Guerra comercial de Trump pode pôr fim à exuberância da bolsa dos EUA, diz gestora de Ray Dalio
Bridgewater envia uma mensagem clara: não se pode mais confiar nos EUA como um parceiro consistente — e lista quatro fatores que comprovam essa tese e podem mexer com os investimentos

Quando um dos maiores fundos de hedge do mundo faz uma previsão, os investidores param para ouvir. Quando essa previsão compara o ambiente de transformação atual da bolsa americana à crise financeira de 2008 e aos eventos ligados à pandemia de covid-19, a atenção deve ser redobrada — e é isso que o Bridgewater Associates, do bilionário Ray Dalio, fez.
Em carta intitulada “O Preço da Nova Ordem Econômica de Trump Pode Ser o Fim do Desempenho Superior dos Ativos dos EUA”, Greg Jensen, Danny DeBois e Ben Park dizem que um aumento tarifário da magnitude do que foi anunciado pelo presidente norte-americano apresenta desafios sem precedentes para economias tão integradas como a de EUA, Canadá e México.
“Embora a trajetória de curto prazo dessas tarifas permaneça incerta, com possíveis alívios para o Canadá e o México, a mensagem para os parceiros comerciais dos EUA é clara: não se pode mais confiar nos EUA como um parceiro consistente”, diz o trio.
Segundo eles, o cenário atual “se assemelha a uma mudança secular que os mercados demorarão a precificar totalmente, semelhante à crise financeira global e à mudança acelerada para a coordenação fiscal-monetária impulsionada pela covid-19”.
Jensen, DeBois e Park apresentam quatro fatores que justificam o alerta aos investidores e o Seu Dinheiro conta os principais pontos a partir de agora.
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Com Trump, o ambiente fica mais perigoso para a bolsa americana
De acordo com o trio, o ambiente para os ativos dos EUA tornou-se significativamente mais perigoso devido a quatro fatores principais:
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1. Os preços dos ativos norte-americanos exigem um grande superávit de capital dos EUA
Um ponto de partida fundamental para entender o quão arriscados são os mercados de ativos dos EUA nesta nova ordem mundial é entender o quão dependentes os preços dos ativos dos EUA estão dos fluxos financeiros de seus parceiros.
O mercado de ações dos EUA representa mais de 70% das ações globais negociadas publicamente. Isso significa que, para sustentar os níveis atuais do mercado de ações dos EUA em uma base relativa, os EUA precisam atrair 70 centavos de cada dólar economizado em ações globais. Esses níveis exigem fluxos altos contínuos do resto do mundo.
Os mercados de ativos dos EUA são muito mais dependentes de investidores estrangeiros do que o contrário.
“Há um risco direto de que medidas comerciais agressivas contra os principais parceiros comerciais dos EUA prejudiquem o desejo de injetar recursos em ativos norte-americanos, seja por meio de pressões orgânicas para boicotar os mercados dos EUA ou de diretrizes governamentais de cima para baixo para diversificação em outros mercados”, dizem os gestores.
2. Empresas dos EUA precisam de cooperação global
Por meio de uma combinação de engajamento econômico global, garantias de segurança para os principais parceiros comerciais e incentivos por meio do acesso aos seus mercados, os EUA criaram um conjunto de instituições globais que lançaram as bases para o excepcionalismo corporativo norte-americano.
Embora os EUA constituam aproximadamente 20% do PIB global, suas empresas têm um desempenho significativamente superior em relação ao peso da economia, ficando com 40% dos lucros globais.
Este é o resultado de instituições internacionais que permitiram que as empresas dos EUA operassem no exterior e competissem de forma justa — com grande parte do aumento vindo da China e com os principais parceiros comerciais, como a Europa, permanecendo uma fonte importante de lucros.
“Embora a economia norte-americana seja comparativamente mais resistente a uma guerra comercial do que seus parceiros comerciais porque importa mais do que exporta, as empresas dos EUA são consideravelmente mais vulneráveis”, dizem os gestores.
Eles alertam que, nesse cenário, a retaliação não tarifária direcionada aos lucros das empresas norte-americanas por países que enfrentam as taxações de Trump é um risco fundamental.
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3. O forte crescimento dos lucros dos EUA tem sido, em parte, consequência direta do aumento dos déficits fiscais
Os fortes lucros das empresas norte-americanas nos últimos anos foram diretamente possibilitados por grandes déficits fiscais.
Em nível de economia, a poupança total entre os setores precisa somar o investimento total e, para que os lucros corporativos aumentem, algum outro player na economia deve gastar.
Desde a covid-19, o setor que mais gastou nos EUA — isto é, tomou emprestado — foi o governo. Esses déficits abriram caminho pela economia dos EUA para apoiar os lucros corporativos de várias maneiras.
Um exemplo é a transferência de renda para as famílias, que compensou a perda de renda privada durante o choque da covid-19, o que permitiu que as empresas dos EUA coletassem receitas mais altas do setor familiar sem pagar salários correspondentemente mais altos.
Outro canal, mais direto de déficits fiscais apoiando os lucros corporativos, foi o corte de impostos corporativos de Trump.
“Permanece considerável incerteza sobre a trajetória da política fiscal a partir daqui, e cortar significativamente os gastos será politicamente desafiador”, dizem Jensen, DeBois e Park.
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4. O Fed está começando a enfrentar mais uma restrição de inflação
O ciclo de flexibilização do Federal Reserve (Fed) no ano passado foi particularmente otimista para a bolsa americana porque foi preventivo — o crescimento ainda não havia perdido força e a inflação estava moderando, o banco central norte-americano cortou os juros para sustentar a expansão atual em vez de esperar para compensar uma desaceleração.
Com a inflação mais persistente e as tarifas — pelo menos no curto prazo — provavelmente impulsionando os preços para cima, é muito mais difícil para o Fed ser proativo.
“Embora esperemos que o Fed reduza as taxas se o desemprego aumentar significativamente, com a inflação onde está e um alto grau de incerteza política, o banco central ficará para trás desse movimento em vez de evitá-lo. Essa é uma situação muito mais perigosa para os preços de ativos esticados”, dizem.
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