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Jasmine Olga

Jasmine Olga

É repórter do Seu Dinheiro. Formada em jornalismo pela Universidade de São Paulo (ECA-USP), já passou pelo Centro de Cidadania Fiscal (CCiF) e o setor de comunicação da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo

REPORTAGEM ESPECIAL

Esqueça uma nova leva de IPOs: 2023 pode ser o ano das fusões e aquisições na B3 — e de algumas despedidas da bolsa

O boom dos IPOs em 2020 e 2021 deixou saudade nos investidores, mas também uma série de empresas capitalizadas e com ‘bala na agulha’ para ir às compras e que podem movimentar o xadrez corporativo nos próximos meses.

Jasmine Olga
Jasmine Olga
19 de janeiro de 2023
6:01 - atualizado às 15:08
Ilustração relaciona IPO a casamento
IPO representa uma espécie de "casamento" das empresas com investidores na bolsa - Imagem: Pomb

A pandemia do coronavírus pode até ter restringido as festas e interações sociais, mas não faltaram convites para tapetes vermelhos na B3 em 2020 e 2021: foram muitas as cerimônias de gala para as ofertas iniciais de ações (IPOs, na sigla em inglês) na bolsa brasileira. 

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É bem verdade que o tradicional toque da campainha na bolsa aconteceu de forma remota na maioria das vezes, mas isso não apaga o fato que dezenas de empresas aproveitaram a era dos juros baixos para realizar suas aberturas de capital ou reforçar o caixa no mercado secundário (follow ons). 

O sucesso das ofertas, no entanto, não se traduziu em uma garantia de bom desempenho na bolsa. E isso porque a pandemia deixou cicatrizes só remediadas com uma boa dose de aperto monetário. Ou seja: o dinheiro ficou mais caro, a liquidez mais limitada e os investidores mais criteriosos.

Em pouco tempo, as novatas da bolsa se viram em níveis de endividamento menos saudáveis do que os de um ano antes; em paralelo, a expectativa de crescimento de muitas companhias foi drasticamente afetada pela alta do juros. 

Com a Selic voltando a ficar acima dos 10% ao ano, os convites para as estreias na B3 minguaram em 2022. Mas, por mais que os juros sigam acima dos dois dígitos, os investidores — acostumados à bonança dos últimos anos — parecem ansiosos pela retomada dos IPOs.

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Ainda que as incertezas quanto ao futuro da política econômica persistam, o fim das eleições presidenciais levou alguns agentes do mercado a ventilarem a possibilidade de que 2023 será um ano de reabertura da janela de aberturas de capital. 

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A verdade, no entanto, é que essa realidade parece pouco provável.

Boa parte dos agentes do mercado parecem acreditar mais na possibilidade de um 2023 marcado por operações de fusões e aquisições (M&As) e ofertas públicas de aquisição e deslistagem (OPAs) do que uma retomada do ritmo de estreias visto nos últimos anos. 

Na sopa de letrinhas, M&As > IPOs

O primeiro analista com quem conversei e que indicou que o mar não está para IPOs foi Victor Natal, estrategista para pessoa física do Itaú BBA. Ele ainda lembrou que embora muitas listagens badaladas façam os olhos dos investidores brilharem, operações de M&As podem destravar mais valor ao pequeno investidor — uma vez que, na maior parte do tempo, as grandes ofertas de ações ficam restritas aos investidores institucionais e grandes bancos. 

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Como termômetro do mercado para 2023, o Seu Dinheiro procurou outros especialistas para fazer um raio-x do xadrez corporativo nos próximos 12 meses: Daniel Damiani, sócio da JK Capital, boutique especializada em transações de M&As; Marcus Mazetto, da área de Investment Banking do Banco Fator; e Vinícius Carmona e Victor Molchansky, diretor de RI e sócio-diretor da BR Partners, respectivamente.

O diagnóstico foi quase unânime: é mais provável que vejamos mais empresas saindo da bolsa ou embarcando em operações de fusão e aquisição do que novas estreias na B3 ao longo dos próximos meses. 

Não vai ser preciso esperar muito para ver as primeiras transações sendo fechadas — segundo os especialistas, 2023 começa com uma demanda reprimida que se arrasta desde o terceiro trimestre de 2022. 

