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Olhando para as grandes tendências da próxima década, transição energética emerge como oportunidade com Lula na presidência
Normalmente, os mercados estão corretos e o investidor ganha dinheiro seguindo as grandes tendências dos mais diferentes ciclos ao longo do tempo. Mas, nos momentos em que há erros e você os captura, as distorções de preços são consideráveis.
Enquanto a maior parte dos players de mercado topam retornos medíocres seguindo a manada, aqueles que topam arriscar-se até uma distância mais afastada se destacam.
Estar com a manada é mais seguro, sim, e distanciar-se abre brechas para se perder. Mas, quando o investidor acerta, há uma grande chance de ganhar uma grande bolada.
Com isso em mente, acredito que um dos grandes temas da nova década é a transição energética. Já conversamos sobre algumas tendências neste espaço e gostaria de reservar a primeira coluna de 2023 para revisar algumas delas.
Em termos mais pragmáticos, as cadeias globais de suprimento já começam a ser reorganizadas, de modo a reduzir a dependência de países politicamente instáveis ou que não gozam do mesmo apreço pelos valores ocidentais tradicionais.
A globalização encontra um retrocesso e há oportunidades importantes de reindustrialização local, sob o mote de que é melhor pagar um pouco mais caro do que correr o risco de ter abandonado o suprimento de determinado produto.
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Ninguém quer seguir com esse nível de risco de segurança alimentar e energética. O ponto central dessa argumentação, além da importância dos temas em si, claro, é que o mundo quer energia e comida. Curiosamente, o Brasil tem ambos.
Adicionalmente, somos capazes de liderar uma transição energética na direção de energia renovável, a partir do mercado de carbono, do etanol de segunda geração, do parque hídrico, do desenvolvimento do mercado de gás (boa fonte de transição), da energia eólica e da energia solar.
O mundo gostaria de abraçar o Brasil. A verdade é que, com todas as críticas que possamos ter a ele, Lula foi celebrado na COP-27 e poderia receber investimentos interessados na mudança climática e na transição energética.
O planeta precisa de energia e comida, que temos em abundância. As democracias voltam a ser valorizadas diante do temor com a dependência das autocracias.
O “friend shore ou nearshore" reorganiza todo supply chain global, impondo necessidade de reindustrialização do Ocidente e abrindo uma oportunidade formidável ao Brasil.
Para aproveitá-la, contudo, é necessário seguir pelo caminho da ortodoxia, sem invenções ou aventuras no meio do caminho (preço da irresponsabilidade fiscal e do resgate da nova matriz econômica pode ser alto). Mas se caminharmos bem, podemos nos municiar das grandes tendências verdes globais.
Tudo isso, claro, feito sob o devido dimensionamento das posições, conforme seu perfil de risco, e a devida diversificação de carteira, com as respectivas proteções associadas — investimentos mais arriscados com foco em muito longo prazo devem ter exposição limitada nas carteira, com algo de 1% a 5% (no máximo, para os investidores mais arrojados).
Um dos processos que acredito que mais será vitorioso se relaciona com a economia verde, buscando endereçar a descarbonização da economia até 2050 (2060 em certos casos).
Além dos esforços relacionados com energia limpa, inovações tecnológicas automobilísticas e práticas corporativas mais sustentáveis, um dos motes para endereçarmos a questão do efeito estufa será o mercado de carbono.
E o que é um crédito de carbono? Trata-se de um certificado digital que comprova que uma empresa ou um projeto ambiental (projetos de conservação florestal, reflorestamento de áreas devastadas, energia limpa, biomassa etc.) evitou a emissão (poluição) de 1 tonelada de CO2 (dióxido de carbono) ou CO2 equivalente (outros gases de efeito estufa, como metano, óxido nitroso e outros) em um determinado ano.
O crédito, portanto, funciona como uma ferramenta utilizada por empresas para compensar sua pegada de carbono, ou seu impacto negativo sobre o ambiente derivado da emissão dos gases de efeito estufa, uma vez que certifica que uma tonelada desses gases prejudiciais teve sua emissão evitada ou capturada por meio de algum projeto em algum lugar do mundo.
Precisamos mencionar os dois tipos de mercado de crédito de carbono existentes.
O primeiro é o mercado regulado, em que as empresas são obrigadas a negociar entre si permissões de emissão (poluição), derivadas dos créditos.
Basicamente, os governos estabelecem metas para os setores, e a empresa que estourar a meta tem que comprar créditos, enquanto a que ficar abaixo pode vendê-los.
No segundo caso, por outro lado, temos o mercado voluntário, em que as empresas não são obrigadas a comprar crédito de carbono para compensar os impactos negativos de suas atividades sobre o meio ambiente; isto é, não há obrigações legais para fazê-lo — os agentes o fazem por consciência, antecipação de um movimento regulatório, pressão de investidores e demanda de seus consumidores.
Até agora, no Brasil, só possuíamos o segundo caso. Mas algo mudou recentemente. Em 2022, demos os primeiros passos na regulamentação do mercado de carbono no Brasil, com foco na exportação de créditos, especialmente para países e empresas que precisam compensar emissões para cumprir com seus compromissos de neutralidade de carbono.
O Brasil, com um potencial gigante nesse novo mercado de carbono, deu recentemente um grande passo no sentido de regulamentar a situação.
Claro, ainda é um pequeno avanço frente ao que países europeus, por exemplo, já avançaram.
Ainda assim, há espaço para otimismo! Para os investidores, o jogo começa a ficar cada vez mais interessante, uma vez que podemos considerar os créditos de carbono como um ativo alternativo e capaz de compor carteiras de investimentos.
