Até quando a Selic vai ficar estável? Nem Campos Neto quis responder
O presidente da autoridade monetária acrescentou que a possibilidade de retomada da alta dos juros não depende de apenas um fator, mas de um conjunto de variáveis

O presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, evitou comentar quão "suficientemente prolongada" deve ser a manutenção da Selic — que está em 13,75% ao ano — em níveis elevados para se que chegue à metas de inflação.
"Vai depender de como o processo inflacionário se desenvolve. Deixamos claro que existem riscos para as projeções, que estamos vigilantes e que podemos inclusive voltar a subir os juros", disse Campos Neto em entrevista coletiva do Relatório Trimestral da Inflação (RTI), nesta quinta-feira (29).
O presidente da autoridade monetária acrescentou que a possibilidade de retomada da alta dos juros não depende de apenas um fator, mas de um conjunto de variáveis.
"Não tomamos atitudes ligadas a apenas uma variável. Falamos e temos uma preocupação com a inflação de serviços. Tem um tema que ocorre em todo o mundo que é uma mudança estrutural de mão de obra. É um conjunto de fatores."
Por fim, Campos Neto esclareceu ainda que o Comitê de Política Monetária (Copom) considera como "redor da meta" um intervalo entre 0,2 e 0,3 ponto porcentual para cima ou para baixo.
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Decisão dividida sobre a Selic
O presidente do Banco Central ainda minimizou a decisão dividida da última reunião do Copom. Ele argumentou que o voto dissidente de dois diretores era por uma alta residual de apenas 0,25 ponto porcentual.
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"Não foi uma diferença muito grande. O principal debate era se os 0,25 p.p, [adicionais] fortalecia a mensagem ou não. Entendemos que não fazia tanta diferente, mas alguns membros entenderam que como mensagem era importante. Alguns membros achavam que alguns componentes inflacionários podiam ter impactos mais persistentes", disse Campos Neto.
Meta da inflação vai ser cumprida?
Neste ano, as chances da meta da inflação ser cumprida são poucas. Ainda durante a entrevista coletiva, o Banco Central informou que, em seu cenário de referência, há 7% de chance de a inflação ficar na meta este ano.
Além disso, a autoridade monetário informou que a estimativa para a inflação foi revisada de 8,8% para 5,8%, depois de uma série de medidas do governo Jair Bolsonaro para abaixar os preços dos combustíveis e energia elétrica às vésperas da eleição.
Definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), a meta de inflação para este ano é de 3,5% e será considerada cumprida se oscilar entre 2% e 5%.
Segundo o BC, a probabilidade de a inflação de 2023 ficar acima do teto da meta, de 4,75%, está em 46%, conforme o RTI. O cálculo tem como base a Selic variando conforme o Relatório de Mercado Focus e o câmbio atualizado com base na Paridade do Poder de Compra (PPC).
Já a probabilidade de a inflação ficar abaixo do piso da meta em 2023, de 1,75%, é de 2%. O centro da meta é de 3,25%.
Em 2024, a probabilidade de estouro do teto de 4,50% da meta é de 11%, enquanto a possibilidade de estouro do piso de 1,50% da meta é um pouco maior, de 17%. O alvo central é de 3,00%.
O horizonte relevante do Comitê de Política Monetária (Copom) atualmente considera os anos-calendário de 2023 e, em menor grau, de 2024. Mas, devido aos efeitos das desonerações tributárias sobre os combustíveis e as dúvidas quanto à duração dessa política, o BC preferiu dar ênfase ao horizonte de 12 meses terminados no primeiro trimestre de 2024.
O BC ainda fez os cálculos para um horizonte mais longo, de 2025. Nesse caso, a probabilidade de estouro do teto da meta, de 4,50%, é de 11% e, do piso, de 1,50%, é de 17%. O centro da meta é de 3,00%.
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Cenário alternativo de inflação
Campos Neto disse ainda que o cenário alternativo de inflação apresentado pelo Copom, com hiato zero, não significa que o colegiado não acredita no seu modelo — que estima o hiato em -0,9% no segundo trimestre. No mesmo período, a mediana do mercado é de -0,2%, segundo o questionário pré-Copom.
Segundo o presidente do BC, a intenção com o cenário alternativo foi "elucidar as possibilidades". Nesse cenário, as projeções do BC para a inflação ficam um pouco mais altas, mas ainda "ao redor da meta" em 2024 (3,00%). Para 2023, passa de 4,6% no cenário de referência para 4,9% e, para 2024, de 2,8% para 3,00%, nessa ordem.
"Não significa que entendemos que nosso modelo não é bom previsor de hiato. Há muita incerteza. Entendemos que ajudaria a elucidar as diferentes possibilidades com cenário alternativo com hiato zero, lembrando que o mercado tem projeções muito diferentes", disse.
Campos Neto considerou que o cálculo do hiato é bastante difícil e tem se tornado mais complexo, com discussões de mudança estrutural na mão de obra após a pandemia de covid-19 e sobre a medição do Nível de Utilização da Capacidade Instalada (Nuci).
"O ponto principal de termos feito o cenário alternativo foi dar um guia para o mercado sobre quais seriam as possibilidades", repetiu Campos Neto.
"O objetivo do exercício alternativo foi pensar qual é o impacto na projeção de visão diferente sobre hiato corrente", reforçou o diretor de Política Econômica, Diogo Guillen.
*Com informações de Estadão Conteúdo
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