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A inflação ao consumidor (CPI) dos EUA segue em alta e já chega a 9,1%, no acumulado em 12 meses — bem acima das projeções do mercado. O cenário aumentando a probabilidade de o Fed elevar a taxa de juros em 1 pp em julho, no que seria o maior aperto desde os anos 90
“1, 2, 3…” Se fosse uma luta de boxe, o árbitro teria aberto a contagem para saber se o Federal Reserve (Fed) vai conseguir levantar e continuar a luta contra a maior taxa de inflação em 40 anos nos EUA.
Também não é para menos: o banco central norte-americano levou um cruzado de direita do índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) nesta quarta-feira (13).
O indicador segue surpreendendo para cima e já chega a 9,1% no acumulado em 12 meses — as previsões da Dow Jones giravam em torno de 8,8% após o resultado de junho.
Nem mesmo a ligeira redução do chamado núcleo de inflação, que exclui os preços mais voláteis de alimentos e energia — um recuo de 6% em maio para 5,9% em junho, no acumulado em 12 meses — serve como consolo: essa retração foi menor que a esperada pelos economistas.
E, mais preocupante ainda: em uma base mensal, o núcleo do CPI avançou de 0,6% em maio para 0,7% no mês passado, chegando à leitura mais alta em um ano.
Se Jerome Powell, presidente do Fed, for fã de Rocky Balboa, a chance é de assistirmos ao BC dos EUA apanhar até o último minuto para então levantar-se, partir pra cima e vencer o combate — com muitas escoriações, é verdade.
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E é nisso que a maioria dos traders acredita: o Fed vai reagir e dar um duro golpe para que a inflação perca força de vez.
Assim como no esporte, a política monetária tem uma espécie de casa de apostas própria. Embora não valha dinheiro, os traders conseguem medir a temperatura do que vai acontecer nas próximas reunião do Fed.
Quem compila os dados é o CME Group, com base em uma análise de contratos futuros dos chamados fed funds, como a taxa de juros dos EUA é conhecida.
Depois do resultado da inflação de junho, os traders passaram a enxergar uma probabilidade de 60% de aumento da taxa referencial em 1 ponto percentual (pp).
Se isso acontecer, será o maior aumento desde que o Fed começou a usar diretamente a taxa de juros para conduzir a política monetária, no início dos anos 90.
Mickey Goldmill, Paulie Penino, Duke… Rocky Balboa contava com técnicos e assistentes para vencer no ringue. Assim como o lutador eternizado pelo cinema, Jerome Powell — o presidente do Fed — também tem uma equipe para enfrentar suas batalhas.
No mês passado, Powell disse — depois que o banco central norte-americano aumentou o juro em 0,75 pp, para uma faixa de 1,5% a 1,75% — que uma elevação de 0,50 pp ou 0,75 pp era provável em julho.
Desde então, a maioria dos membros do Fed ecoou o mesmo discurso ou endossou um movimento maior.
O presidente do Federal Reserve de Atlanta, Raphael Bostic, alimentou hoje as expectativas crescentes de uma ação mais agressiva do Fed, dizendo que a inflação de junho pode exigir um aumento de 1 pp na reunião do final deste mês.
Uma ideia mais clara do que eles pensam deve ser conhecida hoje à noite, quando a presidente do Fed de Cleveland, Loretta Mester, será entrevistada pela Bloomberg TV.
Amanhã quem deve falar é o diretor do Fed, Christopher Waller, enquanto o presidente do Fed de Atlanta, Raphael Bostic, e seu colega de St. Louis, James Bullard, têm eventos na sexta-feira.
Depois disso, os membros do Fed entram no período de silêncio pré-reunião. O próximo encontro do banco central norte-americano acontece nos dias 26 e 27 de julho.
No caso de Balboa, ele sempre repetia o mantra “sem dor, sem dor” para dizer a si mesmo que um determinado golpe não seria capaz de derrubá-lo.