Chamado por muitos especialistas de “petróleo branco”, muito por conta de sua cor e associação ao mercado automobilístico de fronteira energética (carros elétricos), o lítio é o metal menos denso do mundo.
O material é usado em baterias de íons de lítio, que desempenham um papel cada vez mais importante, especialmente em áreas como veículos elétricos e armazenamento de energia renovável.
Mais eficiente e mais durável do que as demais baterias concorrentes, o metal pode ser talvez uma das commodities mais desejadas para a transição energética pela qual a humanidade deverá passar nos próximos anos.
Sendo admirado pelo armazenamento de energia, em especial em veículos (elétricos e híbridos) e aparelhos eletrônicos do dia a dia (como smartphones, laptops, ferramentas elétricas e câmeras), onde o peso e o uso intensivo são considerações importantes, a demanda por lítio deve continuar a crescer enormemente.
Espera-se que a demanda por lítio continue superando a oferta. O mercado de veículos elétricos e de lítio teve um enorme crescimento no passado recente, evidenciado pelos mais de cinco milhões de veículos elétricos vendidos globalmente até o momento. Gradualmente, o tempo usado para produzir cada veículo individual diminui incrementalmente.
Observa-se que o crescimento significativo da demanda, combinado com a oferta abundante, mas atrasada, acabou levando a um desequilíbrio e a aumentos rápidos no preço do lítio. No futuro, ainda acredito que o lítio continue sendo um mineral atraente, uma vez que não existem muitas alternativas para substituição.
Com isso, entendo que boa parte dos países do mundo, em especial as economias centrais, irão buscar alterar toda a sua frota até o fim da próxima década.
Destaque especial para a China, que passa por uma verdadeira revolução dos elétricos e pretende ter 20% da frota total de veículos elétricos até 2025 (20% da China é muito relevante para qualquer indústria) — o carro elétrico médio usa mais de 5 mil vezes mais lítio do que um smartphone para alimentar a autonomia do veículo.
Em outras palavras, prevê-se que a demanda ultrapasse a oferta de matérias-primas no longo prazo, gerando desconexão entre oferta e demanda.
Com base nisso, pode-se estabelecer um horizonte muito construtivo para as empresas do setor, o que nos traz à oportunidade do dia. Gosto do Global X Lithium & Battery Tech ETF (NYSE: LIT), um fundo índice listado que busca reproduzir o Solactive Global Lithium Index. No Brasil, podemos ter exposição ao ativo por meio do BDR BLBT39.
Quando pensamos em energia renovável no Brasil, não podemos nos esquecer do etanol. E hoje, quando pensamos em etanol, pensamos em Raízen.
A Raízen está entre os maiores produtores individuais de biocombustíveis no mundo e ocupa a posição de maior empresa global de etanol de cana de açúcar, tendo produzido 2,2 bilhões de litros em 2021.
Dentro de seu ecossistema integrado, a companhia controla e opera 26 parques de bioenergia, utilizando a sua própria biomassa (matéria-prima para geração de bioenergia) a partir da cana de açúcar.
Na vanguarda tecnológica da produção de bioenergia, a Raízen é a única companhia no mundo capaz de produzir o chamado etanol de segunda geração (E2G) em escala industrial.
O E2G é 80% menos poluente que os combustíveis fósseis e produzido a partir de açúcares extraídos da celulose, presentes na palha e no bagaço da cana de açúcar – diferentemente do etanol de primeira geração (E1G), produzido a partir do melaço da cana.
A Raízen firmou um contrato para venda de 3,3 bilhões de litros de etanol de segunda geração (E2G) para a Shell, por uma receita mínima de € 3,3 bilhões, diluídos ao longo de 12 anos (de 2025 a 2037). O contrato está conectado, também, a um investimento de R$ 6 bilhões em cinco novas fábricas que entregarão esse volume.
O E2G é uma importante avenida de crescimento para a Raízen, que, com esse anúncio, completa a contratação de 43% da capacidade de E2G prevista para 2030. Assim, essa alavanca de crescimento, que na nossa visão adiciona entre R$ 5 e R$ 8 ao valor justo de CSAN3, fica cada vez mais tangível.
Atualmente, a Raízen já tem uma planta de E2G em operação e outras três em construção, todas com os respectivos contratos de venda já firmados. Para atender a esse novo contrato com a Shell, a Raízen construirá cinco plantas adicionais, com investimento estimado em R$ 1,2 bilhão por cada uma.
Por um lado, esse valor está 50% acima dos R$ 800 milhões estimados à época do IPO, o que vemos como negativo; por outro, os preços do E2G também estão 80% superiores na mesma comparação (US$ 1,30/litro atualmente). Assim, a soma dos investimentos já anunciados pela Raízen em E2G se aproxima de R$ 10 bilhões.
Pelo fato de ser uma energia mais limpa, o E2G captura um prêmio de aproximadamente 70% em relação ao E1G nos mercados internacionais, permitindo ganhos robustos de margem para a companhia.
Além disso, a Raízen é capaz de aumentar sua produção de etanol em até 50% sem plantar um metro adicional de cana de açúcar, dado que a matéria-prima utilizada no E2G provém do bagaço. Hoje, a comercialização do E2G já se mostra rentável.
Vejo que a expansão bem-sucedida da produção de etanol de segunda geração deve destravar grande valor para a Raízen (RAIZ4), colocando-a em uma posição ainda mais importante na matriz energética global.
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