O que pensa Liz Truss, a nova primeira-ministra do Reino Unido, e a pedreira que ela vai pegar no governo
A clara prioridade econômica de Truss é cortar impostos, uma medida que ela insiste que irá reiniciar uma economia estagnada e ajudar os britânicos com as contas de energia

Dificilmente alguém entraria em um avião tendo a certeza de que o voo será cheio de turbulências. Mas foi o que fez Liz Truss, eleita a nova primeira-ministra do Reino Unido.
De cara, ela terá que enfrentar uma crise econômica marcada por uma inflação fora de controle e que vem forçando o Banco da Inglaterra (BoE, o banco central britânico) a elevar a taxa de juro para tentar segurar os preços.
A vantagem — se é que podemos falar isso — é que Truss sabe bem quem é o seu maior inimigo: o aumento desenfreado dos custos da energia.
Nas últimas semanas, o governo britânico recebeu uma enxurrada de pedidos de intervenção para apoiar os mais vulneráveis, depois que as contas de energia chegaram a 3.500 libras, ou espantosos R$ 21.018,00, para a família média britânica.
A própria Truss reconheceu a pedreira que vai encarar, afirmando em entrevista na semana passada, antes da eleição, que o Reino Unido enfrenta "alguns desafios muito, muito sérios" que exigirão ação imediata do governo.
Na ocasião, ela disse: “Se eu for eleita como primeira-ministra, dentro de uma semana vou garantir que haja um anúncio sobre como vamos lidar com a questão das contas de energia e do abastecimento de longo prazo para colocar este país no caminho certo”.
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Tributos: a prioridade de Liz Truss para o Reino Unido
A clara prioridade econômica de Truss é cortar impostos, uma medida que ela insiste que irá reiniciar uma economia estagnada e ajudar os britânicos com as contas de energia.
A nova primeira-ministra prometeu reverter o recente aumento do seguro nacional e cancelar um reajuste programado no imposto sobre as sociedades, a um custo combinado de cerca de 30 bilhões de libras (R$ 180,1 bilhões) por ano.
A equipe de Truss também sugeriu a ideia de reduzir o Imposto sobre Valor Agregado (IVA) em 5% ou cortar o imposto de renda para ajudar no orçamento doméstico.
Embora a premiê tenha dito que seus planos seriam pagos pela margem fiscal e pelo atraso no pagamento de dívidas relacionadas à covid-19, os críticos argumentaram que ela precisará tomar empréstimo de somas consideráveis, a taxas potencialmente caras, com algum custo para a economia.
Há também um ceticismo considerável sobre uma resposta baseada em cortes de impostos para a crise dos custos de energia, que beneficiaria desproporcionalmente os que ganham mais e não faria nada por aqueles que dependem de pensões ou benefícios.
Truss também está de olho no clima
A nova primeira-ministra também espera receber uma forcinha do clima para ajudar a resolver o problema dos custos de energia, que estão sacrificando a economia britânica.
Para isso, ela reforçou o compromisso com a meta de zerar as emissões no Reino Unido e sua equipe reforçou que ela se concentrará em energia renovável.
Nesse pacote, entra uma das poucas políticas diretas de Truss sobre o custo de vida: suspender as chamadas taxas verdes nas contas de energia — essas taxas são usadas para investir em sistemas renováveis.
E fora do custo da energia, está tudo bem?
Por enquanto, Truss falou pouco sobre seus planos para o setor de saúde em meio à expectativa generalizada de que as coisas piorarão muito no inverno britânico.
Embora ela permaneça comprometida com os planos existentes para apoiar o NHS, o sistema de saúde do Reino Unido, há a questão de que Truss prometeu reverter o aumento do seguro nacional — cujos recursos serão usados para tampar o buraco deixado pela pandemia de covid-19.
Especialistas dizem ainda que muitos dos problemas com ambulâncias existem porque os leitos hospitalares estão cheios de pessoas incapazes de acessar assistência social, por isso, Truss precisará de um plano coerente em breve.
A imigração também está na mira da nova primeira-ministra. Durante a campanha, ela prometeu dobrar a política de deportação de requerentes de asilo — resta saber até que ponto isso é viável, ou se teria algum impacto no número de pessoas que cruzam o Canal da Mancha por meios não oficiais.
A visão de Truss para política externa e Brexit
A política externa não deve mudar muito sob o governo de Truss. A expectativa é que ela reforce o apoio à Ucrânia na guerra contra a Rússia.
Truss também é uma crítica da Irlanda no processo de separação do Reino Unido da União Europeia (UE).
Mas com tantas outras crises para enfrentar, provavelmente ela não deve declarar uma guerra comercial contra os irlandeses do norte nesse momento.
O chamado Protocolo da Irlanda do Norte procura amenizar os efeitos do divórcio entre Reino Unido e UE sobre as duas Irlandas, já que a parte nordeste da ilha saiu do bloco junto com os britânicos, enquanto a do sul, a República da Irlanda, continua no mercado europeu.
Para evitar uma fronteira dura entre elas, o governo britânico concordou em deslocar essa linha para o mar. O resultado é que hoje, ainda que o protocolo não tenha sido integralmente implementado, há controles alfandegários entre Irlanda do Norte e Grã-Bretanha, ambos parte do Reino Unido.
*Com informações da Sky News e do The Guardian
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