E as primeiras notícias já começam a sair. Na semana passada (14), a GP Investments (GPIV33), empresa de private equity fundada pelo empresário Jorge Paulo Lemann, anunciou uma Oferta Pública de Aquisição (OPA) por até 100% das ações BRPR3, a um valor de R$ 1,60 por ação, pago em dinheiro.

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Boatos também movimentam o setor de varejo: há rumores de que a Guararapes (GUAR3), controladora da Riachuelo, estaria procurando uma potencial compradora; especulações envolvendo a Lojas Renner (LREN3) e a C&A Brasil (CEAB3) também circularam, embora tenham sido negadas pelas empresas.

A ressaca da festa de estreia

Entre 2019 e 2021, quase 200 empresas foram à bolsa para captar recursos em ofertas primárias ou secundárias de ações, movimentando algo próximo de R$ 400 bilhões. 

É bem verdade que uma parte desse capital voltou para o bolso dos próprios acionistas, mas foi o suficiente para que muitas companhias saíssem dessa festa com o caixa reforçado, prontas para executar projetos de consolidação de mercado. 

A ressaca da festa veio na forma de companhias capitalizadas e com bastante “bala na agulha” para ir às compras e expandirem os seus domínios. A elevação do custo da dívida abriu espaço para que grandes companhias avançassem sobre pequenas e médias empresas. 

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Segundo dados da BR Partners, banco de investimentos independente que oferece assessoria para operações de fusões e aquisições, o ano de 2021 ficou marcado por quase meio trilhão de reais transacionados pela indústria brasileira de M&As. 

Para a JK Capital, foi esse boom que deu tração para muitas operações de M&As nos últimos anos, mas as coisas poderiam ter ido além caso o cenário internacional adverso e o posterior caos político local não tivessem atrasado o plano de muitas empresas.                  

“No segundo semestre, percebemos uma puxada de freio de mão muito nítida. Eram projetos que estavam no nosso planejamento para serem finalizados em 2022 e não seguiram, e estão fechando agora”, explica Damiani. 

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Para o executivo, a incerteza que mexe com a bolsa de valores e pode afastar possíveis novas empresas da B3 por conta do momento de mercado pode, também, acelerar negociações de fusão que já estão em andamento — sem ver uma janela para que IPOs aconteçam, vendedores e investidores correm com os processos, com medo de perder as condições ideias para fechar o contrato. 

“Acho que a ‘vantagem do M&A’, é que você não precisa desistir do negócio. Talvez tenha que adequar a sua estratégia ao que está se desenhando do ponto de vista de governo e cenário macroeconômico para cada setor. O risco que enxergo hoje é eventualmente descambar-se para um lado muito irracional na economia”, aponta o especialista da JK Capital. 

Segundo ele, a estratégia adotada pelo boutique de investimentos será de acelerar o máximo possível as transações, para que uma eventual deterioração do cenário não afete os termos dos contratos. 

Isso porque as negociações dependem de modelos preditivos que podem ficar mais complexos de serem alimentados. O comprador quer o valor mais atrativo possível, mas esse só é atingido se o vendedor tiver uma visão tão pessimista quanto a dele — o que, muitas vezes, gera um gap entre as expectativas. 

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Afinal, ninguém quer “vender na baixa” se acredita em uma potencial melhora do clima do mercado.

A preferência pelo mercado secundário domina até mesmo os bancos de investimento. De acordo com Victor Carmona, da BR Partners, é possível sentir que estrategistas dessas instituições preferem fazer operações diretamente no mercado secundário a se arriscar em ancorar uma nova oferta de ações. 

Otimismo renovado

Enquanto o novo governo dá os primeiros passos, o clima do mercado de fusões e aquisições está em compasso de espera para determinar quais setores devem liderar a corrida em 2023, mas não há dúvidas sobre o potencial das operações. 

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A JK Capital iniciou 2023 com o seu maior número de mandatos ativos da história — com cerca de 60 negociações em andamento, contra a média de 40 negociações de anos anteriores. 

A BR Partners também começa janeiro confiante — ainda que veja incertezas com relação ao segundo semestre. Isso porque o banco de investimento tem um cronograma “robusto e resiliente”, com discussões avançadas e que logo devem se traduzir no fechamento de contratos em breve. 

