ainda podem demorar a listar ações na bolsa e devem optar por lançar dívidas corporativas; mercado deve reagir ao fim do maior shutdown da história dos EUA, à espera da divulgação de novos dados
Rodolfo Amstalden: Podemos resumir uma vida em uma imagem?
Poucos dias atrás me deparei com um gráfico absolutamente pavoroso, e quase imediatamente meu cérebro fez a estranha conexão: “ora, mas essa imagem que você julga horripilante à primeira vista nada mais é do que a história da vida da Empiricus”
Shutdown nos EUA e bolsa brasileira estão quebrando recordes diariamente, mas só um pode estar prestes a acabar; veja o que mais mexe com o seu bolso hoje
Temporada de balanços, movimentos internacionais e eleições do ano que vem podem impulsionar ainda mais a bolsa brasileira, que está em rali histórico de valorizações; Isa Energia (ISAE4) quer melhorar eficiência antes de aumentar dividendos
Ibovespa imparável: até onde vai o rali da bolsa brasileira?
No acumulado de 2025, o índice avança quase 30% em moeda local — e cerca de 50% em dólar. Esse desempenho é sustentado por três pilares centrais
Felipe Miranda: Como era verde meu vale do silício
Na semana passada, o mitológico investidor Howard Marks escreveu um de seus icônicos memorandos com o título “Baratas na mina de carvão” — uma referência ao alerta recente de Jamie Dimon, CEO do JP Morgan, sobre o mercado de crédito