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Seja para bancar uma viagem, quitar alguma dívida em moeda forte ou proteger uma parte do portfólio, especialistas avaliam que é hora de comprar
A cotação do dólar em relação ao real vem batendo recorde atrás de recorde. Mas, se você anda matutando se deve investir uma parte de suas economias na moeda norte-americana, se compra dólares agora ou espera para ver se o preço baixa um pouco, a dica dos especialistas é: compre, de uma vez só ou aos poucos, não importa.
Seja para bancar os custos de uma viagem neste segundo semestre, para quitar alguma dívida em dólares ou proteger uma parte do patrimônio em moeda forte, não vale a pena esperar.
O senso comum é que dificilmente as cotações irão baixar. “O ponto ideal de compra é praticamente impossível de alcançar”, avisa Martin Iglesias, líder em investimentos e alocação de ativos do Banco Itaú.
“A tendência de longo prazo é a desvalorização do real”, complementa Caio Fasanella, economista-chefe da Nomad. “Nos últimos 10, 15, 20 anos, o que vimos como tendência foi o real desvalorizando”, reforça.
Vale destacar que as entrevistas para esta reportagem foram realizadas na primeira semana de junho, portanto antes do rali experimentado no mercado de câmbio no início de julho, quando o dólar chegou a R$ 5,70 no intraday.
“Nosso direcionamento é que todo brasileiro deveria ter uma parte do patrimônio dolarizado, como forma de se proteger da desvalorização contínua do real e da volatilidade do câmbio”, complementa Fasanella.
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“O dólar vai continuar com uma dinâmica positiva, por conta do posicionamento econômico dos EUA. Eles continuam drenando recursos do resto do mundo e isso faz com que as moedas globais se enfraqueçam”, afirma João Piccioni, CIO da Empiricus Gestão.
“Sob o olhar de alocação (de recursos), a hora é do dólar ou de ativos dolarizados”, avalia Gabriel Tossato, especialista em investimentos da Ágora Investimentos. Ele recomenda que as aplicações na divisa norte-americana alcancem até 7% da carteira, isso pensando em um investidor de perfil mais arrojado, ressalva.
Segundo Piccioni, vários fatores devem manter o dreno de dinheiro voltado para a economia norte-americana. É lá que ocorre toda a efervescência das companhias em busca da inovação em inteligência artificial e nas melhores formas de usá-la.
Além disso, o CIO da Empiricus afirma que os títulos do Tesouro norte-americano continuam a pagar bons prêmios, o país é centro dos negócios com criptomoedas, e eles são hoje os maiores produtores mundiais de petróleo.
“Vemos as bolsas dos EUA para cima nos próximos seis meses”, acrescenta.
Piccioni recomenda ao investidor que quer comprar dólares que seja recorrente, dividindo as compras ao longo do tempo. “Mas, se você tem dinheiro, entrar de uma vez também é bom. Especialmente se quiser comprar ativos de risco, negociados na Nyse ou na Nasdaq”, diz.
“Se a pessoa não tem uma posição [na moeda norte-americana] pode ir comprando ao longo do tempo”, concorda Iglesias, do Itaú. Se o investimento é de longo prazo, o importante é ter exposição em dólar, especialmente em ativos financeiros.
Na hora de decidir em que classe de ativos investir os recursos, as opiniões se dividem. Há quem priorize os papéis de renda fixa e aqueles que avaliam ser mais interessante ter os recursos em renda variável. Outros entendem que diversificar entre as classes é uma opção importante.
Iglesias comenta que os Treasurys, como são chamados os títulos do Tesouro norte-americano, estão pagando rendimento de até 4% em dólares, o que é bastante atrativo. “É uma rentabilidade que não vemos há tempos.”
Além disso, Iglesias afirma que outra opção de alocação pode ser os bônus corporativos de empresas dos EUA que tenham “investment grade”, avaliação de baixo risco.
“Há bônus de companhias com rendimento maior do que os títulos do Tesouro norte-americano. Tanto os próprios Treasurys como esses bônus são espécies de investimentos resilientes. E ambos em renda fixa.”
Piccioni, CIO da Empiricus, diz preferir menos os papéis de renda fixa que os de renda variável.
“O investidor de renda fixa nos EUA está contando com a queda dos juros. Eu acho que a probabilidade de o Fed [Federal Reserve, o banco central norte-americano] não baixar aumentou muito e isso é um sinal de que a economia norte-americana está saudável e não o contrário”, justifica.