No caso do Fed, a luta contra a inflação pode ser com dor. Isso porque um aumento tão agressivo dos juros, ainda que telegrafado pelo banco central para não pegar ninguém de surpresa, pode lançar a economia dos EUA na recessão.
“Se de fato o Fed elevar em 1 pp em julho e em 0,75 em setembro, acho que as perspectivas de crescimento para o final do ano provavelmente se deteriorarão”, disse Michael Feroli, economista- chefe do JPMorgan Chase & Co para os EUA.
“Com o Fed mais agressivo, passa a ser uma questão de que tipo de recessão teremos e não se vamos ter uma recessão ou não”, disse Tom Porcelli, economista-chefe dos EUA da RBC Capital Markets.
Com todos jabs de todos os lados, não tinha como o Brasil não acusar o golpe. A inflação nos EUA traz reflexos aos movimentos de preços por aqui — a exemplo da gasolina, alimentos e produtos industriais.
Ou seja: como a dinâmica entre oferta e demanda no mundo também afeta a inflação no Brasil, preços perdendo ou ganhando força nos EUA acabam sinalizando um comportamento a ser esperado também no cenário doméstico.
Além disso, importamos muitos produtos manufaturados de países desenvolvidos, sendo os EUA um dos principais fornecedores. Assim, quando os preços de determinados produtos sobem por lá, sentimos parte dessa alta por aqui, via importação.
Claro, contabilizando aí também a diferença da taxa de câmbio do real em relação ao dólar — no caso, quanto mais desvalorizada nossa moeda, maior impacto terá a inflação nos EUA sobre os nossos produtos.
Além de crédito mais caro, juros em alta significam menor liquidez para os mercados, isto é, menos dinheiro em busca de retornos no mundo.
Além disso, maiores juros nos EUA reduzem a atratividade relativa de ativos em países mais arriscados, como o Brasil.
Isso ocorre devido a redução do chamado diferencial de juros. De maneira simplificada, trata-se de uma comparação do quanto um investidor ganharia investindo aqui no Brasil — considerando a nossa taxa básica de juros como base para retornos — e quanto ganharia dado a taxa básica de juros dos EUA, onde o risco é considerado um dos menores do mundo.
Ou seja: com juros maiores lá, investidores pensam um pouco mais sobre investir aqui, onde o risco é maior.
Deste modo, o rumo dos juros nos EUA também impacta o rumo dos nossos juros aqui. Quanto maiores os juros por lá, menor a entrada de dólares aqui (logo, mais desvalorizada nossa moeda).
Esse movimento impacta a nossa inflação e contribui para maiores juros por aqui também.
Segundo especialistas, proteger os investimentos contra a alta de preços aqui e lá fora torna-se ainda mais essencial no momento atual — além disso, o movimento de alta de juros pode trazer boas oportunidades.
Rachel de Sá, chefe de economia da Rico Investimento, diz que no Brasil, títulos indexados à inflação, como o Tesouro IPCA + 2026, debêntures de empresas sólidas e boas classificação de risco, e fundos de inflação (fundos de investimento que investem em ativos indexados à inflação) são alternativas a serem consideradas pelos investidores.
“Ao mesmo tempo, o período de juros em elevação também traz oportunidades em títulos pós fixados — aqueles que acompanham a nossa taxa básica de juros, a Selic. Tesouro Selic, CDBs de bancos sólidos e fundos de crédito privado também ajudam a aproveitar as oportunidades do ciclo de alta da Selic”, afirma.
Para surfar a onda da alta de juros também o cenário global, Rachel de Sá lembra dos ativos de renda fixa internacional.
Com uma dinâmica bem diferente dos ativos brasileiros, a renda fixa internacional além de incluir muito mais opções de ativos, possui maior liquidez e estratégias que podem ser exploradas por grandes gestores de fundos de investimento, segundo a analista.
*Com informações da Bloomberg e da Reuters
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