Isso não significa que veremos uma bonança no universo de fusões e aquisições — o cenário segue complicado e impacta movimentações mais estratégicas, com fundos de private equity e venture capital, além das empresas listadas, com as torneiras mais fechadas e seletivas nas escolhas de projetos.  

Os executivos da BR Partners também citam como obstáculo um eventual descompasso entre acionistas e o mercado financeiro, com os primeiros encontrando dificuldades em aceitar avaliações mais realistas para transacionar suas posições.

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Ainda assim, o otimismo segue elevado: os especialistas citam ativos de “qualidade excepcional” para movimentos estratégicos. “Como sempre falamos por aqui, o Brasil é uma economia forte e diversificada. Temos ativos privados e listados com uma qualidade excepcional. Nosso mercado se mantém muito maduro e funcional”, explica Victor Molchansky, da BR Partners. 

Outro fator que ajuda no crescimento de operações de M&As nos últimos anos e que deve seguir encontrando espaço em 2023 são as empresas familiares de médio porte. Para Daniel, da JK Capital, o segmento parece mais disposto a esse tipo de transação do que era há uma década.

Na visão de Marcus Mazetto, do Banco Fator, o investidor local deve ser o grande protagonista das operações vistas em 2023, uma vez que o cenário internacional mais avesso ao risco deixa o gringo com pouco apetite para transações “cross border”. 

Mazetto explica que o mercado local tem grandes grupos capitalizados para liderar essas operações. Além disso, eventuais candidatas a realizar um IPO podem optar por buscar investidores estratégicos como forma de driblar o momento adverso de mercado da bolsa. “Pode começar a fazer sentido algumas empresas se juntarem ou fecharem a capital e partir para uma outra estratégia de crescimento via aquisições”. 

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Oi e tchau

A expectativa dos analistas é facilmente explicada ao se olhar o retorno das companhias que entraram na bolsa na última leva de IPOs — dá para contar nos dedos as empresas que possuem um retorno positivo desde a estreia, com muitas delas apresentando perdas superiores a 50% do seu valor de mercado. 

Para Damiani, a dificuldade em recuperar o capital investido na ancoragem de determinados IPOs pode levar algumas empresas a considerarem a entrada de um investidor estratégico — ou uma fusão que leve a um fechamento de capital —, “para engordar a estratégia e criar algum músculo para o futuro”. 

A BR Partners, que participou do processo de deslistagem da Getnet no ano passado, diz ter observado e participado de operações semelhantes, já que muitas empresas possuem bons ativos, com gestão e estratégia de qualidade. A forte destruição de valor, no entanto, pesa na balança. 

“A gente imagina que o processo de deslistagem pode ser intuitivo para muitos nomes. Não é uma escolha fácil para o controlador, muito menos pra própria empresa,  usar caixa nesse momento de juros altos para esse tipo de movimento. É preciso ter uma estratégia de movimento subsequentes muito clara para justificar algo dessa natureza, mas vemos essa tendência sim”, esclarece o diretor de RI do banco de investimentos. 

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Uma luz no fim do túnel

Com os juros altos, muitas empresas viram os seus principais múltiplos e indicadores sofreram grande deterioração. O custo da dívida aumentou, a liquidez na bolsa migrou para ativos mais resilientes e o custo-oportunidade do investimento em renda fixa foi às alturas. 

Os especialistas consultados pela reportagem são unânimes em sua leitura de que, além da decisão de sair da bolsa, muitas transações com o intuito de promover uma reestruturação financeira devem acontecer ao longo de 2023 — o que envolve a venda de subsidiárias e ativos, e eventual entrada de novos sócios estratégicos. 

O Banco Fator tem trabalhado com diversas empresas do setor imobiliário, visando a diminuição do endividamento e maior sustentabilidade financeira para a entrega de melhores resultados no futuro. 

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A BR Partners também tem tentado conciliar o seu braço de M&As com operações de reestruturação. De acordo com o diretor de RI da instituição, esse é um segmento que os grandes bancos, por muitas vezes atuarem com oferecimento de crédito, acabam deixando de lado. 