Segundo ele, as taxas pagas hoje pelos títulos norte-americanos de dois anos estão maiores do que aquelas para os papéis com prazo maior, de dez anos. O correto, na opinião do especialista, seria o contrário, o mais longo pagar mais. “Tenho receio dos Treasurys por conta dessa característica.”
Pelas contas de Piccioni, a valorização do S&P 500, o índice com as ações mais negociadas na Nyse, a Bolsa de Nova York, teve uma valorização de 12% ao ano nos últimos dez anos.
Se olharmos para o Nasdaq, o índice da bolsa de empresas de tecnologia, a valorização foi de 19% ao ano, também nos últimos dez anos.
“Por isso, estamos vendo o ‘bull market’”, afirma Piccioni para justificar sua preferência pela renda variável.
Na hora de selecionar setores, ele sugere as companhias de tecnologia. Esse setor vem em um movimento contínuo de inovação, que começou com a criação da inteligência artificial, passou pelo boom das big techs e agora o que se vê são as empresas implementando inteligência artificial (IA) em negócios B2B.
“Faltava alguém inovando no uso da IA no B2C. E a Apple fez isso recentemente” ao anunciar o uso de IA nos seus celulares, afirma o executivo.
“O que veremos no segundo semestre são essas duas frentes evoluindo”, diz, em referência ao uso de inteligência artificial tanto nos negócios entre companhias como para o consumidor final.
Além das companhias de tecnologia, Piccioni diz olhar com interesse para as empresas do setor de turismo e de biotecnologia.
Esses são os mesmos segmentos apontados como prioridade para investimentos no exterior por Vitor Melo, estrategista de ações globais do banco BTG Pactual.
Ele diz ter preferência pelas “magnificent seven”, em referência às sete companhias mais procuradas nas bolsas dos EUA.
As “magnificent seven stocks” são as ações queridinhas dos investidores no mercado norte-americano. É um grupo formado por Alphabet (GOOG), Amazon (AMZN), Apple (AAPL), Meta (META), Microsoft (MSFT), Nvidia (NVDA) e Tesla (TSLA), representantes de setores como serviços tecnológicos, tecnologia, varejo, bens duráveis e até automóveis elétricos.
“Dos 24% a 25% que o S&P 500 subiu no ano passado, 75% foram por conta da valorização das empresas mais negociadas”, calcula Melo.
Para ele, os setores prioritários para investimento nos EUA são tecnologia da informação, saúde e financeiro. Em saúde, as apostas são para os laboratórios voltados para as drogas antiobesidade, como o Ozempic.
“O setor financeiro teve uma recuperação muito importante após a crise dos bancos regionais no ano passado. Os grandes bancos estão com rentabilidade boa”, avalia.
Segundo Melo, os preços das ações dos grandes bancos estão descontados em relação ao mercado.
“O S&P 500 está negociando em torno de 22 vezes o lucro, enquanto os grandes bancos negociam a 11 vezes o lucro. Esse gap é o maior patamar histórico”, justifica o especialista do BTG Pactual.
Para investir em ações ou renda fixa no exterior, hoje há vários bancos que oferecem a abertura de conta em dólares e opções para investimentos.
Uma parte dos investidores brasileiros é avessa a abrir conta no exterior para a compra de ativos. Para estes, os especialistas também têm recomendações se o objetivo é ter uma parte das reservas dolarizadas.
Segundo Iglesias, do Itaú, vale a pena investir em BDRs de empresas norte-americanas se a intenção é dolarizar os recursos.
Os BDRs ou Brazilian Depositary Receipts são certificados de ações de outros países negociados na B3, a bolsa brasileira. O mecanismo para comprar esses papéis é o mesmo que para o investimento em uma ação brasileira. É necessário procurar uma corretora ou plataforma de investimentos, abrir uma conta e começar a operar.
Outra opção nesse sentido são os fundos administrados por instituições brasileiras, mas com ativos de companhias norte-americanas no portifólio.
Há fundos só com empresas de tecnologia, fundos com outras ações que não de tecnologia, além dos fundos multimercados com várias teses e várias geografias, lembra Piccioni, da Empiricus.
Outra possibilidade, diz Tossato, da Ágora, são os ETFs. Os Exchanged Traded Funds são fundos de investimentos baseados em índices que têm suas cotas negociadas em bolsa.
Na B3 há dezenas de opções. “Uma opção é investir em ETFs, para quem quer uma alocação mais passiva”, avalia. O caminho para investir em ETFs é o mesmo que para BDRs ou ações brasileiras.
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