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A decisão vem em linha com as expectativas do mercado, que já esperava a manutenção após a deterioração do cenário fiscal brasileiro e as incertezas sobre o rumo dos juros nos Estados Unidos
Dez meses e sete reduções depois, o ciclo de cortes da taxa básica de juros foi interrompido nesta quarta-feira (19). O Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) optou por manter a Selic em 10,50% ao ano.
A decisão vem em linha com as expectativas do mercado, que já esperava a manutenção após a deterioração do cenário fiscal brasileiro e as incertezas sobre o rumo dos juros nos Estados Unidos. A real dúvida dos investidores era se ela seria ou não unânime
E, ao contrário da reunião anterior, Roberto Campos Neto, presidente do BC, e seus diretores não divergiram sobre os rumos dos juros.
O voto pela interrupção dos cortes veio de todos os membros do comitê — entre eles Gabriel Galípolo e Paulo Picchetti, indicados pelo governo ao BC e cotados como possíveis sucessores do presidente.
Além dos ruído políticos, outra grande dúvida do mercado é se a manutenção dos juros hoje indica que o ciclo de cortes chegou ao fim ou se essa é apenas uma interrupção temporária no afrouxamento monetário.
Nesse sentido, o comunicado divulgado junto à decisão repete a pista que já havia sido dada em março ao dizer que o cenário global é incerto, com dúvidas sobre o afrouxamento monetário nos EUA, e o quadro doméstico está marcado por "expectativas desancoradas" que demandam mais cautela.
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"A política monetária deve se manter contracionista por tempo suficiente em patamar que consolide não apenas o processo de desinflação como também a ancoragem das expectativas em torno de suas metas", destaca o comitê.
Para os diretores, indicadores de atividade econômica e do mercado de trabalho segue apresentando "dinamismo maior do que o esperado". Avaliam ainda que medidas de inflação subjacente se situaram "acima da meta" nas divulgações recentes.
Outro ponto atenção para o BC é a política fiscal brasileira. Para os diretores, uma diretriz "crível" e comprometida com a sustentabilidade da dívida contribuiria para reduzir os prêmios de risco dos ativos financeiros e, consequentemente, impactaria a política monetária.
Vale relembrar que o cenário fiscal ficou ainda mais conturbado dias que antecederam o encontro do Copom.
Os ruídos incluíram falas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva que indicaram que o ajuste nas contas da União deve vir principalmente por meio de um aumento na receita. Na sequência, em uma derrota para o governo, o Congresso devolveu uma medida provisória que visava justamente reequilibrar a arrecadação.
A decisão em consenso também ocorre apenas um dia após Lula voltar a fazer duras críticas ao presidente do BC, cujo mandato termina no fim deste ano. As falas geraram incertezas a respeito do posicionamento dos indicados do governo no BC — e se eles cederiam à pressão pública para seguir com os cortes.
Na véspera da decisão, Lula qualificou o Banco Central como a “única coisa desajustada no Brasil” e afirmou que a autarquia não respeita a independência que conquistou. No campo dos ataques ao presidente da instituição, ele disse que Campos Neto não demonstra “capacidade de autonomia” e tem “lado político”.
A declaração faz referência a um evento da última segunda-feira (10), em que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), havia convidado para um jantar o presidente do BC, além de outras figuras importantes como banqueiros, políticos e empresários.
Tarcísio é considerado um herdeiro político do ex-presidente Jair Bolsonaro, que também foi responsável pela indicação de RCN ao Banco Central.
Na visão de Lula, a aproximação de ambos no campo político minaria a confiança de que o BC age de maneira técnica. “A quem esse rapaz é submetido? Como vai a festa em São Paulo quase assumindo candidatura a cargo no governo de SP? Cadê a autonomia dele?”, questionou o presidente na ocasião.
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