O Brasil entre o impulso de confrontar e a necessidade de negociar com Trump
Guerra comercial com os EUA se mistura com cenário pré-eleitoral no Brasil e não deixa espaço para o tédio até a disputa pelo Planalto no ano que vem

A última semana foi marcada por uma combinação particularmente densa de fatores — geopolítica, dados econômicos e tensões sobre a condução da política monetária — que mantiveram os mercados em constante estado de alerta. Nos EUA, o relatório de empregos muito abaixo do esperado reacendeu com força as apostas em cortes de juros, com parte do mercado já precificando até três reduções ainda em 2025.
O dado fraco, por si só, já seria suficiente para alterar o humor dos investidores, mas o contexto político adicionou ruído extra: a saída de Adriana Kugler do Federal Reserve abre caminho para mais uma nomeação de Trump ao comitê, enquanto a demissão da comissária do Bureau of Labor Statistics, Erika McEntarfer, logo após a divulgação do payroll, foi lida como interferência direta na tecnocracia econômica — um gesto preocupante que fragiliza a confiança nas instituições (péssimo sinal de credibilidade).
Do lado do Brasil, a principal frente de atenção veio do campo comercial.
Com o tarifaço de 50% sobre exportações brasileiras prestes a entrar em vigor nesta quarta-feira, Donald Trump indicou abertura para dialogar com Lula, sinalizando uma rara oportunidade de contenção diplomática em meio ao aumento da temperatura bilateral.
Alguns produtos estratégicos — como suco de laranja, aeronaves e fertilizantes — escaparam, o que reduziu o impacto, mas o ambiente entre Brasil e EUA segue instável.
Mais do que isso, cresce o risco de ruído na comunicação do governo brasileiro.
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Justamente quando o bom senso recomendaria discrição e pragmatismo, Lula voltou a adotar um tom provocador em relação aos EUA, durante discurso no encontro nacional do PT, em Brasília.
A retórica inflamada — que pode agradar a militância — soa, neste contexto, como uma escolha mal calibrada, que dificulta a abertura de um canal efetivo de negociação.
Para piorar, a tensão foi agravada com a prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro, o que adiciona mais um ingrediente de instabilidade política interna ao ambiente já contaminado.
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Seguir escalando o conflito é tudo que o Brasil não precisa.
Agora, o governo prepara um novo pronunciamento em cadeia nacional de rádio e televisão — movimento que, mais uma vez, pode deixar o mercado às voltas com sinais ambíguos e declarações imprecisas.
Seguimos presos em uma ciranda populista, com o lulopetismo à esquerda e o bolsonarismo à direita, ambos empenhados em interditar qualquer debate sério sobre as fragilidades estruturais do país — a começar pela delicada situação fiscal, que permanece como o grande nó da agenda brasileira.
O cenário político se transforma em um teatro de ruído constante, em que os fatos perdem protagonismo e os símbolos ganham peso desproporcional.
Nos bastidores, há expectativa de uma conversa entre o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, ainda nesta semana.
O governo brasileiro tenta negociar a exclusão de produtos como cacau e manga do tarifaço de Trump — a carne bovina, por ser também produzida nos EUA, tem chances reduzidas de escapar, mas ao menos pode ter a alíquota suavizada.
Enquanto isso, Lula aproveita a oportunidade política.
A figura de um inimigo externo — neste caso, Trump — é o ingrediente perfeito para reacender um discurso nacionalista que vinha perdendo tração no Brasil. E, até aqui, o estratagema funciona.
A popularidade do presidente subiu marginalmente, mesmo que sua taxa de reprovação continue elevada: os 40% de avaliação “ruim/péssimo” permanecem intactos. É difícil de mudar isso.
Como já discutimos por aqui, os ganhos políticos têm sido pontuais, superficiais e sustentados sobre uma base frágil — que pode ceder assim que os impactos econômicos das tarifas começarem a aparecer com mais clareza para o eleitorado.
Tarifas comerciais, ainda que revestidas pelo discurso de defesa da soberania nacional, carregam um histórico robusto de efeitos colaterais indesejados.
Ao desorganizar cadeias produtivas, tendem a reduzir o crescimento, corroer a competitividade e, no limite, elevar o desemprego.
O risco de deterioração do chamado “índice de miséria” — que combina inflação e desemprego — é concreto e politicamente corrosivo.
O Brasil na corda-bamba
Além disso, o Palácio do Planalto caminha sobre uma corda-bamba retórica: precisa manter viva a narrativa nacionalista sem escorregar para o populismo eleitoral explícito, justamente enquanto conduz tratativas com os americanos.
O apoio circunstancial de setores como o agronegócio e segmentos do empresariado pode evaporar caso o apelo simbólico sobreponha-se à lógica econômica.
O governo do Brasil sabe disso. Persistir na escalada da guerra comercial não seria apenas imprudente — seria um erro estratégico de alto custo, inclusive cambial (o dólar não hesitaria em reagir, elevando a inflação).
No campo político, o momento ainda favorece o governo, em boa parte porque a oposição se encontra fragmentada, sem discurso claro e refém do desgaste crescente da ala mais radical do bolsonarismo.
A figura de Jair Bolsonaro e de seu entorno oferece ao lulismo o antagonista ideal. Mas esse equilíbrio é instável. Agora, com a prisão domiciliar do ex-presidente, o espaço para uma alternativa moderada em 2026 se amplia.
O mercado, aliás, já começava a precificar o desconforto com um eventual quarto mandato de Lula, diante da combinação de fragilidade fiscal.
Contudo, a tendência é que, sem um rival radical no páreo, o maniqueísmo do “nós contra eles” de Lula perca potência — e que nomes mais palatáveis voltem a atrair apoio.
Nesse cenário, surgem como alternativas viáveis figuras como Tarcísio de Freitas e Ratinho Jr., ambos capazes de dialogar com a direita e o centro. Mas o caminho será longo. Se há algo certo nesse enredo, é que o roteiro até 2026 não reservará espaço para o tédio.
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