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A chegada da IA coloca em xeque o modelo de buscas na internet, dominado pelo Google, e, por tabela, a dinâmica de distribuição de conteúdo online
Há um desconforto crescente na indústria de mídia com o uso do conteúdo de sites, jornais e revistas para treinamento de serviços de inteligência artificial (IA). O motivo é que, salvo raras exceções, as empresas de tecnologia não estão pagando nada para os produtores de conteúdo.
Em um dos movimentos mais relevantes da indústria, o The New York Times entrou com um processo por violação de direitos autorais contra a Open AI, dona do ChatGPT, e a Microsoft, em dezembro de 2023.
E não é o único caso de Justiça. Cinco empresas de mídia do Canadá se uniram para processar a Open AI, assim como um grupo de publishers indianos e a Authors Guild, entidade que representa os escritores profissionais nos Estados Unidos. Todos questionam o uso de seus conteúdos para treinar IAs sem autorização (ou melhor, remuneração).
A reação da indústria de mídia vem também no front tecnológico. Neste mês, a Cloudflare, empresa que oferece serviços de segurança e tecnologia para milhões de sites no mundo, lançou um serviço de bloqueio de robôs de IA, o “pay per crawl” (pagamento por rastreamento, em português).
O serviço permitirá que os donos dos sites gerenciem quais robôs podem acessar seu conteúdo e cobrem pelos acessos de IA. Seus novos clientes já virão com o bloqueio habilitado como padrão.
A chegada da IA coloca em xeque o modelo de buscas na internet, dominado pelo Google, e, por tabela, a dinâmica de distribuição de conteúdo online.
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Existe uma espécie de “acordo tácito” vigente: os publishers permitem que o Google liste seus artigos no resultado das buscas em troca da chance de ter um “clique”.
Vale lembrar que os sites de notícias só ganham dinheiro quando recebem o acesso aos seus links, com exibição de anúncios ou com a possibilidade de vender assinaturas. Ninguém é remunerado simplesmente por “aparecer” na busca do Google.
Com a IA, é diferente. O conteúdo é acessado pelo “robô”, que usa as informações para gerar uma resposta mais completa para o usuário. Alguns serviços colocam o link de referência, mas os acessos não compensam a queda nos cliques das buscas “tradicionais” no Google.
O próprio Google está mudando seu modelo de buscas para priorizar resultados mais completos, que são “resumos” feitos por IA do que ele encontrou na internet, o chamado AI Overview.
Desde o seu lançamento nos Estados Unidos, em maio do ano passado, o volume de buscas que rendem “zero clique” subiu de 56% para 69%, de acordo com relatório do SimilarWeb.
A nova realidade da internet é preocupante para a indústria de notícias. Se novas fontes de tráfego ou receita não forem desenvolvidas, certamente assistiremos a uma onda de falências na imprensa mundial. Mas isso é tema para outro artigo…
Algumas das big techs partiram para a negociação de acordos de licenciamento de conteúdo com empresas de mídia.
O New York Times, por exemplo, anunciou um acordo recente com a Amazon, que permitirá o uso do seu conteúdo para treinar IAs e abastecer serviços como a Alexa com resumos de notícias.
As negociações estão a todo vapor. Veja só alguns acordos de licenciamento de conteúdo e divisão de receitas publicitárias anunciados desde 2024, segundo o relatório “Innovation in News Media”, da associação global de veículos jornalísticos Wan-Ifra:
É comum que acordos comerciais estratégicos evoluam para fusões e aquisições. A minha visão de futuro é que o próximo passo da corrida de IA passará pela compra de jornais e editoras por empresas de tecnologia.
A disponibilidade de conteúdo para treinar IAs é estratégica. Não só para evitar brigas judiciais, mas também para ter acesso a conteúdos fechados e arquivos, muitas vezes, centenários. O acesso a conteúdos de qualidade pode fazer “a diferença” na competição entre os serviços de IA.
Hoje existem soluções parecidas no mercado. E praticamente todas têm problemas de qualidade: conteúdo “genérico”, “alucinações” e informações incorretas.
Meu palpite é que vamos assistir nos próximos anos a uma corrida pela qualidade, que será decisiva para definir quem será o líder nessa categoria. Certamente, aqueles que treinarem suas IAs com as melhores informações, terão uma vantagem competitiva.
Se, por um lado, a inteligência artificial é uma ameaça para a indústria de mídia, por outro, abre uma nova janela de oportunidade para monetização. Conteúdo de qualidade vale dinheiro na era da IA. Resta saber quem vai conseguir fazer as big techs pagarem a conta.
Um abraço e ótimo domingo!
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