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Na visão de Sobral, o Copom deve elevar a Selic em 0,5 ponto percentual hoje, para 11,25% ano
Com a prévia da inflação de outubro indicando que o IPCA deve encostar no limite da meta do Conselho Monetário Nacional (CMN) e os economistas consultados pelo Banco Central prevendo que o teto deve ser estourado neste ano, o Comitê de Política Monetária do BC (Copom) chega para a reunião desta quarta-feira (4) com poucas opções na mesa.
É o que diz o economista-chefe da Neo Investimentos, Luciano Sobral. Na visão de Sobral, o cenário atual força uma aceleração no ritmo do aperto monetário na taxa básica de juros brasileira. Assim, o Copom deve elevar a Selic em 0,5 ponto percentual hoje, para 11,25% ano.
“A perspectiva de inflação piorou, estamos trabalhando com câmbio mais depreciado e, olhando para fiscal, seguimos sem ter uma resolução para a ancoragem das expectativas. Então tem muita coisa que atrapalha o Copom na missão de tentar baixar a inflação e é preciso trabalhar com o juro mais alto mesmo”, diz o economista em entrevista ao Seu Dinheiro.
Vale relembrar que a Selic subiu pela primeira vez em mais de dois anos no mês de setembro. Mas, apesar do longo intervalo entre altas, o aperto ocorreu apenas dois meses após o BC encerrar um ciclo de cortes nos juros.
De lá para cá, o quadro interno e externo não aliviou a situação para o Copom. Pelo contrário, a eleição presidencial em curso nos Estados Unidos — considerada uma das mais acirradas da história do país — e a manutenção das preocupações com o cenário fiscal doméstico seguiram atrapalhando a performance dos ativos de risco e do câmbio.
O dólar subiu 6% em outubro e iniciou novembro no maior nível em mais de quatro anos, fechando o primeiro pregão do mês com a segunda maior cotação desde o início do plano real. “O real mais desvalorizado num país que tem repasse alto vira inflação lá na frente”, afirma Sobral.
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Do lado fiscal, o governo planeja anunciar um novo corte de gastos. Mas, para o economista, as medidas devem ser pouco para a situação atual e chegarão tarde.
“Não vejo disposição do governo de vir com um pacote de medidas que de fato vai ancorar o crescimento das despesas e fazer com que o mercado fique menos pessimista com a trajetória da dívida. Não está no DNA desse governo.”
Confira abaixo os principais destaques da entrevista com Luciano Sobral, que conta até onde acredita que deve ir o novo ciclo de alta da Selic e o que fazer com os seus investimentos nesse cenário.
Acredito que ele de fato vai aumentar a Selic em meio ponto percentual. O Copom tem pouca opção na mesa a não ser ajustar o juro para cima pelo conjunto da obra: a perspectiva de inflação piorou, estamos trabalhando com câmbio mais depreciado e, olhando para fiscal, seguimos sem ter uma resolução para a ancoragem das expectativas.
A inflação tem subido tanto no curtíssimo prazo, que a gente mede no mês a mês, quanto no projetado para o ano que vem.
Não sabemos se ano que vem o governo gasta mais ou menos e temos uma desconfiança enorme. Não do arcabouço em si, mas da capacidade dele fazer com que a relação entre a dívida e o PIB fique estável ou em um crescimento mais ameno.
Ano que vem entramos no período de decisão sobre o orçamento que será executado no ano de eleição, então tem muita coisa pendurada que atrapalha o Copom na missão de tentar baixar a inflação.
Acreditamos que a Selic terminal vai parar em 12,5%, no começo do ano que vem.
Têm dois fatores, sobretudo de cenário, em que erramos ao longo deste ano. Assim como quase todo mundo, tínhamos na cabeça o cenário em que o BC cortaria bastante os juros e conseguiria ficar com as taxas mais baixas, até em um dígito, por bastante tempo.
No meio do caminho, o que aconteceu? Tivemos uma desvalorização do câmbio que não estava na conta. E não estou nem falando dessa desvalorização mais recente, que tem acompanhado os outros emergentes, mas sim daquele período entre abril e junho em que o Brasil patinou sozinho. Foi a época em que o Lula aumentou o tom contra o Banco Central, em que ficou claro que o próximo presidente do BC seria o Gabriel Galípolo e que o mercado deixou de lado a utilidade do arcabouço fiscal como âncora para a trajetória da dívida.
