Tragédia anunciada? Empresa que leva turistas endinheirados a destroços do Titanic foi alertada sobre problemas em submarino
Dono da OceanGate pilotava o próprio submarino na viagem até o que sobrou do Titanic e tem histórico de minimizar preocupações com segurança

Documentos revelados pela agência de notícias Associated Press indicam que o desaparecimento de um protótipo submarino durante uma descida aos destroços do Titanic poderia ter sido evitado. Isso se os diretores da OceanGate, empresa responsável pela empreitada, tivessem dado ouvidos a uma série de alertas quanto à segurança do aparelho.
Incomunicáveis desde domingo (18) e com um estoque de oxigênio cada vez menor, as chances de sobrevivência das cinco pessoas a bordo do protótipo submarino Titan diminuem a cada hora que passa.
Navios da Guarda Costeira dos Estados Unidos ajudam nas buscas. Entretanto, as esperanças diminuíram consideravelmente depois que um avião militar canadense de vigilância detectou ruídos vindos do fundo do mar nas primeiras horas desta quarta-feira (21).
Destino parecido com o do Titanic?
A notícia alimenta especulações de que o Titan tenha sido esmagado pela pressão da água. Caso isso se confirme, estaremos diante de uma tragédia anunciada. E que talvez pudesse ser evitada com um mínimo de bom senso.
A direção da OceanGate Expeditions foi avisada mais de uma vez que o Titan poderia enfrentar problemas de segurança catastróficos decorrentes da forma como foi desenvolvido.
A informação consta de documentos obtidos pela agência de notícias Associated Press.
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Em 2018, três anos antes de a OceanGate iniciar as expedições até os destroços do Titanic, o então diretor de operações marítimas da empresa, David Lochridge, entregou um relatório segundo o qual a embarcação precisava de mais testes.
Segundo ele, a vida dos passageiros poderia ser colocada em risco quando o protótipo atingisse “profundidades extremas”.
A OceanGate demitiu e processou Lochridge. Segundo a empresa, ele teria violado um acordo de confidencialidade.
Já ex-diretor, Lochridge acionou a OceanGate. Ele alegou ter sido injustamente demitido por levantar questões relacionadas a testes e segurança. As partes chegaram a um acordo alguns meses depois, mas os termos da solução não foram divulgados.
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Quais eram os problemas do protótipo enviado até o Titanic
As preocupações de Lochridge se concentravam principalmente na decisão da empresa de confiar na técnica de monitoramento acústico. Ela consiste na detecção de sons de rachaduras ou estalos no casco sob pressão para detectar falhas.
O método correto, segundo ele, seria o de varredura do casco. Segundo Lochridge, a OceanGate alegou que não existia nenhum equipamento capaz de realizar uma varredura no casco de fibra de carbono de 5 polegadas (12,7 centímetros) de espessura.
“Era um problema porque esse tipo de análise acústica só mostra quando um componente está prestes a ceder, geralmente milissegundos antes de uma implosão, não detecta nenhuma falha antes de exercer pressão sobre o casco”, disse Lochridge perante a justiça.
Além disso, o Titan era projetado para atingir profundidades de aproximadamente 4.000 metros, a mesma onde repousa o Titanic.
Entretanto, de acordo com Lochridge, o visor de passageiros do Titan era certificado apenas para profundidades de até 1.300 metros.
Ainda segundo ele, a OceanGate se recusou a pagar ao fabricante por um visor certificado para 4.000 metros.
As escolhas da OceanGate em relação ao protótipo “sujeitariam os passageiros a perigo extremo”, afirmou ele.
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Por que a OceanGate não deu ouvidos ao ex-diretor
Os documentos obtidos pela AP mostram que a OceanGate optou por não dar ouvidos ao ex-diretor. E também o motivo disso.
Segundo a argumentação da empresa no processo, Lochridge “não é engenheiro nem foi contratado” para realizar ou opinar sobre serviços de engenharia no Titan.
A OceanGate nega que ele tenha sido demitido por expor os riscos. De acordo com a empresa, a demissão ocorreu depois de ele ter se recusado a aceitar as garantias do engenheiro-chefe quanto aos métodos de testagem.
Questionada sobre o assunto, a assessoria de imprensa da OceanGate alegou que o submarino desaparecido foi concluído entre 2020 e 2021 e não seria o mesmo protótipo questionado por Lochridge.
O segundo alerta
O segundo alerta em relação à segurança do submarino também data de 2018. Ele partiu da Sociedade de Tecnologia Marinha, que se autodefine como um grupo profissional de engenheiros oceânicos, tecnólogos, formuladores de políticas e educadores.
Em carta endereçada a Stockton Rush, presidente-executivo da OceanGate, a sociedade pediu que a empresa conduzisse mais testes supervisionados por especialistas antes de lançar o protótipo ao mar.
Segundo relato publicado pelo jornal The New York Times, Rush recusou-se a atender o pedido.
Dono do submarino que levava turistas ao Titanic é um dos desaparecidos
Cinco pessoas embarcaram na Titan na manhã de domingo (18) para a expedição até os destroços do Titanic.
São elas o bilionário Hamish Harding; Shahzada e Suleman Dawood, membros de uma das famílias mais ricas do Paquistão; Paul-Henry Nargeolet, ex-mergulhador da Marinha francesa apelidado de ‘Senhor Titanic’; e Stockton Rush, piloto do submarino e dono da OceanGate em pessoa.
Diante da publicidade em torno do caso, não demoraram a emergir declarações antigas de Rush.
Em 2019, numa entrevista concedida ao canal de televisão CBS, dos Estados Unidos, Rush qualificou a indústria de submersíveis como “obscenamente segura”.
Ao mesmo tempo, porém, revelou certo descaso com a segurança. “Em algum momento, a segurança é apenas puro desperdício”.
Como é o passeio de submarino até o Titanic
É preciso dispor de tempo e muito dinheiro para obter uma vaga no passeio oferecido pela OceanGate até os destroços do Titanic.
A expedição dura em média oito dias entre ida e volta e custa US$ 250 mil por pessoa. No câmbio atual, R$ 1,19 milhão.
A descida de submarino até os destroços do Titanic demora cerca de oito horas. A reserva de oxigênio do protótipo é suficiente para aproximadamente 96 horas.
Quantas vezes o submarino da OceanGate desceu até o Titanic
A expedição do último domingo é a terceira promovida pela OceanGate até os destroços do Titanic.
O luxuoso navio britânico deixou o porto de Southampton em 10 de abril de 1912, mas nem chegou a concluir sua viagem inaugural, com destino a Nova York.
Quatro dias depois de partir, o Titanic colidiu com um iceberg no Atlântico Norte. A embarcação afundou nas primeiras horas de 15 de abril, causando a morte de mais de 1.500 pessoas.
O local do naufrágio não é muito distante da costa do Canadá, mas o casco do Titanic repousa a cerca de 4 mil metros de profundidade.
A OceanGate realizou sua primeira expedição ao local em 2021. A segunda ocorreu em 2022, ocasião na qual o Titan chegou a perder contato com a base antes de concluir sua jornada.
*Com informações da Associated Press, da CNBC, da CBS e do New York Times.
CAOS AÉREO
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