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Chamado de “padrinho” pelo futuro presidente do BC, o economista Luiz Gonzaga Belluzzo diz o que esperar da gestão de Gabriel Galípolo à frente da autoridade monetária
Poucas pessoas têm tanta propriedade para avaliar o trabalho de Gabriel Galípolo, o próximo presidente do Banco Central (BC), quanto o economista Luiz Gonzaga Belluzzo.
Os dois compartilham muito mais do que a paixão pela Sociedade Esportiva Palmeiras.
Nos agradecimentos de sua dissertação de doutorado em economia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Galípolo afirma “pretensiosamente” considerar-se “afilhado” de Belluzzo, de quem foi aluno na graduação.
Aos 82 anos, o professor dispensa a reverência. “Somos companheiros”, disse Belluzzo em entrevista ao Seu Dinheiro.
Esse companheirismo inclui três livros escritos em conjunto pela dupla:
Todos foram publicados pela editora Contracorrente.
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Nas palavras de Belluzzo, a colaboração com Galípolo é muito profícua.
“Somos companheiros na elaboração dos livros e na discussão econômica, o tempo inteiro”, afirma.
Desde antes de Galípolo ser nomeado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para o cargo de diretor de política monetária do BC, o perfil heterodoxo, o direcionamento da carreira acadêmica e a identificação do economista com desenvolvimentistas como Belluzzo provocaram calafrios em parte do mercado financeiro.
Em maio, por exemplo, uma votação dividida no Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central sugeriu a existência de uma suposta divisão do colegiado em dois “grupos”: um alinhado com o mercado, comandado pelo presidente em fim de mandato Roberto Campos Neto, e outro afinado com o Palácio do Planalto, liderado por Galípolo.
Com o passar do tempo, porém, uma característica pessoal de Galípolo veio à tona e contribuiu para desfazer eventuais temores quanto a sua atuação no colegiado: a predisposição para dialogar com quem pensa diferente.
“Ele tem essa capacidade de comunicação, de conversar com todo mundo”, afirma Belluzzo.
Depois da indicação para a presidência do BC, Galípolo pareceu endurecer o discurso, em alguns momentos chegando a soar até mais conservador do que Campos Neto.
O que muitos podem considerar uma mudança de discurso, Belluzzo qualifica como consciência das obrigações que deveriam ser observadas por quem ocupa cargos públicos.
“Gabriel tem a plena noção de sua função pública. O exercício dessa função pública exige frequentemente que você faça renúncias [pessoais] em nome do interesse coletivo”, afirmou.
Além disso, Belluzzo considera que Galípolo tem clareza quanto à diferença entre sua atuação acadêmica e as demandas dos cargos públicos que ocupou.
Vale lembrar que, antes de ser diretor de política monetária do Banco Central, Galípolo foi secretário executivo do Ministério da Fazenda, sob Fernando Haddad.
No passado, ele também trabalhou na Secretaria de Transportes Metropolitanos do Estado de São Paulo, quando José Serra era governador.
Associado a isso, por mais que as pessoas sejam movidas por ideias, o respeito à divergência é um dos preços a serem pagos pela democracia.
“Você não pode chegar e chutar o balde. Isso só é possível em um regime mais autoritário; na democracia, não”, disse Belluzzo.
Com relação ao que esperar de Galípolo à frente do Banco Central, ele já vem dando mostras de que o fato de ter sido indicado por Lula não é suficiente para se esquivar da aplicação de remédios amargos.
No decorrer do atual ciclo de aperto monetário, as votações têm sido unânimes em favor da alta dos juros.
Em dezembro, quando o Copom elevou a Selic a 12,25% ao ano, a retomada do forward guidance pelo colegiado indica que o BC elevará os juros em um ponto percentual nas duas primeiras reuniões sob o comando de Galípolo.
No que concerne ao dólar, Belluzzo vê com estranheza o fato de o Banco Central ter permitido que o dólar passasse dos R$ 6 quase sem intervir no câmbio.
“Quando o presidente era Jair Bolsonaro, Campos Neto fez mais de cem intervenções no câmbio. Depois da volta de Lula, só uma”, comparou.
Vale observar que a entrevista foi concedida dias antes de o BC anunciar outras ações sobre o câmbio e que essas decisões são colegiadas.
Ainda assim, depois que assumir o Banco Central, talvez Galípolo se mostre mais propenso do que Campos Neto a ativar mecanismos de estabilização da taxa de câmbio — mais provavelmente por meio de operações de swap do que pelo uso de reservas.
O fato é que a sucessão ocorre em um momento delicado. Na avaliação de grande parte dos participantes do mercado financeiro, o Banco Central é atualmente o único fiador da credibilidade fiscal do Estado brasileiro.
Em meio a tudo isso, “Gabriel Galípolo é a pessoa adequada para comandar o Banco Central neste momento”, afirma o “padrinho” Belluzzo.
Ao contrário: em um ano de juros muito altos, avanço machuca bastante o varejo e a indústria de transformação, disse economista-chefe do BTG.
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