É corte atrás de corte: entenda o impacto das demissões em massa sobre o investimento nas empresas de tecnologia
Cortes devem ter baixo impacto operacional sobre as empresas de tecnologia, mas deve mudar perfil de rentabilidade

Olá, seja bem-vindo à Estrada do Futuro, onde conversamos semanalmente sobre a intersecção entre investimentos e tecnologia. As previsões de começo de ano são uma das grandes tradições do mercado financeiro.
Em quantos pontos o S&P 500 vai fechar 2023? Qual será o nível de juros ao final do ano? E a inflação? Das previsões, deriva-se facilmente quais narrativas estão ganhando representatividade nos portfólios dos investidores globais.
Ou seja, quais serão as apostas de maior convicção para este início de ano.
Nesse sentido, tenho visto três grandes teses ganhando os holofotes:
- Mercados emergentes performarão melhor que os EUA.
- O dólar irá perder força contra as moedas tanto de emergentes, quanto em relação a outros países desenvolvidos.
- E, no segmento de ações, os ativos de value irão performar melhor que os de crescimento.
No escopo dessa coluna, faz sentido nos aprofundarmos no tópico "3", que toca no âmago do investimento em empresas de tecnologia.
Você não é mais o mesmo
Se voltarmos aos idos de 2008, na véspera da crise do subprime, e fizermos o exercício retroativo de identificar as ações que melhor performaram, o resultado é inquestionável:
As ações de tecnologia foram o melhor vetor de investimentos de risco, com larga margem em relação aos demais setores do S&P 500.
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No gráfico abaixo, estão as performances de diferentes setores do índice entre o início de 2008 e o final de 2020.
A linha verde (o índice XLK) representa o setor de tecnologia, enquanto a linha vermelha representa o setor de consumo discricionário, em que as ações mais relevantes são Amazon e Tesla, também associadas à mesma tendência.
Esse padrão foi rompido ao longo de 2021 e 2022. Das suas máximas, a maioria das empresas de tecnologia apresentaram quedas superiores (ou próximas) a 50%, com poucas exceções como Microsoft e Apple.
Como mostra bem o gráfico a seguir — elaborado pelo banco de investimentos Bank of America —, as empresas de tecnologia saíram de 30% para 21% de participação dentro do S&P 500.
A queda das ações de tecnologia ressuscitou o debate entre value e growth.
Mas que debate é esse?
Em geral, podemos simplificar a classificação de value como empresas negociadas a múltiplos baixos de lucro, com dividend yields geralmente interessantes, porém empresas com baixo histórico de crescimento de lucros.
Já o segmento de growth está associado a empresas cujas receitas apresentam crescimento rápido, os valuations são historicamente mais elevados (embutindo perspectivas de que o crescimento será exponencial) e as empresas não costumam ser lucrativas.
Value e growth são como água e vinho.
Para o investidor mais conservador, em busca de dividendos ou mesmo de menor volatilidade, o vinho são as ações de value.
Se encaixam neste quesito ações de grandes empresas como os bancos americanos (JP Morgan, Bank of America e outros), além de outros nos segmentos de utilities e consumo básico, como P&G, Home Depot e J&J.
Para o investidor mais arrojado, em busca de ganhos de capital e disposto a encarar muito mais volatilidade, o growth foi o vinho que os levou da euforia à ressaca nos últimos 10 anos.
Aqui estão as Big Techs, empresas de semicondutores e representantes de vários outros setores, em geral aqueles que estão executando planos de crescimento.
Por exemplo, uma varejista com plano de abrir 500 lojas nos próximos anos, como a americana Floor and Decor (NYSE: FND), pode ser classificada como um case de growth, tanto quanto uma empresa de tecnologia.
De volta às previsões para 2023
Depois dos últimos 10 anos, começa a crescer no mercado a sensação de que, enfim, chegou o momento em que as ações da value irão ressuscitar.
O apelo de que aquela sua ação barata, que há 20 anos negocia a 10 vezes lucros, agora vai passar a ser uma ação mais cara.
Tenho uma série de ressalvas contra esse argumento, mas vou deixá-las para uma coluna futura. O que eu gostaria de instigar o investidor é em relação ao seguinte:
O que tech precisa para passar a ser value?
Acredito que a resposta é bem simples: parar de dar prejuízo, e passar a dar lucro.
Se você tem acompanhado as notícias dos layoffs no setor, deve ter percebido que essa transformação está acontecendo.
Numa empresa de tecnologia típica, entre 20% e 25% das receitas são gastas em custos de produto, geralmente a fatura da infraestrutura em nuvem e os salários relacionados aos funcionários dessas verticais.
Hoje, assumindo que essa seja uma empresa com margem líquida negativa de 10%, pelos menos outros 65% das receitas são gastos com salários de funcionários entre marketing, vendas e pesquisa e desenvolvimento.
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Pelas minhas estimativas, com base no último formulário anual do Google, um salário médio no departamento de pesquisa e desenvolvimento roda a casa de US$ 1 milhão de dólares anuais.
Claro que essa média é uma medida mentirosa, afinal existe uma enorme dispersão na amostra, mas confirma a percepção de que os funcionários de tecnologia são muitos caros.
Os layoffs, por piores que sejam para todas as pessoas impactadas, serão medidas que farão com que rapidamente essas empresas passem do prejuízo ao lucro.
Além disso, estudos como o do WSJ, mostram que a maioria das pessoas demitidas estão recolocando rapidamente, ainda que com salários menores.
Com esses ajustes estruturais, num intervalo de alguns trimestres, muitas empresas de tecnologia serão capazes de expandir mais de 10 pontos percentuais de margens; arrisco dizer que esses cortes terão pouco impacto na capacidade dessas empresas em seguirem operando e serão algo que estruturalmente mudará o seu perfil de rentabilidade.
Na minha opinião, escapa ao debate hoje um evento em andamento: o growth se tornará value muito antes do que o mercado imagina.
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