As grandes apostas

Não há como negar que o cenário é desafiador — seja para ofertas de ações na bolsa ou o andamento das negociações de fusões e aquisições —, mas alguns setores parecem estar mais preparados para liderar a ida às compras e despontar como grandes consolidadores no mercado brasileiro. 

Se no último boom  de IPOs e M&As as empresas novatas e teses de crescimento engrossaram o caldo, em 2023 são as companhias consolidadas e de setores mais tradicionais que devem se destacar. 

Para o Banco Fator, os investidores estratégicos estão de olho em mercados mais tradicionais, com grande demanda endereçável e ambiente maduro de regulação — como utilities, energia elétrica, telecomunicações, infraestrutura e o agronegócio. 

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Falando em setor elétrico, a BR Partners vê a possibilidade de uma redução de participação estatal em nível estadual e também da venda de ativos, principalmente no setor hidrelétricos, por parte de empresas internacionais. 

A  JK Capital e a BR Partners também estão otimistas com o potencial da agroindústria. O forte crescimento recente e os subsídios de financiamento, principalmente por parte dos bancos públicos, deixam os analistas otimistas. 

“O agro não alcançou todo o seu potencial no mercado de capitais, seja via ações ou emissão de dívidas. O que temos visto aqui e com outros bancos de investimentos é uma busca por incentivar a entrada de players com novos instrumentos”, explica Vinícius Carmona. 

O setor de tecnologia também não fica de fora, principalmente empresas ligadas à segurança digital.

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Hora de arrumar a casa

Em meio à nova realidade, protagonistas do passado recente podem assumir uma postura de coadjuvantes em 2023. Isso porque a forte movimentação no xadrez de fusões e aquisições nos últimos anos pede um momento de calmaria para que todas as peças se encaixem bem nas novas engrenagens. 

Para Daniel Damiani, da JK Capital, grande parte da consolidação que se iniciou nos últimos anos já foi feita. “Em um cenário de incerteza econômica e juros elevados, esses setores vão priorizar arrumar a casa antes de partir para uma nova onda de M&As”. 

O setor de saúde foi um dos que mais anunciaram transações de crescimento inorgânico, com destaque para empresas como Hapvida (HAPV3), Rede D’Or (RDOR3) e Notre Dame Intermédica, que promoveram operações transformacionais para o segmento. 

Para os especialistas consultados pela reportagem, isso não significa que o pote irá secar definitivamente. Ainda há espaço para que as movimentações continuem, mas as características das operações devem ser diferentes daquelas vistas desde 2019, auge dos caixas robustos. 

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Ao invés do nascimento de grandes operadoras e redes de hospitais, a aposta agora é que as companhias fortaleçam o seu ecossistema — indo atrás de empresas de medicamentos, infraestrutura hospitalar, tratamento genômico e oncológico, odontologia e diagnóstico. 

"O que acontece agora é que o mercado está cobrando um pouco a conta da integração e das teses de investimentos que foram aposta durante o bull market”, aponta Victor Molchansky, da BR Partners.

Com a virada no humor dos mercados, o que era esperado para ser concluído em dois ou três anos agora pode levar mais tempo. Isso significa um ajuste na curva de resultados dessas companhias, levando a uma atitude mais comedida no plano de expansão via aquisições. 

Outro setor que fez muitas manchetes na editoria de fusões e aquisições nos últimos anos foi o de Educação. Damiani vê as empresas educacionais avançando, uma vez que a movimentação recente não foi o suficiente para reverter a característica de pulverização — principalmente no que diz respeito ao mercado de educação básica, ensino básico e não regulado, e em suas verticais de Medicina. 

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A BR Partners também se mostrou otimista com o setor financeiro. Para os executivos do banco de investimentos, as grandes instituições devem seguir correndo atrás das startups e fintechs que trouxeram disrupção ao segmento nos últimos anos, com muito espaço para consolidação.  

*Atualizado em 26/01: No 20º parágrafo, a cifra de meio trilhões de reais transacionada em 2021 diz respeito à toda indústria de M&As no Brasil, e não apenas pela BR Partners, como constava na versão original. O texto já está corrigido — pedimos desculpas pelo inconveniente.

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