Com tudo isso o real desvalorizou e não voltou mais. E o real mais desvalorizado em um país que tem repasse alto vira inflação lá na frente.
O outro fator é a própria atividade econômica. Tínhamos uma ideia no começo do ano de que não seria um ano fraco para crescimento, mas foi mais forte do que todo mundo estava esperando, e concentrado em consumo alimentado por gastos do governo.
Esse tipo de crescimento é particularmente inflacionário porque você está aumentando a demanda sem necessariamente aumentar oferta, e, em resposta a isso, os preços sobem.
Acredito que vai ser muito pouco e muito tarde. Não vejo disposição do governo de vir com um pacote de medidas que de fato vá ancorar o crescimento da despesa e fazer com que o mercado fique menos pessimista com a trajetória da dívida. Não está no DNA desse governo, que desde a campanha acredita que tem um mandato de expandir gastos e acha que isso vai gerar crescimento e no fim se pagar.
Tem uma tentativa do Ministério da Fazenda de manter pelo menos o arcabouço, mas ele perdeu a utilidade, pois você pode cumprir todos os requisitos e ainda assim a dívida continua crescendo. Não vou dizer que ele é totalmente desimportante, seria pior obviamente se o governo não tivesse perseguindo nem essa âncora, mas é muito pouco.
Os preços de tela refletem a preocupação de que o Banco Central vai perder o controle sobre o processo de inflação. Isso não quer dizer que a Selic vai subir até 13,5%, esse não é o cenário central e não é o que o esse BC que está entrando provavelmente vai querer fazer. Mas o mercado coloca um prêmio de risco para um quadro em que as coisas pioram muito, o câmbio deprecia mais, a inflação sobe mais e o Copom tem que levar o juro para um patamar mais alto.
Então não acredito que seja um exagero [a reação do mercado] porque esse cenário que acabei de descrever é factível e não é nem improvável.
Se olharmos outubro, esse foi um mês no qual os ativos brasileiros não foram muito piores do que os ativos lá fora. Foi um mês ruim para o real, mas também foi ruim para praticamente todas as moedas que são ligadas a commodities e de países emergentes. O real desvalorizou, o peso chileno desvalorizou, o peso colombiano desvalorizou, as moedas da Austrália e Nova Zelândia também, todo mundo está apanhando junto contra o dólar.
Ou seja, outubro em particular não teve uma mudança da percepção do mercado com o Brasil, foi mais um movimento global. A piora do país por si só ocorreu mais naquele período que descrevi, entre abril e junho, sobretudo, quando ficou mais claro para o mercado que o governo não estava levando tão a sério a ancoragem monetária e fiscal.
Depende muito do que vai acontecer nesta semana nos Estados Unidos. Estamos agora em um ponto em que o mercado vai reagir para um lado pro outro. Se o Donald Trump for eleito, ainda há espaço para piorar o mercado, e, dependendo do que ele fizer, muda bastante o cenário pro ano que vem, tanto em termos de crescimento quanto de inflação. Se ele perder a eleição e o governo democrata continuar, tem uma melhor contratada, as coisas ficam mais tranquilas.
Tem uma grande diferença entre o que o investidor pessoa física pode e deve fazer e o que nós precisamos fazer aqui na Neo. Temos nos nossos fundos multimercado um mandato de procurar ideias de investimento que deem um retorno acima do CDI. Dito isso, não é um ambiente em que teremos esse retorno simplesmente comprando dívida do governo. O juro real longo está muito alto e o juro nominal longo está acima de 13%, mas estamos em um ambiente em que a Selic pode ir facilmente para 13% ou mais. Logo, esses títulos de prazo mais longo sequer empatariam com a Selic, o que torna o nosso trabalho aqui mais difícil.
Para um investidor pessoa física, acredito que estamos em um ambiente bom. O juro no Brasil voltou a ficar ridiculamente alto — para carregar título do governo de prazo curtíssimo ou overnight há uma remuneração de 8% acima da inflação, algo que não vemos em lugar nenhum do mundo.
A chance de problema é baixa, então para você que poupa em reais e gasta em reais estamos em um período excelente. Não é bom para quem tem ações ou outros ativos que dependam do juro longo ficar mais baixo, mas quem está no CDI está super confortável.
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