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Há uma narrativa de que o bitcoin seria o “ouro digital”, mas existem motivos pelos quais o paralelo com o metal precioso não é tão correto assim
Poucas frases capturam tão bem o Zeitgeist envolvendo o fluxo de capitais global quanto aquela escrita por Michael Hartnett, do Bank of America Merrill Lynch: estou torcendo para que as ações subam mais do que o dólar vai cair.
A expressão simboliza a dicotomia da conjuntura.
Em favor de Wall Street, temos juros em queda e o excepcionalismo empresarial, sobretudo no ambiente ligado à inteligência artificial; esse último não só continua intacto como, talvez, tenha até se ampliado, como mostram os eventos recentes envolvendo Oracle e a agora ressuscitada Intel.
Do outro lado, cresce a desconfiança com a macroeconomia, diante de inflação ainda longe da meta informal de 2% e fraqueza do mercado de trabalho, e com as instituições norte-americanas.
No mais recente episódio da ofensiva contraliberal e contra a já velha Nova Ordem Mundial, temos a cobrança de US$ 100 mil para vistos H-1B, de consequências diretas sobretudo aos engenheiros indianos convocados pelo Vale do Silício. A típica atração de cérebros para as universidades Ivy League e para a fronteira da tecnologia empresarial encontra um ferimento.
Se estamos sob a égide do pós-liberalismo e da ruína da Ordem Mundial estabelecida pós-1945, o que há em seu lugar? Por ora, não sabemos.
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A geopolítica oferece, ao menos por enquanto, somente a desordem, a destruição do antigo, sem que nada muito claro esteja posto em seu lugar. Os paralelos com o populismo, o isolacionismo, o nacionalismo e o posterior militarismo da década de 30 são inevitáveis.
O final de semana trouxe a mais nova provocação russa com a invasão do espaço aéreo da Estônia. É só um capítulo adicional na tensão geopolítica na região. A União Europeia recomenda há meses que sua população mantenha uma espécie de kit de emergência, com estocagem de alimentos não-perecíveis, água, medicamentos e outros itens essenciais para pelo menos três dias de crise. Não é um cenário usual.
Enquanto escrevo estas linhas, o ouro marca novo recorde histórico, em torno de US$ 3.500. As criptomoedas seguem o caminho oposto: o bitcoin cai 2,5%, o ethereum (ETH) perde 6,5%, solana (SOL) recua 7%.
Há uma narrativa mais apaixonada de que o bitcoin (BTC) seria o "novo ouro" ou “ouro digital”.
Embora sejamos grandes defensores das criptomoedas e, de algum modo, até precursores dessa história no Brasil, recomendando a nossos clientes uma alocação na classe desde 2015, não concordamos com o paralelo com o metal precioso.
Aponto duas razões principais para isso.
A primeira é que o ouro tem em seu favor o teste do tempo. Podemos olhar para o passado e inferir, a partir dele, um provável comportamento futuro da commodity numa eventual terceira grande guerra.
E o que aconteceria com o bitcoin num contexto assim? Não sabemos, não temos dados. Podemos inferir, elucubrar, construir premissas, mas tudo isso estará apenas no campo da especulação.
Na dúvida, com o benefício da validação empírica e daquilo que Nassim Taleb chama de Lindy Effect (aquilo que resistiu à passagem do tempo merece prêmio, pois demonstrou capacidade de sobreviver a choques), compramos ouro.
Além disso, o valor de algo que tem prêmio de escassez (tanto ouro quanto bitcoin gozam de oferta limitada) mas não tem valor intrínseco, no sentido de que não podem ser avaliados pela soma dos seus fluxos de caixa futuros trazidos a valor presente (pois não dispõem de fluxos de caixa), depende da percepção de valor.
A aceitação do valor do ouro na sociedade (no cidadão médio) é muito mais disseminada, validada e testada do que o do bitcoin.
Se ainda há dúvida de quem é o vencedor nos choques, basta olhar para a tela hoje. A realidade objetiva é informativa.
Numa das inversões de valores típicas dos modismos desafiantes da racionalidade, o Brasil conta com muito mais investidores de criptomoedas do que de ouro.
Essa não é uma tradição de países desenvolvidos nem de nossos vizinhos da América Latina, onde o metal precioso aparece com muito mais frequência nos portfólios das pessoas físicas do que por aqui.
Seguimos na missão de convencer investidores pessoas físicas a diversificar suas carteiras com a posição em ouro. Pode ser via fundos, via contratos futuros, ETFs, barras físicas, mineradoras do metal ou FIPs específicos oferecidos a investidores profissionais ou qualificados.
Seja lá como for, enquanto se persegue o ouro digital ou a inteligência artificial, continuará difícil ensinar truques velhos para cães novos. A melhor resposta a tudo isso ainda é o velho e bom ouro.
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