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Julia Wiltgen

Julia Wiltgen

Jornalista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) com pós-graduação em Finanças Corporativas e Investment Banking pela Fundação Instituto de Administração (FIA). Trabalhou com produção de reportagem na TV Globo e foi editora de finanças pessoais de Exame.com, na Editora Abril. Hoje é editora-chefe do Seu Dinheiro.

RENDA FIXA

O Brasil vai virar a Turquia? Veja por que você deveria ter títulos indexados à inflação na carteira (e agora é uma boa hora de comprar)

Estudo da TAG Investimentos analisa se a inflação brasileira pode se descontrolar, mas o juro real ficar negativo, como ocorre no país europeu

Julia Wiltgen
Julia Wiltgen
19 de julho de 2024
7:13 - atualizado às 13:50
Dragão da inflação em frente à bandeira da Turquia
Gestora testa se a regra de bolso para comprar Tesouro IPCA+, de comprar com a taxa a 6% e vender a 4%, tem respaldo na realidade. Imagem: ChatGPT

A Turquia tem hoje uma das maiores taxas de juros nominais (50%) e de inflação (em torno de 70%) do mundo. E como se pode ver, a política monetária do país não é restritiva, dado que seus juros reais (a diferença entre os dois indicadores), são negativos.

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No Brasil, a Selic está em 10,50%, ainda um patamar restritivo, mas a inflação vem dando sinais de estar controlada. O que preocupa os mercados por aqui é o risco fiscal, com a necessidade de o governo cortar gastos, o que ele reluta em fazer ao mesmo tempo em que clama por uma taxa de juros mais baixa num cenário de crescimento econômico.

Nesse cenário, haveria chance de o Brasil acabar “virando” uma Turquia, isto é, com uma política monetária frouxa enquanto assiste a uma escalada inflacionária?

A gestora TAG Investimentos publicou, nesta quinta-feira (18), um relatório onde analisa a possibilidade de este sombrio futuro ser o destino do Brasil. O relatório assinado pelo CIO da casa, André Leite, parte de uma afirmação feita recentemente por “um gestor de fundos multimercado” de que o Brasil estava “no caminho de virar uma Turquia”.

Leite supostamente se refere a uma entrevista dada recentemente por Márcio Appel, sócio e gestor da Adam Capital, em que ele disse que o Brasil “está caminhando na direção da Turquia”, no sentido de que aqui, como no país europeu, a inflação tende a acelerar (e será crescente ao longo do tempo), e os juros subirão com atraso.

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Na ocasião, Appel se mostrou pessimista com a política fiscal do governo Lula, pois acredita que o ajuste que deveria ser feito não virá.

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O Brasil vai virar a Turquia?

Logo no início do relatório, Leite diz que a afirmação “não para de pé em um exame minimamente atento.”

Em primeiro lugar porque, diferentemente da Turquia, o Brasil não tem problemas nas contas externas, não correndo o risco de uma desvalorização cambial da mesma magnitude que a lira turca, uma vez que temos mais de US$ 300 bilhões em reservas e nossas contas externas são equilibradas.

“Em segundo lugar, temos um sistema político onde o establishment atua como uma mola: não nos deixa avançar muito em reformas, mas quando a coisa azeda, também não nos deixa pular no abismo”, diz o CIO da TAG no relatório.

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Ele cita o exemplo recente de quando o presidente Lula autorizou cortes de gastos e sinalizou compromisso com o arcabouço fiscal como consequência de um “enquadramento” do “establishment político e econômico”.

“Mesmo em um cenário onde Lula esticasse as cordas, as consequências em termos de desemprego, inflação e insatisfação popular fariam com o seu governo tivesse vida curta, não indo além de 2026. Ou eventualmente até antes, como no caso de Dilma. Já tivemos essa experiência”, afirma Leite.

O CIO da TAG frisa ainda o papel que as contas externas ruins têm em dinâmicas econômicas como as da Turquia e da Argentina. “Você ter as contas externas equilibradas (isto é, não há falta de dólares), mesmo em um cenário fiscal ruim, te dá algum tempo e tranquilidade de corrigir os rumos fiscais sem crises cambiais rápidas e fulminantes”, diz.

Onde investir se o Brasil virasse a Turquia (ou a Argentina)?

Mesmo considerando o cenário Turquia improvável, a TAG admite que esse tipo de lembrança incomoda e “nos faz repensar o status imbatível dos investimentos pós-fixados no CDI”. Afinal, num ambiente de juro real negativo, investimentos atrelados à taxa básica de juros não preservam seu poder de compra, pois perdem da inflação.

