Bolsa barata e queda de juros? Entenda por que não baixar a guarda mesmo com o cenário mais otimista para o mercado financeiro
No boxe e no mercado financeiro, uma estratégia pode até ser boa, mas tomar uma porrada no queixo pode fazer tudo ir por água abaixo

Quando Mike Tyson foi questionado por um repórter se estava preocupado com Evander Holyfield e seu plano de luta, ele respondeu: "Todo mundo tem um plano até levar um soco na boca."
Tanto o Mike Tyson como o Holyfield foram dois dos maiores pesos pesados que o boxe já viu. Um dos momentos mais icônicos da história do boxe aconteceu em uma luta envolvendo os dois em 1997.
O que Tyson quis dizer com essa frase é que a estratégia pode até ser boa, mas tomar uma porrada no queixo pode te tirar do eixo. No momento em que isso acontece qualquer estratégia pode ir por água abaixo.
Isso vale para o boxe, como na aula de estratégia e tática de Muhammad Ali contra George Foreman no que ficou conhecido como rumble in the jungle – a estratégia de Ali era cansá-lo e tirá-lo do sério e a tática era ficar nas cordas e parar a luta a todo momento dizendo algumas palavras no ouvido do adversário; mas também vale para o mercado financeiro.
O boxe e o mercado financeiro
Estratégia e tática são duas variáveis importantíssimas dentro de uma carteira de investimento.
Assim como Ali seguiu à risca sua estratégia de sobrevivência e precisou ser paciente para aguentar as porradas do Foreman sem cair no ringue, nosso objetivo na Carteira Market Makers também é ficar de pé.
E ficar de pé no mercado financeiro é montar uma carteira que sobreviva aos diferentes cenários possíveis, seja através de um portfólio que combine fluxos de caixa de diferentes indústrias ou mesmo se protegendo contra eventuais tempestades - que, inclusive, costumam vir após dias de sol.
Entre o dia 6 de abril e o fechamento de ontem, a Carteira Market Makers subiu 25%. Praticamente em linha com o índice small caps (+25%), mas bem acima do Ibovespa (+16%) no mesmo período.
Algumas teses que gostávamos muito, como Vulcabras (VULC3), andaram bastante de lá para cá, e outras como a Porto (PSSA3), começaram a maturar na semana passada após os dados da Superintendência de Seguros Privados (Susep) mostrarem uma sinistralidade de automóvel bem abaixo do que o mercado esperava.
Narrativas do mercado e carteiras de investimentos
A mudança de narrativa do mercado também contribuiu bastante para esse bom desempenho da carteira. Até o início de abril, não havia consenso algum em relação à queda dos juros e os eventos políticos ainda faziam bastante preço.
No Brasil, o arcabouço fiscal saiu melhor que o esperado, as expectativas de inflação estão caindo semana após semana, o PIB brasileiro do 1º trimestre surpreendeu positivamente e já há quem acredite que o Brasil vai crescer bem acima das expectativas nos próximos anos no que seria um Milagre Econômico parte 2.
Enquanto nos Estados Unidos – a meca do mercado financeiro no mundo – a narrativa de estabilização do juro no patamar atual entre 5% e 5,25% sem necessariamente causar uma recessão tem ganhado cada vez mais força.
Previsão de cenário macroeconômico no Brasil e no mundo não está no nosso círculo de competência, mas sabemos que no Brasil o macro importa bastante. Até por isso, tentamos sempre estar com um olho e meio no micro e meio olho no macro.
O mercado financeiro baixou a guarda?
Por mais que eu continue acreditando que (i) bolsa está barata, (ii) que o juro curto tem espaço pra cair, (iii) que os locais ainda estão pouco alocados em ações e (iv) que essa combinação tem potencial para gerar um ciclo virtuoso na bolsa – não à toa estamos 92% alocado em ações na Carteira MMakers –, esse cenário de ‘oba-oba’ me acende um alerta.
Tivemos gatilhos importantes ao longo das últimas semanas, mas (i) ver uma onda de sell sides gringos elevando suas recomendações em Petrobras para Compra e (ii) movimentos brutais de alta em ações que não necessariamente têm uma história de investimento interessante – alavancadas e com duration longo – me acendem um segundo alerta.
Tenho a sensação de que o mercado financeiro parece ter ‘baixado à guarda’.
Nosso trabalho de buscar assimetrias continua – é aqui o nosso círculo de competência – mas junto a isso estamos estudando algumas formas de proteger o patrimônio da carteira. A proteção pode ser fazendo um pouco de ‘caixa (R$)’ ou mesmo através de estratégia com opções.
Ninguém bate o carro de propósito para ativar o seguro, assim como nenhum investidor quer que seu patrimônio caia, mas já viu vendedor de capa de chuva em dia de show? Compare o preço que ele oferece o produto quando não tem uma nuvem no céu e o preço quando começa a chover.
O céu do mercado financeiro parece bastante ‘limpo’ neste momento, mas ainda não é – ou talvez nunca seja – a hora de baixar a guarda.
Essa semana teremos dados de inflação nos Estados Unidos hoje às 9h30; decisão de juros do Fed amanhã às 15h; e decisão de juros do Banco Central Europeu quinta-feira às 9h15.
Se fizermos algo, os assinantes da Comunidade Market Makers serão avisados.
Um abraço,
Matheus Soares
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