As projeções para a inflação caem há 11 semanas; o que ainda segura o Banco Central de cortar juros?
Dados de inflação no Brasil e nos EUA podem redefinir apostas em cortes de juros, caso o impacto tarifário seja limitado e os preços continuem cedendo

Nesta semana, o foco dos investidores se volta para os dados de inflação ao consumidor (IPCA) de julho no Brasil e nos EUA, divulgados hoje. É possível que, ao ler essas palavras, os números já estejam disponíveis, permitindo comparar o resultado obtido.
O movimento negativo dos últimos dois pregões no mercado local se insere em um agosto até aqui favorável, marcado por uma reversão do quadro de julho, quando o dólar se fortaleceu relativamente mais uma vez.
Isso porque, após o payroll de julho, sinais de fraqueza no mercado de trabalho americano reacenderam apostas de cortes de juros nos EUA, enfraquecendo o dólar e sustentando ativos de risco, aos moldes do que vimos ao longo do primeiro semestre (diferente de julho) — se a taxa americana cair para perto de 3%, haveria menos razão para manter a Selic em 15%, abrindo espaço para corte nos juros e favorecendo a entrada de capital estrangeiro via carry.
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Projeções do mercado para a inflação medida pelo IPCA recuam há 11 semanas
No Brasil, por sua vez, a expectativa para o IPCA recua há 11 semanas no Focus, elevando as chances de cortes de juros ainda em 2025.
Historicamente, a virada de ciclo da Selic costuma redirecionar fluxos para a bolsa, que já encontraria suporte.
Naturalmente, porém, a decisão de cortar dependerá de inflação controlada, reancoragem das expectativas e sinais mais claros de desaceleração econômica.
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Com esses vetores se alinhando, cresce a probabilidade de um ciclo mais construtivo para o mercado local, embora a trajetória siga cada vez mais dependente do contexto global.
Trajetória da Selic depende do calendário de corte de juros nos EUA
Afinal, a trajetória da Selic permanece intrinsecamente vinculada ao calendário de cortes de juros nos EUA, o qual segue travado pela incerteza em torno da guerra comercial promovida por Donald Trump.
Caso o impacto tarifário se revele limitado — e, sobretudo, na ausência de uma escalada direcionada ao Brasil —, abre-se espaço para um primeiro corte já em dezembro por aqui.
Esse cenário é válido, claro, se o Federal Reserve iniciar seu próprio ciclo de flexibilização monetária antes disso. Nesse contexto, os dados de inflação americana de hoje assumem importância redobrada.
Inflação no Brasil pode terminar 2025 abaixo de 5%
Há fundamentos para acreditar que a inflação brasileira possa encerrar 2025 abaixo de 5%, o que reforçaria a possibilidade de o Banco Central antecipar o início dos cortes.
Para que esse cenário se materialize, contudo, será necessário que a inflação corrente continue convergindo com um perfil qualitativamente benigno, que a atividade doméstica siga desacelerando de forma gradual e que o ambiente externo apresente sinais semelhantes — inflação mais comportada e crescimento menos aquecido nos EUA —, criando espaço para cortes também por lá no intervalo de setembro a outubro.
Para esta terça, o mercado projeta inflação de julho em 0,37% no Brasil (aceleração frente ao mês anterior, mas fato já incorporado aos preços, o que deslocaria o foco para a composição do índice) e de 0,3% nos EUA.
Leituras acima das expectativas tenderiam a enfraquecer a tese de cortes, mas há espaço para surpresas positivas.
Paralelamente, o cenário comercial segue no radar.
O plano de contingência contra o tarifaço deve ser apresentado ainda nesta semana, com potencial de gerar impactos fiscais que podem comprometer adicionalmente a ancoragem das expectativas.
O ministro Fernando Haddad havia prometido um encontro com Scott Bessent nesta quarta-feira para ampliar a lista de isenções — que deve incluir também o café e, com alguma sorte, as carnes — e negociar a redução das tarifas punitivas, mas a reunião foi cancelada.
Enquanto isso, o deputado Eduardo Bolsonaro deve manter conversas com interlocutores da Casa Branca. Qualquer retomada da escalada comercial aumentaria o risco no curto prazo e reduziria de forma relevante as chances de cortes na Selic.
Há espaço para juros mais baixos?
Entretanto, se o cenário comercial não sofrer novas tensões, não surgirem surpresas fiscais relevantes no curto prazo e a inflação seguir convergindo para baixo — no Brasil e no exterior —, acompanhada de desaceleração da atividade e cortes de juros nos EUA, abre-se espaço para levar a Selic a patamares mais baixos.
Uma taxa abaixo de 12% em 2026 ainda seria elevada, mas representaria um alívio frente aos níveis atuais.
No horizonte, porém, as eleições de 2026 começam a ganhar peso, com pesquisas reforçando o quadro de polarização — um fator de preocupação para os mercados.
O rali esperado para os próximos 18 meses dependerá não apenas da política monetária, mas também da formação das expectativas eleitorais.
O mercado buscará um projeto reformista e fiscalista para 2027, capaz de destravar reformas estruturais (um projeto assim ajudaria a reancorar as expectativas, abrindo espaço para cortes adicionais).
Por conta disso, movimentos no Centrão indicam tentativa de alinhamento ao ex-presidente Jair Bolsonaro, com definição de apoio prevista até o fim do ano ou início do próximo.
De certa forma, mantido um ambiente de relativa pacificação, a tendência positiva vista na última semana pode se sustentar, impulsionada pela expectativa de cortes de juros e pela gradual incorporação de um rali eleitoral aos preços dos ativos.
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