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Nesse sentido, quais seriam os investimentos que atuariam como portos seguros em um cenário de inflação descontrolada e juros nominais elevados, porém inferiores aos índices de preços? A gestora elenca três:

  • Dólar, que se valorizaria muito num cenário como esse;
  • Títulos públicos indexados à inflação (Tesouro IPCA+), que garantem juro real positivo, isto é, um ganho já conhecido e fixado acima da inflação no vencimento;
  • Ativos reais, como imóveis e ações, que nessas escaladas inflacionárias preservam seu poder de compra. A TAG lembra inclusive que o Merval, principal índice de ações da Argentina, acompanhou a inflação do país por todos esses anos.

Numa hipótese de acontecer algo como ocorreu na Argentina, com o índice de preços oficial sendo manipulado pelo governo, aí o dólar seria realmente a melhor pedida, enquanto os títulos Tesouro IPCA+ falhariam em proteger da inflação. Ativos reais também seriam capazes de continuar protegendo o poder de compra.

Lembrando que se a inflação subir demais, a partir de um certo ponto a tributação dos títulos públicos indexados ao IPCA faz com que o retorno do papel também não seja capaz de vencer a inflação, como mostramos nesta outra matéria. Para situações assim, investimentos atrelados à inflação, mas isentos de IR, seriam mais adequados.

A regra de bolso se aplica: agora é um bom momento para comprar títulos indexados à inflação

E quando colocar Tesouro IPCA+ na carteira? No mesmo relatório, a TAG faz um estudo que confirma que a regrinha de bolso do mercado financeiro – compre quando o juro real estiver a 6% ou mais e venda quando estiver a 4% ou menos – tem respaldo na realidade.

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Os títulos indexados à inflação pagam uma taxa prefixada mais a variação de um índice de preços. E quanto maior a taxa prefixada, menor o preço do título, e vice-versa. Assim, quando as taxas estão mais elevadas, os papéis estão mais baratos, fazendo mais sentido comprar do que quando as taxas estão baixas e os preços altos – momento em que seria mais propício vender e realizar o lucro antes do vencimento.

“Como todo investimento, quanto mais barato se paga, maior é a margem de segurança e maiores são as chances de sucesso”, diz o relatório da TAG.

Leite lembra que o IMA-B – índice de mercado que acompanha o desempenho dos preços de uma cesta de títulos públicos indexados à inflação – e suas variantes têm desempenho histórico acima do CDI, do IHFA (índice de multimercados) e bem acima do Ibovespa.

Segundo o CIO da TAG, um dos motivos (ocultos) da boa performance do IMA-B sobre as outras classes de ativos é que o mercado subestima a inflação realizada um ano à frente, em média em 0,9% ao ano.

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Assim, se à primeira vista o investimento em Tesouro IPCA+ não se mostra interessante, as surpresas inflacionárias acabam fazendo com que o desempenho dos títulos também surpreenda positivamente.

O estudo da TAG mostra as probabilidades de sucesso de acordo com o nível de taxa que se investe nos títulos indexados à inflação. Assim, foram analisadas as médias das taxas praticadas pelos vértices disponíveis desses papéis em janelas móveis de 1 a 5 anos desde 2006. Com isso, foram medidos os percentuais dessas janelas que batem o CDI por preço de compra.

Fonte: TAG Investimentos

Em seguida, a TAG analisou o percentual de tempo em que o investimento em Tesouro IPCA+ esteve acima do CDI.

Fonte: TAG Investimentos

A conclusão foi que os títulos indexados à inflação que têm uma taxa prefixada de 6% ao ano ou mais tendem a ganhar do CDI, seja medindo o percentual de janelas temporais ou o percentual de tempo em que ficam acima da taxa básica de juros. E tudo isso com a correção pela inflação, que o CDI não tem.

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Além disso, a probabilidade de bater o CDI aumenta quanto maior for o período de alocação – de fato, os títulos indexados à inflação são normalmente indicados para objetivos de prazos maiores.

Nesse sentido, no momento atual os títulos Tesouro IPCA+ se mostram bastante atrativos. Todos os vencimentos disponíveis no Tesouro Direto hoje em dia estão pagando acima de 6% ao ano mais IPCA.

O investidor só precisa ter estômago para aguentar as oscilações de preços, pois altas nos juros futuros tendem a desvalorizar esses papéis, fazendo com que ele veja um desempenho negativo na carteira.

“Historicamente, compras feitas nestes pontos (como agora) são o plantio de períodos futuros de bom desempenho, naturalmente desde que o investidor tenha o sangue frio de suportar a volatilidade e a marcação a mercado que estes momentos trazem. Via de regra os bons pontos de compra são períodos turbulentos e voláteis”, diz o CIO da TAG.

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VEJA TAMBÉM: OS FUNDOS DE RENDA FIXA COM DUPLA ISENÇÃO DE IR: UMA CONVERSA SOBRE FI-INFRAS

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